sexta-feira, 16 de Março de 2018

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Quando ficou claro que o Washington Redskins não renovaria o contrato do QB Kirk Cousins, começaram as especulações de como seriam os parâmetros de seu novo contrato com alguma outra franquia, e como eles poderiam alterar para sempre a história das normalmente tensas negociações entre times e jogadores na história da NFL. Afinal, na “liga do passe” que temos hoje (o ataque aéreo sendo muito mais importante que o terrestre), um QB de apenas 29 anos de idade, com no mínimo mais seis ou sete anos atuando em alto nível e com três temporadas seguidas lançando para mais de 4000 jardas indo para a free agency é algo inédito na história, devido ao desgaste criado entre jogador e time ao longo dos anos, que incluíram duas temporadas consecutivas atuando com a franchise-tag, graças à incapacidade de chegarem a um acordo de várias temporadas para assegurar a permanência do Quarterback na franquia da capital norte-americana.

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Equipes como Denver Broncos, New York Jets e Arizona Cardinals declararam interesse em contar com os serviços do Quarterback, mas nenhum deles foi capaz de oferecer o que o Minnesota Vikings conseguiu: a oportunidade de competir imediatamente pelo troféu Vince Lombardi, algo que, graças à disfunção da franquia, ele esteve longe de almejar desde 2012, quando entrou na NFL recrutado na 4ª rodada daquele Draft (vale ressaltar que ele sequer foi o primeiro QB recrutado pelo Redskins naquele ano).

Cousins e o Vikings acertaram um contrato de três anos no valor de U$ 87 milhões com algumas peculiaridades que corroboram para o título deste texto. A principal delas é que o valor a ser pago ao longo das próximas três temporadas é totalmente garantido, ou seja, não está atrelado a nenhum bônus por permanência no elenco em certa data, nenhum dado número de jardas ou TDs em uma temporada nem nada do tipo. Na essência, o Vikings se comprometeu a pagar este valor a seu novo QB titular aconteça o que acontecer até Março de 2021. Tal contrato não é apenas o maior da história da NFL, mas o primeiro em que um jogador livre dentro da liga assina um contrato de várias temporadas sem qualquer designação ou caráter de bônus a ser pago pelo atingimento de certos parâmetros ao longo deles. No cenário da NFL, Cousins e seu agente se tornaram pioneiros.

Os detalhes incluem: U$ 3 milhões pagos no ato da assinatura e salários-base na casa de U$ 22.5 milhões em 2018, U$ 27.5 milhões em 2019 e R$ 29.5 milhões em 2020. A cada ano, há um bônus de U$ 500 mil para a participação dele em treinamentos, resultando no montante previso no contrato. Os valores superam facilmente os U$ 60 milhões que o Detroit Lions se comprometeu a pagar ao QB Matthew Stafford, o maior valor garantido em contrato até então e ao que o San Francisco 49ers pagará ao QB Jimmy Garoppolo, sendo este U$ 74 milhões garantidos em vencimentos. Com algumas bonificações adicionais previstas, o valor pode chegar a U$ 90 milhões caso o Vikings vença o Super Bowl nas três próximas temporadas e se considerarmos as duas temporadas que ele atuou no Redskins com a franchise-tag, ele receberá o montante de U$ 128 milhões por cinco temporadas, ou $ 26.5 milhões de média, nada mal, não?! Além disso, há uma cláusula que o impede de ser trocado e de receber a transition tag, uma artimanha dos times que possibilita renovarem automaticamente com um atleta ao igualar um contrato oferecido por outra franquia.

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Tal tipo de contrato, comum na NBA e na MLB, as ligas profissionais de basquete e beisebol nos EUA aparece pela primeira vez na história da NFL para um jogador nesta situação (vale lembrar que desde o  último acordo trabalhista assinado entre a liga e o sindicato dos atletas, calouros recrutados na primeira rodada do Draft assinam contratos com o valor total garantido, mas um valor tabelado, já previamente conhecido), então em uma negociação livre entre time e jogador, é a primeira vez que temos um atleta recebendo um valor garantido qualquer seja o seu desempenho ao longo das temporadas, e logo o maior da história.

Não há como garantir que Cousins guiará o Vikings até o tão sonhado primeiro Super Bowl da franquia. Pessoas podem duvidar se os bons números compilados até agora na carreira são simplesmente uma miragem e que ele peca em ter o espírito especial que guia QBs como Tom Brady e Drew Brees, que instantaneamente transformam seus times em postulantes ao título, não importa quem os rodeie. Fatos é que estes são os números dele na carreira (seis temporadas, sendo que apenas três como titular absoluto e atuando os 16 jogos):

  • 16.206 jardas aéreas;
  • 99 passes para TD;
  • 55 interceptações;
  • 93.7 de rating.
Quanto mais me debruço na análise do contrato, melhor fica para Cousins e os atletas da NFL no geral, com a citada quebra de paradigma finalmente acontecendo. Atletas desta liga, mais que em outros esportes no geral, arriscam sua saúde a médio e longo prazo por vencimentos contratuais cheios de letras miúdas, com salários atrelados a vários tipos de desempenho, sendo que uma vida pode mudar para sempre a cada snap, só lembrar do exemplo do LB Ryan Shazier, que em uma tentativa de tackle teve uma grave lesão na espinha e luta para voltar a andar novamente, quiçá atuar a nível profissional. Imagino eu como deve ser difícil se dedicar tanto à um esporte de contato, que leva o corpo ao extremo por salários mais baixos que aqueles pagos a atletas de basquete, beisebol e mesmo os do nosso futebol, da bola redonda, independentemente dos resultados alcançados.

 

Por décadas, os donos das franquias observaram seus times avançarem na casa dos bilhões de dólares em valor de marca, com a rentabilidade da liga no geral tornando-a a mais valiosa entre todas as outras do mundo esportivo no geral, não apenas no EUA. Tal enriquecimento exacerbado talvez tenha servido para os próprios atletas criarem voz para exigir melhores remunerações pelos serviços prestados, afinal, a liga não existe sem eles. Cousins provavelmente conseguiria um contrato maior com times como Jets ou Cardinals, que dispunham de maior teto salarial que o Vikings mas, em vez disso, preferiu apostar em si mesmo em um contrato com menor duração (mas totalmente garantido), que o permitirá a princípio ser um free agent novamente aos 33 anos de idade.No final das contas, conseguiu o melhor contrato para si, assinando um valor justo pelo que um dos times mais completos de toda a NFL pensa ser necessário para dar aquele último passo e finalmente avançar até o principal jogo da temporada, o Super Bowl. Atletas da NFL muitas vezes se omitiram nas mesas de negociação e não exerceram o mesmo poder de barganha de jogadores de basquete ou beisebol, embora nesta última opção vimos uma espécie de “boicote” aos contratos multimilionários naquele esporte que sequer tem um teto salarial definido, inclusive com vários ótimos jogadores sem time restando apenas duas semanas para o início da temporada regular.

 

Ele pareceu sempre atuar motivado, com o que os americanos gostam de chamar de “chip on the shoulder”, que não tem uma tradução muito literal para o português, mas significa justamente uma vontade incessante de demonstrar que é o melhor no que faz, e que está incendiado com uma motivação intrínseca. De jogador renegado, recrutado na 4ª rodada do Draft de 2012 (em que o Redskins vendeu a alma para adquirir o QB Robert Griffin III com a 2ª escolha geral) ao maior contrato da história, talvez ele sirva de exemplo para que outros jogadores não abaixem a cabeça e aceitem aquilo que de fato lhes soa como um valor justo, nem que seja totalmente garantido, como o veterano conseguiu.Com o acordo trabalhista assinado em 2011 se extirpando em 2021, poderemos ter mudanças significativas na forma de renovações contratuais entre equipes e atletas a partir de então. A NFLPA (o sindicato dos jogadores), já enviou memorandos aos atletas recomendando que guardem dinheiro para um eventual lockout (greve) daqui a três anos, tamanho desgaste entre ambas as partes, evidenciado nos últimos meses com os protestos de jogadores da liga (majoritariamente negros) contra o abuso policial e racismo nos EUA, levando-os a ajoelharem durante a execução do hino nacional, algo tão patriótico e simbólico por lá. Não quero discutir se atletas estão certos ou não, mas o desgaste é evidente e uma guerra está no horizonte, talvez durando bem mais que os quatro meses que as negociações se arrastaram no começo desta década.

Fato é que podemos estar entrando em uma nova era da NFL. O WR Doug Baldwin, do Seattle Seahawks, foi um dos primeiros a vir a público elogiar a postura de Cousins, que para ele se assemelha a “um herói para futuros jovens que entrarão para a liga”. Eventualmente, atletas que representam uma franquia e tem a capacidade de mudar o status de outra passarão a apostar mais em si mesmos, muitas vezes exigindo um contrato totalmente garantido igual ao que o agora QB do Vikings conseguiu, e passarão a perceber que talvez tenham mais poder do que realmente imaginam. Um dia, talvez olharemos para trás e relembraremos hoje, em que Kirk Cousins mudou para sempre o modo de lidar e montar um contrato para atletas da NFL, vencendo o Super Bowl ou não…concorda?

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