quinta-feira, 12 de julho de 2018

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Nas últimas semanas, tenho publicado uma série de textos sobre a transformação da NFL no que ela é hoje. Falei sobre o surgimento e o crescimento da AFL, a fusão entre as duas ligas e as duas primeiras expansões após essa data. Hoje, vamos a uma história mais conhecida: como o Baltimore Colts se tornou Indianapolis Colts?

Comandado por Johnny Unitas, o Baltimore Colts se colocou entre os principais times da NFL no final dos anos 50. Foi bicampeão em 1958 e 1959, sendo que o triunfo sobre o New York Giants no primeiro é conhecido como “o melhor jogo de todos os tempos” e visto como um grande responsável pelo aumento da popularidade do futebol americano profissional. Depois, ainda venceria já na era do Super Bowl, em 1970.

Mas tanto no início anos 80 (a época que tratamos neste texto) como hoje, a relação entre cidades e franquias é bastante complicada. Os proprietários tem o poder de chantagear e manipular prefeitos e governantes caso achem que as condições necessárias não estão sendo cumpridas, acertando a mudança para outros lugares. Não é à toa que recentemente temos visto uma grande onda de realocações – Chargers e Rams para Los Angeles, Raiders para Las Vegas.

O dono do Colts na época era Robert Irsay, um homem difícil e com sérios problemas com álcool, como seu próprio filho Jim (o atual dono) descrevia. Após uma série de tragédias pessoais, ele passou a dar cada vez mais declarações polêmicas e a agir como bem queria. Em uma entrevista coletiva, mandou um recado à cidade de Baltimore: “esse time não é de vocês, é meu”. Mais tarde, retratou-se, com “eu não vou levar embora essa porcaria de time”.

Secretamente, Irsay negociava com as cidades de Phoenix e Indianapolis. Quando Baltimore bateu o pé contra um novo estádio, ele se aproveitou da vontade do projeto da cidade em Indiana, William Hudnut, de transformá-la na “grande cidade americana” – para isso, era necessário possuir uma franquia da NFL. O contrato foi assinado às pressas e não houve tempo nem para a notícia alcançar a grande mídia – a mudança do Colts seria um ato de pura insanidade.

Irsay ligou para diversas companhias de mudança de Maryland e conseguiu uma já poucas horas após a assinatura do contrato. Na madrugada de 29 de março de 1984, a Mayflower Transit levou diversos caminhões à sede do Baltimore Colts e começou a enchê-los com todas as posses da franquia. Sobraram só alguns equipamentos de treino que não cabiam. Essa frota seguiria diretamente para Indianapolis, deixando torcedores, moradores das duas cidades, fãs de esporte e toda a imprensa em choque.

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Era uma época de vacas magras para o Colts, o que não ajudava com a relação com Baltimore. Em 1981, a equipe havia quebrado diversos recordes negativos defensivos e, em 1982, a temporada diminuída pela greve, não conquistou nenhuma vitória. O estádio ficava cada vez mais vazio e, mas alguns torcedores apaixonados jamais abandonariam a sua equipe.

É daí que vem o documentário The Band that Wouldn’t Die, da série 30 for 30 da ESPN. Ele conta não só essa história da realocação do Colts, mas principalmente, como a banda marcial que acompanhava o time se recusou a parar de tocar e passou a ser itinerante – tanto pela cidade como por outros estádios da NFL – até que a liga devolvesse uma equipe à cidade.

Levaria algum tempo em Indianapolis para que o Colts voltasse a ser competitivo – apesar de uma aparição nos playoffs na quarta temporada na nova cidade, em 1987, outra só viria quase uma década depois, em 1995. Sabemos que depois viria Peyton Manning e uma equipe magistral nos anos 2000, mas foram anos de sofrimento.

E Baltimore? Bom, a cidade receberia de volta um time da NFL, mas também o “roubando” de outro lugar: Cleveland. No citado documentário, os torcedores dizem ter ficado com dor no coração por já terem passado por essa situação. Mas, anos mais tarde, o Browns seria restaurado em sua cidade original, podendo manter sua história, e o Ravens também continuaria existindo – e conquistando suas glórias.

Hoje, as mudanças não são feitas de forma tão abrupta, na calada da noite. São necessárias muitas negociações, votações e ponderações. Por isso, a loucura de homens como Robert Irsay, de simplesmente colocar seu time em caminhões na calada da noite, não é mais possível. Dificilmente uma cidade acabará tão traumatizada por perder sua franquia como Baltimore naquele longínquo 1984.

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