quarta-feira, 18 de julho de 2018

Compartilhe

A NFL não é uma liga que costuma sofrer com greves. Durante a história, foram poucas paralisações – a última delas, em 2011, não chegou a realmente prejudicar a temporada, sendo resolvida antes do momento dos jogos se iniciarem. Mas em 1982 foi bastante diferente: tudo aconteceu no segundo semestre, tradicional momento da overdose de futebol americano pelos campos da América do Norte. E a consequência foi um desastre financeiro.

Esse texto faz parte da série histórica que vem sendo produzida durante essa offseason: já falei sobre o surgimento da AFL, sua expansão e fusão com a NFL, sobre as criações de Seattle Seahawks e Tampa Bay Buccaneers e sobre a mudança do Baltimore Colts para Indianapolis na calada da noite. Hoje, é dia de falar sobre greve!

A condição dos jogadores profissionais no início da década de 80 não era das melhores. Eles buscavam melhores salários e eram tratados de forma bastante desleal pelos proprietários: a free agency ainda engatinhava, não havia planos de aposentadoria nem direitos básicos como assistência médica. Enquanto a liga ficava cada vez mais poderosa, com contratos lucrativos de patrocínio e televisão, os atletas ficavam para trás na divisão das fatias do dinheiro.

O pedido principal dos atletas era claro: 55% dos lucros totais da liga em forma deveriam ser divididos entre eles em forma de salários e benefícios. A Associação de Jogadores da NFL tinha pela primeira vez uma organização realmente sólida e com jogadores engajados. Ainda assim, os proprietários se recusavam a ouvir. No dia 21 de setembro de 1982, veio a solução: greve.

Havia acabado de ser disputada a semana 2 da temporada daquele ano. Imediatamente após o fim do Monday Night Football, uma vitória do Green Bay Packers por 27 a 19 sobre o New York Giants, os jogadores anunciaram que não entrariam em campo para a próxima rodada. E nem para nenhuma até que seus pedidos fossem acatados.

Os proprietários responderam com um locaute, impedindo que os centros de treinamento, as academias e as estruturas dos times fossem acessadas pelos atletas. Mas isso não importava: o plano seria seguido à risca. A televisão também sofreu e foi obrigada a tentar passar jogos da Canadian Football League, um grande fracasso de audiência, e até mesmo da terceira divisão do College Football. Tentou organizar partidas entre All-Stars pagando aos jogadores para irem a campo, mas isso também não funcionou.

Imaginem um segundo semestre sem futebol americano. Era exatamente essa a situação que se desenhava. As negociações eram lentas: proprietários pareciam intransigentes. Dia após dia, nada de solução. Mediadores pessimistas, a Associação de Jogadores mantendo a palavra, pressão para que o jogo voltasse. E um longo impasse.

LEIA MAIS: Existe racismo contra quarterbacks negros na NFL?

Apesar de diversos outros assuntos na pauta, o pedido principal da greve era realmente os 55% dos lucros sendo destinados aos jogadores. A NFL se viu obrigada a aceitar. 57 dias depois do início da paralisação, já na segunda metade de novembro, finalmente as negociações tiveram um fim: além de acatar essa demanda chave dos atletas, a liga também precisou prometer que a free agency seria modificada nos próximos anos, um plano de aposentadoria seria criado e as condições de trabalho, de forma geral, melhoradas.

A temporada de 1982  já estava seriamente comprometida. Não só boa parte do calendário foi para o espaço, mas os jogadores estavam todo esse tempo sem treinar. A solução encontrada foi jogar nove rodadas naquele ano – mais sete além das duas que foram disputadas inicialmente – e fazer playoffs expandidos, com dezesseis equipes, um torneio em mata-mata contendo mais da metade da liga até a chegada do Super Bowl.

Essa overdose de times nos playoffs fez com que alguns mais fracos se classificassem, mas obviamente a pós-temporada foi interessante e trouxe algumas grandes partidas. O Miami Dolphins acabou como campeão da AFC, o Washington Redskins da NFC. No Super Bowl XVII, vitória para a equipe da capital por 27 a 17.

Mas o que realmente importa é que a Associação de Jogadores da NFL estava mais fortalecida do que nunca. A partir de 1983, sob o comando de Gene Upshaw, exigiu mais uma série de melhoras, começou a vencer processos trabalhistas e a permitir que realmente os atletas tivessem pagamentos e carreiras dignas. Quando algumas das promessas de 1982 pareciam que não seriam cumpridas, mais uma greve veio em 1987 – escaldada, a liga foi obrigada a resolver tudo de maneira muito mais rápida, impedindo que os prejuízos se repetissem.

Porque sim, os prejuízos foram enormes: 60 milhões de dólares. Não havia possibilidades disso acontecer novamente. Os jogadores aprenderam que podiam vencer a queda de braço com os patrões e passaram a ter sua justa parcela de comando – afinal, sem eles não há espetáculo.

Acompanhe nosso conteúdo mais de perto e fique por dentro de tudo o que rola na NFL e NCAA: Siga nosso Twitter e curta nossa página no Facebook. Para ganhar DEZENAS de benefícios e se tornar um apoiador do site e do nosso trabalho, clique aqui.

Compartilhe

Leave A Reply