quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Compartilhe

O principal assunto da semana do início da temporada 2018 da NFL é a troca do defensive end Khalil Mack. Jon Gruden, técnico do Oakland Raiders, é o homem por trás do envio de um dos principais jogadores da liga para o Chicago Bears em troca de duas escolhas de primeira rodada, uma de terceira e uma de sexta (além de mandar também uma de segunda e uma condicional de quinta). O detalhe irônico disso tudo é que em 2002, Gruden esteve do outro lado de um negócio que chocou o mundo dos esportes profissionais.

Leia textos exclusivos a cada semana sobre todos os times da NFL. Seja um assinante L32

Naquele ano, o técnico, que também estava no Raiders, foi trocado pelo mandatário da franquia Al Davis, hoje já falecido, por duas escolhas de primeira rodada para o Tampa Bay Buccaneers. Na coluna histórica dessa semana (a última de 2018!), vamos relembrar o contexto dessa negociação que é a maior envolvendo um não atleta da história.

Leia mais: A decadência da importância dos running backs em números

Leia também: Analisando a troca do DE Khalil Mack para o Chicago Bears

Esse texto faz parte da série histórica que foi produzida nos últimos meses. Semana passada, o tema foi Dick “Night Train” Lane. Antes disso, falei sobre  o surgimento da AFLseu crescimento e sua fusão com a NFLas implementações de Seattle Seahawks e Tampa Bay Buccaneersa fuga do Baltimore Colts para Indianapolis na calada da noitea greve de 1982como a free agency se desenvolveu através dos anos, a história do Hall of Fame Game, os principais holdouts que já aconteceram e os melhores jogadores não draftados dos anos mais recentes.

Jon Gruden era um jovem treinador de muito potencial e energia, então coordenador ofensivo do Philadelphia Eagles, quando foi contratado por Al Davis para comandar o Oakland Raiders em 1998. Nas duas primeiras temporadas, reconstruiu o elenco e fez mudanças muito positivas, mas parou em algumas limitações e ficou com 8-8 em ambas. Nas outras duas, por muito pouco não levou a franquia ao Super Bowl: em 2000, derrota para o Baltimore Ravens na final da AFC, em 2001, o famosíssimo “Tuck Rule Game” encerrou os sonhos na semi-final de conferência contra o New England Patriots de Bill Belichick e Tom Brady.

Para quem não sabe o que foi o “Tuck Rule Game”, vamos a um parêntese para falar dele: sob uma nevasca torrencial em Foxboro, o Raiders vencia o Patriots por 13 a 10 a menos de dois minutos do final e ia carimbando sua passagem para a decisão de conferência. Tom Brady tentava conduzir sua equipe ao empate ou à vitória, mas foi sackado por Charles Woodson e sofreu um fumble. Fim de jogo, vitória de Oakland. Certo? Não. Os juízes utilizaram uma regra do fundo do livro da NFL (que não existe mais), que dizia que se o quarterback estivesse no movimento de levar a bola de volta ao corpo após iniciar um movimento de passe, seria marcado passe incompleto, não fumble. Após toda a comemoração do time preto e prata, Brady ganhou uma nova chance, levou New England a um field goal e depois ao triunfo na prorrogação.

 

O Tuck Rule Game seria o último jogo de Jon Gruden à frente do Raiders até a próxima segunda-feira. Ele queria uma extensão, assim como Khalil Mack, e pelo seu excelente desempenho, ela seria cara demais. Al Davis sabia disso e tinha algumas discordâncias com o estilo do treinador – gostava de um estilo de ataque mais vertical, em contraponto à West Coast Offense então utilizada. Do outro lado, havia o Tampa Bay Buccaneers.

O Buccaneers era dono de uma defesa monumental, provavelmente a melhor da NFL na época. O treinador Tony Dungy era responsável por isso. Só que o ataque era inoperante, e por isso, a equipe não conseguia ir longe nos playoffs. Cansado da situação, o general manager Mike Tannembaum decidiu que era hora de mudança. Demitiu Dungy e queria uma mente ofensiva para tentar mudar essa história. Sua primeira tentativa foi Bill Parcells, mas o lendário técnico recusou a oferta porque sabia dos problemas com o teto salarial que a franquia passaria nas temporadas seguintes.

Então, Tannembaum foi atrás de Gruden. Al Davis não o liberaria de graça, é claro. Mas “Chucky”, como é chamado o treinador, era visto como a mente ofensiva mais brilhante da NFL. O desejo por ele era tamanho que a franquia da Florida fez uma oferta irrecusável ao Raiders: duas escolhas de primeira rodada, duas de segunda rodada e 8 milhões de dólares em dinheiro. No dia 8 de fevereiro de 2002, acontecia a maior troca de um não atleta da história da liga.

Gruden remontou o ataque do Buccaneers e manteve o trabalho defensivo de Dungy. Do outro lado, o Raiders promoveu o coordenador ofensivo Bill Callahan a técnico principal e o excelente time foi mantido. Então, imaginem as consequências: onze meses depois da troca, as duas equipes se encontraram no Super Bowl XXXVII.

O resultado dessa partida foi um massacre: 48 a 21 para o Bucs. O quarterback do time da California, Rich Gannon, lançou cinco interceptações, um recorde do Super Bowl. Diz-se que Callahan não mudou absolutamente nada do ataque do Raiders, nem os nomes das jogadas, nem as formações, nem mesmo os audibles, e com isso Gruden sabia exatamente qual seria cada uma das jogadas ofensivas de Oakland, podendo orientar perfeitamente sua defesa.

Esse é o único Lombardi da história da equipe de Tampa Bay, o que já é suficiente para considerar a troca um sucesso. Em seguida, porém, Gruden não repetiu esse desempenho: os problemas com teto salarial previstos por Bill Parcells de fato aconteceram, muitas estrelas da defesa se lesionaram e o time não venceu mais nenhuma partida de pós-temporada até 2008 (classificou-se a ela duas vezes), quando o treinador foi demitido.

Para os Raiders, tudo foi um desastre: o magnífico capital de draft adquirido foi completamente desperdiçado em várias escolhas que não funcionaram, nunca foi encontrado um bom sucessor para Gruden e a equipe não teve nenhuma outra temporada vitoriosa até 2016, quando já tinha em seu elenco um defensive end chamado Khalil Mack.

Mark Davis, filho de Al, decidiu dar vida ao mais puro sebastianismo e trazer de volta Gruden para dentro de campo depois de dez anos como comentarista de televisão. Antes mesmo da primeira partida, ele replica a troca histórica, mandando para Chicago a principal estrela defensiva da equipe por um imenso capital de draft. A história mostra que Oakland se deu mal na primeira troca feita dessa maneira. Será que ela se repete ou dessa vez será totalmente diferente?

Acompanhe nosso conteúdo mais de perto e fique por dentro de tudo o que rola na NFL e NCAA: Siga nosso Twitter e curta nossa página no Facebook. Para ganhar DEZENAS de benefícios e se tornar um apoiador do site e do nosso trabalho, clique aqui.

Compartilhe

Leave A Reply