quarta-feira, 29 de agosto de 2018

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A NFL dos anos 50 era muito diferente. As regras que hoje tanto beneficiam o ataque não existiam e, por isso, ser um jogador de defesa era um trabalho menos complicado. Era possível fazer contato com os recebedores durante as rotas, dar pancadas de todas as formas, muitas vezes assustadoras pela quantidade de violência, e o jogo terrestre predominava. Já falamos mais sobre essas mudanças nessa análise sobre a queda da importância dos running backs.

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Foi nesse contexto que atuou Dick “Night Train” Lane. Qualquer lista de melhores cornerbacks da história o colocará no top 10, muitas no top 5 e algumas na primeira colocação. Seus números impressionam – 68 interceptações (sendo 14 como calouro), seis touchdowns, sete idas ao Pro Bowl, sete seleções como All-Pro. Sua carreira durou uma década e meia e foi dividida entre Los Angeles Rams, Chicago Cardinals e Detroit Lions. Mas ainda mais impressionante do que a passagem de Lane pelo futebol americano é a sua trajetória de vida, que contaremos a seguir.

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Esse texto é parte da série história que tem sido desenvolvida na off-season e durará até o início da temporada regular. Na semana passada, falei sobre os melhores jogadores não draftados da história recente. Antes, já falei sobre o surgimento da AFLseu crescimento e sua fusão com a NFLas implementações de Seattle Seahawks e Tampa Bay Buccaneersa fuga do Baltimore Colts para Indianapolis na calada da noitea greve de 1982como a free agency se desenvolveu através dos anos, a história do Hall of Fame Game e os principais holdouts que já aconteceram.

Dick Lane nasceu em 1928, no Texas, filho de um cafetão e uma prostituta. Aos três meses de idade, foi abandonado em uma lata de lixo. Segundo sua mãe, com quem se reconciliaria mais tarde, ela foi obrigada a deixá-lo ali sob fortes ameaças. Por sorte, ele acabou sendo encontrado e adotado por Ella Lane, mãe solteira de outros quatro filhos, que ganhava a vida em uma pequena lavanderia. A infância foi bastante pobre e sofrida. Ele chegou a trabalhar como engraxate nas ruas de Austin, mas era mesmo no bilhar que conseguia somar alguns trocados.

Na época, o Texas era extremamente racista – mantinha diversas normas de segregação social como ônibus para brancos e negros, escolas para brancos e negros, banheiros para brancos e negros, quase tudo que você possa imaginar para brancos e negros. Lane teve, portanto, que estudar numa dessas escolas que eram exclusivas para pessoas “coloridas”, como se usava o termo no inglês. Após a high school, ele foi contratado para atuar em um time da Baseball da Negro League – sim, a MLB também ainda não aceitava afro-descendentes.

Em 1948, aos 20 anos de idade, Lane se alistou no exército. Foram seis anos servindo na Califórnia até sua dispensa, em 1954, quando conseguiu um emprego por ali mesmo em uma companhia aérea fazendo limpeza de materiais pesados. O ônibus que ele pegava para o trabalho passava em frente os escritórios do Los Angeles Rams. Um dia, ele entrou e solicitou um tryout. Quando foi visto pelos treinadores da equipe, imediatamente impressionou – foi descrito como o atleta mais feroz que já tinham visto.

Foi assim que Dick Lane ganhou um emprego na NFL e fez sua estréia em 1952. Foi uma das maiores de sua carreira e uma das maiores que um cornerback viria a ter no futebol americano profissional. Ele somou nada menos do que quatorze interceptações (e a temporada regular tinha só doze jogos!), duas delas retornadas para touchdown.

Lane não era um jogador que teria espaço na NFL de hoje. Seu estilo, como descrito acima, era absolutamente feroz. Fazia tackles que constantemente tiravam seus adversários do jogo. Gostava de ir diretamente na cabeça e no pescoço, afirmando que assim os jogadores com a bola cairiam para trás, e não para frente, não somando mais jardas. E a regra da falta por agarrar a grade do capacete, conhecida como face mask, foi criada por causa dele, em 1961 – também era um hábito fazer esse tipo de tackle.

Porém, vale dizer que na época tudo isso era legal, e que portanto não dá para se dizer que Dick “Night Train” Lane era um jogador sujo. As regras foram se moldando com o tempo, trazendo não só mais segurança para os atletas, como também mais facilidades para os ataques.

A carreira do atleta foi brilhante por seus quatorze anos na NFL, até a aposentadoria em 1965. Por mais que ele nunca tenha repetido sua temporada de calouro, sempre se manteve entre os principais defensores da liga. Podemos destacar também as dez interceptações de 1954 e a sequência consecutiva que foi deste ano até 1963 sempre sendo selecionado como All-Pro.

Mas temos que destacar que, naquela época, não se fazia muito dinheiro como atleta profissional. Após encerrar sua carreira, Lane precisou retornar ao mercado de trabalho, chegou a ser segurança particular do comediante Redd Fox e depois ficou quase duas décadas na administração da liga de futebol americano da polícia de Detroit. Ele tinha sérios problemas de mobilidade e hoje acredita-se que sofria de CTE, a doença cerebral que é tão associada a esse esporte.

Depois de tudo isso, você certamente ainda tem uma pergunta: mas e esse apelido, “Night Train”? Era polêmico, já que sempre era associado a uma conotação racial, mas na realidade não tinha esse cunho. Ele surgiu por causa de uma música de jazz com esse nome, de Jimmy Forest, muito famosa na época. Dizia-se que Dick Lane sempre começava a dançar quando a ouvia e, por isso, ganhou sua eterna alcunha que talvez seja mais famosa que seu próprio nome.

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