segunda-feira, 4 de junho de 2018

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No ano de 2000 foi lançado o filme The Replacements, que veio para terras tupiniquins com o nome de Virando o Jogo, uma comédia estrelada por Keanu Reeves que conta a história de uma temporada na liga profissional de futebol americano em que os jogadores entraram em greve, obrigando os times a contratarem jogadores fracassados ou já velhos demais para substituí-los durante alguns jogos da temporada. Mesmo sendo uma comédia, o filme tem um fundo de verdade. Houve sim uma greve, no ano de 1987, temporada que acabou com um jogo a menos e onde substitutos foram contratados para entrar em campo em três jogos.

Mas essa história começa cinco anos e adivinhem, com outra greve. Em 1982 a NFLPA (Associaçãos dos jogadores da NFL) anunciou uma greve durante a temporada, fazendo com que os jogos da semana 3 a 10 fossem cancelados, sem a recuperação de nenhum deles. Ela surgiu devido a uma discórdia na formulação do novo acordo coletivo entre a liga e os jogadores, onde os jogadores exigiam receber 55% da renda bruta das franquias. Mas nessa temporada as coisas não funcionaram muito bem para os jogadores, que não ganharam muito no novo acordo (que tinha validade de cinco anos). O principal motivo? O contrato das franquias para exibição dos jogos garantiam que os times receberiam o dinheiro independente se os jogos acontecessem ou não. Na época o dinheiro das emissoras de TV significava em média 60% do rendimento da franquia, ou seja, os times não iriam perder muito.

Cinco anos depois, o acordo entre a NFL e a associação dos jogadores expirou com ambos os lados se preparando para uma possível nova greve. As exigências dos jogadores mudaram: agora, além de melhores benefícios previdenciários, indenizações e eliminação de grama artificial, eles também queriam o direito a uma free agency irrestrita. Na época ainda estava em rigor a chamada “Rozelle Rule”, regra imposta em 1976 que concedia uma compensação à ex-equipe de um jogador caso ele assine com uma nova equipe, algo que acabava prendendo jogadores à franquias e reduzindo e comprometendo os salários em caso de transferências.

Passadas duas semanas na temporada regular e sem nenhum acordo ainda estabelecido entre as partes, a NFLPA anunciou uma nova greve. A estratégia foi semelhante a empregada em 1982 (parada após dois jogos de temporada regular), mas desta vez o cenário estava diferente. O contrato com as emissoras para transmissão dos jogos da liga havia mudado. Neste novo acordo, as franquias só receberiam por jogos que acontecessem e fossem televisionados. Ou seja, os donos de franquia já estavam com uma estratégia na manga para garantir seu faturamento: jogadores substitutos.

A semana três da temporada inevitavelmente foi cancelada, mas a partir da 4ª semana os times já estavam com jogadores contratados para substituir quem estava de greve. Muitos desses substitutos eram jogadores cortados durante o training camp ou que não chegaram a ser draftados. Outros vieram da CFL (Canadian Football League) ou da antiga U. S. Football League. Alguns até mesmo eram antigos jogadores de universidades ou jogadores amadores.

Uma das esperanças da associação dos jogadores era que as emissoras decidissem não televisionar os jogos de substitutos, mas não foi isso que aconteceu. Todos os jogos foram transmitidos conforme a programação. Além disso, nem todos os jogadores estavam apoiando a greve. Alguns decidiram ir contra a associação e entrar em campo por seus times, seja logo no início da greve, seja após uma ou duas semanas dela estar decorrendo, cabendo citar os membros do Hall da Fama Joe Montana, Lawrence Taylor, Tony Dorsett e Steve Largent. Para piorar, muitos torcedores não gostavam de ver jogadores ganhando centenas de milhares de dólares para ficar de greve. Assim, a NFLAP viu o navio começar a naufragar.

Com todas as situações adversas foi impossível da situação se manter e, após 24 dias, os jogadores voltaram ao trabalho. Um fato curioso é que mesmo após o final da greve, ainda houve um jogo com jogadores substitutos. A associação informou o fim da greve em uma quinta-feira, mas os donos das franquias falaram que os jogadores já haviam perdido o prazo para serem elegíveis na semana 6. Apenas na semana 7 os jogadores voltaram a campo.

Mas afinal, quem saiu ganhando nessa história? A curto prazo, sem dúvidas os donos de franquias. Os jogadores voltaram aos campos sem ter um novo acordo de trabalho fixado e sem ganhar nenhum direito de uma free agency mais livre. A NFLPA chegou a se separar após esta derrota. Apenas a partir de 1989, com a associação dos jogadores começando a se reformular e indo para justiça brigar por mais direitos foi que os jogadores conquistaram uma free agency menos restritiva, mesmo que tenha vindo acompanhada da implantação do teto salarial.

E o que aconteceu com os substitutos? A grande maioria se perdeu após seus 15 minutos de fama, mas houve quem conseguiu se manter no esporte. Rick Neuheisel, que liderou o ataque do Chargers em 2 vitórias nos dois jogos que começou como QB titular, foi técnico de quarterbacks e coordenador ofensivo no Baltimore Ravens e terminou sua carreira em 2011, após 4 anos treinando UCLA. Alem dele, há também o quarterback substituto do Chicago Bears em 1987, um jovem chamado Sean Payton. Em seus 3 jogos ele completou 8 de 23 passes para impressionantes 79 jardas, nenhum touchdown e uma interceptação, com um passer rating de 27.3, levando ainda 7 sacks. E sua interceptação, curiosamente, foi contra o New Orleans Saints, time que comanda como head coach desde 2006.

 

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