quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

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IMPORTÂNCIA

Um Quarterback da NFL tem muitas funções e algumas delas o torcedor nem faz ideia que existam. A posição representa status, dinheiro, fama e a responsabilidade de liderar uma franquia, mas é claro que tudo isso não vem de graça e quem joga ali precisa lidar com uma série de responsabilidades dentro e fora do campo para se sobressair e trabalhar à altura dos milhões investidos. Eles são responsáveis por armazenar muitas informações do próprio ataque e de cada defesa que enfrentem; mais que armazenar, é preciso saber qual usar, quando usar e decidir em segundos, às vezes em milésimos de segundo.

PREPARAÇÃO

A preparação do QB para um jogo no domingo começa na segunda-feira e, quando os demais atletas irão começar a se aprofundar mais no adversário da semana na quarta, ele já sabe todos os detalhes do oponente, escalação, formações, estilo de atuação e tudo mais. O jogador, caso seja um dos grandes da liga, participa ativamente na seleção de jogadas para a próxima partida, opina sobre o que acha que deve ser usado e em qual situação. Dessa forma, um quarterback precisa saber todo o play calling, inclusive os audibles (jogadas modificadas na linha de scrimmage), e guardar bem na mente o que usar em cada situação de jogo, com base na descida e a distância, placar do confronto, tempo restante, condições climáticas e diversos fatores que pesam na chamada de cada jogada. Se você ainda acha pouco a quantidade de informações na cabeça de qualquer atleta da posição, saiba que ele ainda ajuda na adaptação do plano de jogo em caso de lesão – traz soluções para minimizar a fraqueza do ataque devido à ausência de alguém importante.

CHAMADAS E CÓDIGOS

Com o jogo rolando, apesar de a chamada ser eletrônica e de haver um técnico responsável por mandar os jogadores certos para cada jogada, é o QB que deve verificar e garantir que todos estão na mesma página. Se o Tight End titular machucou-se na última jogada, quando o reserva entra em campo ele deve perguntar se sabe o que precisa fazer – caso a resposta seja negativa, vai explicar ali na hora.

Vamos usar como exemplo a jogada “I Weak Right” como uma chamada para a próxima jogada do time. “I” significa que o RB estará cerca de 6 jardas atrás do QB, “Weak” representa que o Fullback estará offset no B gap (buraco entre o Guard e o Tackle) no Weak Side (lado oposto de onde está o Tight End) e  Right mostra ao Tight End o lado da linha que ele deve se alinhar (lado direito, portanto). Ou seja, apenas três palavras alinharam 5 jogadores (2 recebedores – um em cada ponta, RB, FB e TE).

A árvore das rotas mostra as mais utilizadas

Seguindo o mesmo modelo, a jogada não se chamaria apenas “I Weak Right”, pois faltam os números das rotas de cada recebedor nessa chamada. Vamos supor que é “I Weak Right 819”, traduzindo para o bom português temos que o recebedor da ponta esquerda correrá a rota 8 (rota post – recebedor chamado X), o recebedor Y – o Tight End nesse caso, outras vezes pode ser o WR no slot – fica encarregado da rota 1 (quick out ou flat) e o recebedor Z, que é aquele alinhado na ponta direita, vai trabalhar a rota 9 (fly ou go). Sempre deve-se ler os números das rotas do recebedor da ponta esquerda ao recebedor da ponta direita.

Caso a chamada seja de corrida, o código é outro e vai servir para indicar qual buraco deve ser atacado pelo Running Back. O buraco entre o C e o LG é 1, LG e LT é 3, fora do LT seria 5, entre o C e o RG é 2 e o buraco entre o RG e RT é 4, assim por diante. Cada jogador tem um número. QB (1), RB (2), FB (3) etc. Se o código é “25 Zone”, veremos o RB (número 2) atacar o buraco 5 (fora do Left Tackle). Obviamente que cada time tem seus códigos e as nomeações variam muito, mas a base é essa para todos.

AJUSTES PRÉ-SNAP

Não é sempre que a jogada escolhida no momento do huddle é a melhor opção. Muitas vezes o quarterback chega na linha de scrimmage e o que ele vê na defesa não é algo que lhe agrade e sente a necessidade de mudar a chamada em cima da hora para escolher algo que encaixe melhor naquilo que o oponente está mostrando. Aí que entram os “audibles” e “checks” e muda-se a jogada na linha de scrimmage. “Audible” altera completamente o que o ataque ia fazer, é uma nova chamada pré-snap com todos já na formação para iniciar a jogada. “Checks” é uma definição no próprio huddle em que o quarterback dá normalmente duas opções de corrida ou de passe – ou um de cada – e decide segundos antes do snap. Quando estão todos alinhados, ele irá gritar “check 24” e o RB (2) vai atacar o buraco 4 entre o RG e RT. Se for um “Check 23”, o Running Back correrá para a esquerda.

Para “audibles”, normalmente são selecionadas 5 jogadas durante a semana de preparação para o jogo e se o quarterback vai mudar totalmente a chamada, certamente recorrerá a alguma delas. No exemplo agora, vou usar um time que usa cores para cada quarto. Se no terceiro quarto a cor é azul e, na linha de scrimmage, o QB grita “Red-22”, é apenas um blefe e significa que a jogada escolhida no huddle foi mantida. No entanto, se ele pede “Blue-23”, sendo a cor azul a daquele quarto, a chamada mudou e isso significa que a contagem do snap vai ser no 2 e a jogada será a número 3 dentre as 5 selecionadas como “audible” para a partida.

Em um jogo fora de casa, obviamente o barulho atrapalha bastante toda essa comunicação. Inclusive a do Center com a linha ofensiva, pois ele que costuma definir quem bloqueia quem.

SNAP E A JOGADA

Um quarterback precisa ser um excelente tomador de decisões, até porque é isso que ele faz a todo momento, seja ajustando uma jogada, chamando outra totalmente diferente em virtude da formação da defesa, ou mesmo quando precisa escolher para quem lançar a bola. E, repito, ele não terá muito tempo para decidir. No que diz respeito a escolher para quem vai lançar a bola, isso está diretamente ligado a muitas ou poucas interceptações – os bons na posição fazem progressões (olham para um recebedor, depois para o próximo e se não estiverem livres, buscam o terceiro). É extremamente importante que o quarterback faça essas progressões e não lance olhando apenas para o primeiro recebedor, a não ser que ele esteja livre logo de cara. Dois pontos muito observados por scouts quando estudam jogadores da posição na universidade são as progressões e a presença no pocket.

Ninguém sobrevive como um QB top 10 da NFL se não tiver presença no pocket e aqui não digo necessariamente que ele deva ser um pocket passer, mas sim saber sentir a pressão e colaborar com sua linha ofensiva, além de se posicionar adequadamente para o passe em um local que facilite os bloqueios. Existem quarterbacks que tornam o trabalho da linha ofensiva muito mais difícil.

Qualquer jogada no futebol americano tem um tempo de duração. Quanto tempo tem o quarterback para lançar uma bola? Quantos segundos a bola tem que viajar para cair naquele ponto de acordo com a velocidade desse ou daquele recebedor (para cada recebedor, um timing diferente)? Quanto tempo levar fazendo as progressões e observando todos os recebedores? Dan Marino dizia que ter um relógio da jogada na mente é um grande trunfo para os melhores da posição. Saber a hora de soltar a bola e fazer o passe, ter química com os recebedores e fazer uma progressão completa a tempo de não ser sacado são qualidades de caras que dominam a função.

Após todos esses detalhes citados no texto, o quarterback irá fazer o lançamento e ele deve ser feito pisando na direção do passe, mas muitas vezes o pass rush adversário não permite isso e o atleta lança se utilizando do pé de trás como apoio. Saber lançar apoiado nesse pé é uma habilidade importante quando o pocket está desmoronando.

Fica fácil de perceber que o trabalho mais importante da posição mais valorizada da NFL não é “só” lançar bem a bola. A preparação para liderar um ataque requer muita inteligência, conhecimento do jogo, capacidade de decisão sob pressão e em curto espaço de tempo, leitura das defesas, relógio mental, habilidade atlética e uma ótima memória – na última vez que usei essa formação, o que a defesa fez?

Não à toa é tida como a posição mais difícil considerando todos os esportes.

*Texto baseado no livro “Take Your Eye Off The Ball”, de Pat Kirwan.

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