sexta-feira, 13 de julho de 2018

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Durante a copa do mundo uma situação inusitada chamou a atenção da imprensa internacional e levantou diversos questionamentos: os jogadores da equipe Russa, antes de entrar no campo, cheiravam algodões empapados com uma substância. Após questionado, o médico da seleção confirmou que se tratava de amônia. Mesmo sendo novidade para muitos, esta prática é bastante comum e utilizada à muito tempo em esportes de explosão, especialmente halterofilismo. Na NFL está cada vez mais comuns atletas na lateral do campo cheirando seus tubinhos. Mas afinal, para que serve a amônia? Ela realmente ajuda? E se ajuda, porque não é considerada uma forma de dopping?

A amônia em si é amplamente utilizada na indústria especialmente em refrigeração e ela e seus derivados também são usados na agricultura (fertilizantes) e na composição de produtos de limpeza. Os sais de cheiro padrões são basicamente uma mistura de 35% de álcool e 15% de amônia, além de água e corantes que mancham a cápsula quando usados. Seu principal uso é para o tratamento ou prevenção de desmaios. Porém, até o momento não existem nenhuma prova de que a performance dos atletas é melhorada de alguma forma pelo uso de sais de cheiro e até por isso a prática não é considerada doping.

Atletas passaram a adotar o composto como um descongestionante nasal, supostamente aumentando consideravelmente a oxigenação por alguns momentos, além de dar um choque de adrenalina. O defensive end Demarcus Lawrence (Dallas Cowboys) comentou que o efeito pode durar um conjunto de descidas e que auxilia o jogador a se manter acordado e ligado no jogo, mesmo que eventualmente cause náuseas após o uso. Em 2016, em uma derrota do Cowboys contra o então Saint Louis Rams, Ezekiel Elliott utilizou em torno de 10 cápsulas durante a extensão da partida. Em ambas as laterais, após o jogo, a quantidade de cápsulas era grande. A prática é tão comum que a estimativa é de que entre 70 e 80 porcento dos atletas façam ou já fizeram uso. Até mesmo Tom Brady admitiu ter utilizado durante um período de sua carreira.

Na NFL existe uma cultura de “vencer a qualquer custo” extremamente forte e os atletas tendem a se agarrar a qualquer artifício que lhes dê vantagens. Assim acaba ocorrendo muito da famosa lógica: se um jogador fez alguma coisa diferente e teve alguma melhoria, por menor que seja, na próxima semana ele será imitado. Isso já criou muitas ondas entre os jogadores. Na última década, foram casos de uso de spray de chifres de veados (isso mesmo, você não leu errado). Hoje é a inalação de sais. Independente do benefício ser real ou não, há quem afirma que os atletas podem até mesmo sentir um efeito placebo, uma melhoria por apenas acreditarem que uso de sais ajuda.

Porém, se hoje estes sais são usados para estas supostas melhoras no desempenho, nem sempre foi assim. No boxe, compostos de amônia eram comumente utilizados por técnicos para acordar boxeadores para o próximo round, deixando os despertos por mais que já tenham apanhado bastante. Na NFL, a substância já foi muito utilizada da mesma forma. Quando um jogador fica tonto ou perde a consciência após uma pancada com um adversário, normalmente a causa é uma lesão no tronco cerebral. O estímulo causado pela inalação de sais reinicia o cérebro independente da lesão. Ou seja, qualquer sintoma causado por pancadas é suavizado pelo efeito dos sais no cérebro.

Isso já seria extremamente grave em condições normais, mas é pior em um esporte que vive com a sombra de problemas de lesões no cérebro. Antigamente, jogadores eram acordados com o auxílio de sais após pancadas na cabeça independente se haver uma concussão ou não. Tim Fox, ex-safety selecionado pelo Patriots em 1976 e com passagens por Chargers e Rams, já afirmou em entrevistas que em pelo menos duas ocasiões perdeu a consciência durante o jogo, sendo acordado com sais de amônia e mandado de volta para o campo. Mesmo que a prática hoje seja proíbida em casos de concussão (algo que antes era comum), o problema não termina aí. Pesquisas cientificas tem afirmado que consecutivas pequenas pancadas na cabeça tem tanto potencial de causar problemas em longo prazo no cérebro quanto concussões que apagam o jogador. Se pequenas pancadas estão tendo sintomas mascarados pelo uso de sais isto é muito grave.

É difícil de imaginar essa prática sendo permitida pela NFL por mais muito tempo e a saúde dos jogadores pode não ser o principal motivo. A maior preocupação da liga é sua percepção perante o público. Suas reações a eventos tendem a dar mais valor aos prejuízos que possam ser causados a imagem da liga do que a gravidade do evento em si. Exemplos são jogadores tomando punições equivalentes por uso de maconha (mesmo quando não estão em temporada) e por violência doméstica, mesmo o segundo sendo infinitamente mais grave. Definitivamente ter videos de suas principais estrelas inalando o conteúdo de pequenas cápsulas na lateral do campo não remete ao que a liga quer transparecer ao seu público. Mesmo que não descubram nenhum benefício ou malefício ao uso, esse motivo sozinho deverá colocar fim à pratica. É tudo uma questão de quando o público, ou os patrocinadores, começarão a se incomodar.

 

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