quarta-feira, 15 de agosto de 2018

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Você já cansou de ler que os running backs estão com prestígio cada vez menor na NFL, que a liga valoriza mais e mais o passe, que a durabilidade da posição é a menor dentre todas e que o declínio desses operários do esporte é facilmente notado. Não precisaríamos fazer mais um texto sobre isso se não fosse para trazer algo novo. E esse algo novo será tentar comprovar essa afirmação com demonstrações numéricas e estatísticas – será que toda essa conversa realmente é verdadeira?

Esse texto faz parte da série histórica que abordou na semana passada os principais holdouts que já existiram na liga, mas também já trouxe a vocês o surgimento da AFL, seu crescimento e sua fusão com a NFL, as implementações de Seattle Seahawks e Tampa Bay Buccaneers, a fuga do Baltimore Colts para Indianapolis na calada da noite, a greve de 1982, como a free agency se desenvolveu através dos anos e a história do Hall of Fame Game. A temporada dessa coluna está quase chegando ao fim, mas ela voltará na próxima offseason!

O primeiro ponto a ser analisado é a mudança nas regras do passe na NFL. Por mais que a falta de pass interference seja bastante antiga, várias complicações para os defensive backs foram sendo colocadas no passar dos anos. Até meados da década de 70, era permitido que os defensores mantivessem contato com os recebedores durante a rota. A primeira diferença veio em 1977, quando passou a ser permitido apenas um contato. No ano seguinte, 1978, surgiu a penalidade que traria uma radical transição nesse sentido: isso só seria possível nas primeiras cinco jardas, com qualquer intervenção acontecendo depois se tornando ilegal.

Outra mudança de regra foi a intensificação do conceito de “roughing the passer”, que até a década de 90 só acontecia em claríssimas jogadas maldosas dos defensores. A partir de então, começou a fazer parte dessa falta acertar o quarterback após a bola sair de suas mãos, mesmo que muitas vezes os rushers não tenham condições de parar o movimento que já fora iniciado.

Assim, ser quarterback na NFL se tornou muito mais fácil. Em 1993, oito quarterbacks tiveram mais de 60% de seus passes completados, apenas quatro (entre eles, John Elway e Dan Marino) viram menos de 3% dos lançamentos serem interceptados e dez viram essa porcentagem ser maior que 5%. Em 2010, foram vinte que ficaram acima dos 60% de índice de passes completados, dezoito com menos de 3% de interceptações e apenas um com mais de 5%.

Se o passe é cada vez mais seguro, obviamente as equipes o usam cada vez mais, afinal, o ganho de jardas médio é bem superior ao das corridas. 1982 foi o primeiro ano que teve mais jogo aéreo do que terrestre na NFL e desde então a distância só aumenta, como mostra o gráfico abaixo:

Em 2017, nenhuma equipe correu mais do que passou. O Jacksonville Jaguars foi o mais balanceado, apostando no jogo terrestre em 48,9% das chamadas ofensivas. Por outro lado, no Miami Dolphins esse número foi de apenas 36,2%.

Com todo esse histórico sobre porque o número de passes aumentou e os dados sobre o crescimento real de sua utilização e eficácia, podemos passar para a pergunta seguinte: a partir de quando e o quanto isso influenciou na importância dos running backs? O primeiro lugar para se olhar é nos drafts. O número de jogadores da posição selecionados na primeira rodada vem caindo vertiginosamente através das décadas:

Década de 1970 – 44 running backs selecionados nas primeiras rodadas (média de 4,4 por ano)
Década de 1980 – 49 running backs selecionados nas primeiras rodadas (média de 4,9 por ano)
Década de 1990 – 33 running backs selecionados nas primeiras rodadas (média de 3,3 por ano)
Década de 2000 – 30 running backs selecionados nas primeiras rodadas (média de 3 por ano)
Década de 2010 – 12 running backs selecionados nas primeiras rodadas (média de 1,5 por ano)

Para se ter uma ideia, o recorde da posição aconteceu em 1971, quando nada menos do que oito running backs foram escolhidos na primeira rodada. Recentemente, chegamos a ter dois anos consecutivos (2013 e 2014) sem nenhum tendo seu nome chamado na primeira noite de recrutamento.

O reflexo disso é ainda maior nos salários. Em 2013, a Sports Illustrated fez um levantamento com a média dos ganhos de todos os atletas da NFL por posição. Na época, é óbvio, os quarterbacks lideravam com certa folga, seguidos pelos defensive ends, defensive tackles, wide receivers e com linebackers fechando o top 5. Mas e os running backs? Bom, aí vai: o ganho médio deles era de 1,550 milhão/ano. O dos kickers e punters era de 1,662 milhão/ano.

Uma página do arquivo do The New York Times, com artigo originalmente publicado em 1982, conta uma história bastante diferente: quarterbacks já eram os jogadores mais bem pagos da NFL, com uma média de 160 mil dólares/ano. Só que os running backs apareciam logo em segundo lugar, com 94 mil dólares/ano, com defensive tackles, wide receivers e offensive linemen completando o top 5.

Todos os números aqui demonstrados deixam claro como o declínio dos running backs é cada vez mais evidente e essa é uma posição cujo prestígio só diminui – tanto na hora de achar novos prospectos, como na de soltar os cheques. A transição e a mudança da NFL é evidente e, a cada nova regra aprovada, a tendência é a continuação no mesmo caminho.

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