quinta-feira, 24 de maio de 2018

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Entre as mudanças de regras aprovadas pela NFL nessa semana (nosso colega Diego Alex já falou um pouco sobre elas aqui), as que tem maior influência direta no jogo são as relacionadas ao kickoff. Esse é um tema de preocupação constante da liga, já que se trata de uma jogada bastante perigosa e que continua causando um alto número de lesões ano após ano.

Segundo o relatório anual de lesões divulgado pela liga, o número de concussões teve uma alta histórica em 2017, superando qualquer outra temporada desde 2012. Outro detalhe importante é que dois terços desse tipo de lesão acontece justamente no kickoff. Com a necessidade de melhorar cada vez mais a segurança dos atletas, especialmente com as descobertas recentes da medicina quanto aos impactos das pancadas na cabeça na qualidade de vida após o final da carreira dos jogadores, não é surpresa que surjam cada vez mais alterações no formato do chute inicial.

A pergunta dessa semana foi enviada pelo Schimidt (@vschmid7): as mudanças nas regras do kickoff tem algum impacto real na segurança dos atletas e no jogo? Para ter o seu questionamento debatido aqui na próxima semana, envie-o no Twitter para @massaricarlos!

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São oito as novas regras relacionadas ao kickoff e elas mudam bastante o jeito que essa jogada acontece quando se tem um olhar mais treinado, porém, o fã casual não deve perceber muita coisa. A própria NFL divulgou uma animação explicando como é que o pontapé inicial passa a ser a partir de 2018 e você pode vê-la abaixo:

Vamos ver, mudança a mudança, qual a influência de cada uma delas para a segurança dos atletas:

1. O time que chuta deve ter cinco jogadores de cada lado da bola

Essa é a inovação que tem menos efeito prático na segurança e deve influenciar, acima de tudo, dificultando ainda mais as chances de recuperação em onside kicks. Antes, era possível alinhar seis jogadores de um lado e quatro de outro, permitindo que um lado do campo (provavelmente o que a bola iria) ficasse sobrecarregado com atletas com ótimas mãos e altura. Com cinco e cinco, a pequena vantagem que o time chutador podia criar desaparece.

2. Os jogadores do time que chuta não podem estar a mais de uma jarda da linha da bola

Além de também dificultar a recuperação de onside kicks, essa mudança também deve ser, sim, bastante efetiva para evitar concussões. Isso acontece porque a aceleração gerada com os atletas a uma jarda de distância da bola é bem menor do que antes, quando era permitido estar a cinco jardas de distância. Assim, quando acontecerem os choques com o time retornador, a velocidade de cada jogador será menor, causando impactos menos violentos.

Por mais que, quando se pensa em um atleta percorrendo todo o campo, exista a impressão de que essa diferença de aceleração não seja tão grande assim, a NFL supostamente realizou estudos que mostraram que a força gerada pelos choques é bem menor.

3. Pelo menos oito jogadores do time que retorna precisam estar a quinze jardas da bola no momento do chute

Na prática, isso significa que o time recebedor pode ter no máximo três atletas em profundidade. A ideia é eliminar bloqueadores para o retorno, impedindo os times de deixarem atletas de mais força (offensive linemen e defensive linemen) já próximos do retornador para iniciar os bloqueios. Assim, eles não se chocarão com os oponentes em velocidade, outra causa constante de contusões. Também parece uma boa ideia no papel.

4. O fim do bloqueio duplo, ou “wedge blocks”

Se você conhece a história do futebol americano, sabe que uma formação conhecida como “flying wedge” era muito comum em seus primórdios e que ela costumava ser mortal – literalmente. Os wedge blocks, ainda permitidos nos kickoffs, são descendentes dela. Até 2017, dois jogadores podiam se juntar e correr lado a lado para bloquear apenas um, o que era bastante violento e talvez um dos grandes geradores de concussões. Agora, isso deixa de existir.

Essa deve ser a mudança mais importante nas novas regras e que mais deve influenciar na segurança dos jogadores. Era um tipo de bloqueio muito perigoso e que, sinceramente, demorou muito para deixar de existir.

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5. Pelo menos dois jogadores do lado de fora dos números, pelo menos dois entre os números e a bola

A ideia aqui também é de impedir bloqueios conjuntos, espalhando mais os jogadores pelo campo e não permitindo que exista uma “zona de conflito” no meio do campo. De forma geral, é uma das mudanças que menos deve ter influência.

6. Sem bloqueios nas primeiras 15 jardas após o chute antes da bola ser recebida

Antes, existia uma zona de bloqueios na metade do campo onde já começavam as preparações para abrir caminho para o retorno. Agora, não mais. Não é permitido iniciar qualquer contato com o time adversário  nas primeiras quinze jardas se a bola ainda não tiver tocado o chão ou as mãos do retornador. Há uma série de melhoras que poderão surgir a partir daqui.

Primeiro, que nas jogadas que acabam em touchback o contato entre os atletas das duas equipes será bem menor. Segundo, que os jogadores do time retornador precisarão correr até próximos a fim do campo para só então iniciarem os bloqueios, não podendo fazê-lo já no meio do campo. Isso deve impedir choques em velocidade total e ajudar muito na segurança, mas também dificultar bastante que os retornos existentes consigam ir longe.

7. Não haverá corrida do time chutador antes do contato do kicker com a bola

Essa regra tem ligação direta com a da distância entre time e bola (de cinco para uma jarda): antes, os jogadores ficavam mais para trás e já saiam correndo antes do chutador bater na bola, agora, só podem iniciar o movimento após isso acontecer. Mais uma vez, a aceleração e a velocidade passam a ser menores, diminuindo a violência dos eventuais choques.

Ao contrário da mudança anterior, essa tem a tendência de facilitar os retornos, já que os atletas adversários demorarão mais para chegar no fundo do campo e darão mais tempo aos retornadores para iniciarem seus movimentos.

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8. Se a bola toca o chão na endzone, é automaticamente um touchback

A principal mudança e a que será percebida por todas as pessoas que assistem ao jogo: uma vez que a bola toca o chão na endzone, é touchback. Isso deve diminuir o número de retornos, já que é comum que atletas façam a recepção depois de um toque no chão e tentem avançá-la. E é mais um passo da NFL na direção de “eliminar completamente o kickoff”, caminho que vem sido traçado em passos curtos, mas que provavelmente um dia chegará ao destino.

Resumindo: eu não acredito que todas essas mudanças farão do kickoff uma jogada segura, mas são medidas paliativas que podem ajudar um pouco. O número de concussões deve, sim, cair em 2018. Só que não consigo ver ainda essa diferença como significante o bastante para garantir o futuro da existência dessa jogada.

Do lado da emoção do jogo, há prós e contras – os onside kicks, que já eram muito difíceis de serem recuperados, ficam ainda mais. Quanto às chances de touchdowns em retornos, algumas regras as aumentam, outras as diminuem. Com a bola saindo menos vezes da endzone graças à oitava regra citada, porém, é possível imaginar que o número de grandes jogadas também acabe caindo.

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