segunda-feira, 25 de junho de 2018

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Estamos no meio da copa do mundo do futebol da bola redonda e esta edição está entrando para história por ser a primeira a apresentar um modelo de revisão de arbitragem através de imagens, o tão falado VAR (sigla para o inglês Video Assistant Referee ou árbitro assistente de vídeo). Mas enquanto o futebol ainda engatinha no uso de tecnologia para auxiliar o jogo, outros esportes em nível mundial já utilizam destas técnicas faz tempo, como vôlei e tênis. E é claro, todas as grandes ligas norte americanas também aplicam o uso de tecnologia no auxílio da arbitragem. No caso da NFL, o assunto surgiu há muito, muito tempo.

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Assim como está acontecendo hoje no futebol, na NFL também houveram debates sobre a tecnologia  sendo envolvida no jogo, com tradicionalistas hesitantes em interferir na pureza do esporte (sendo que consideravam o erro humano parte dele), enquanto outros estavam ansiosos para utilizar tudo o que a tecnologia tem a oferecer para melhorar o jogo. Porém essas discussões iniciaram no final da década de 40, quando os jogos começaram a ser televisionados.

Os primeiros testes do uso de replays ajudando a arbitragem ocorreram em 1976 e 1978, com o objetivo inicial de verificar quanto tempo demoraria para a revisão ocorrer. Na pré-temporada de 1978 o sistema foi utilizado em sete jogos e o funcionamento deixou à desejar. Ainda era muito caro para instalar a tecnologia em todos os estádios e ela em si ainda não estava avançada o suficiente para ser aplicada com sucesso. Desta forma, o assunto foi pausado e voltou apenas na metade da década de 80.

“Replays nos dão uma chance melhor de sair do campo livres de erros.”

Art Modell, dono do Cleveland Browns em 1982

Em 1985 foi realizado um novo teste, desta vez em 8 jogos de pré-temporada e os resultados apresentados foram muito mais promissores, a ponto dos donos das franquias votarem em 1986 o uso da revisão de arbitragem para a temporada, com 23 votos à favor, 4 contra e uma abstenção. Para acalmar tradicionalistas, foi acordado que a decisão valeria apenas para a temporada de 1986, havendo necessidade de nova votação para as próximas temporadas. Na época ainda não existia a opção dos técnicos desafiarem alguma marcação. As revisões eram realizadas por um oficial que ficava no próprio estádio. Neste modelo, as seguintes jogadas eram cabíveis de revisão:

  • Jogadas de posse de bola: fumbles, recepções, interceptações ou um jogador inelegível recebendo um passe.
  • Jogadas envolvendo as linhas de gol, laterais, do fundo do campo ou de scrimmage.
  • Qualquer infração que possa ser facilmente detectável, como mais de 11 jogadores em campo.

Em 1986, foram feitas uma média de 1,6 revisões por jogo, com apenas 10% acabando em reversão de jogada. O uso da técnica foi reaprovado para 1987 e continuou com este formato até 1991, quando a NFL decidiu novamente por deixar de utilizá-la. O motivo foi a falta de efetividade: entre 1986 e 1991 apenas 12,6% das jogadas revisadas foram revertidas e em 1991 10% das chamadas foram incorretas. Porém, as discussões sobre o assunto nunca pararam.

Na pré-temporada de 1996 foi feito um novo teste, este com regras um pouco mais próximas do  que estamos acostumados hoje. Os técnicos poderiam desafiar as decisões da arbitragem (3 desafios por tempo, cada um custando um pedido de tempo) e agora as revisões cobriam três categorias: jogadas de pontuação, número de jogadores em campo e decisões se o lance aconteceu dentro ou fora de campo. Em 1999, após algumas revisões e ajustes, a arbitragem de vídeo voltou para NFL, agora para ficar.

De lá pra cá os métodos de revisão tem evoluído acompanhando a tecnologia. Se antes eram vídeo cassetes que gravavam as jogadas para revisão dos árbitros (em uma telinha de 9 polegadas), agora as revisões são feitas em telas touch-screen de alta resolução, com opções para pausar e aproximar a imagem. Em 2004, foi adicionada a premiação de uma terceira revisão à técnicos que acertaram suas duas primeiras revisões (hoje praticamente qualquer jogada pode ser desafiada, com exceção de faltas) e em 2007 os donos das franquias votaram a permanência definitiva da revisão de arbitragem na NFL (até então, uma nova votação era realizada todo ano, assim como nos anos 80). A tabela abaixo mostra a evolução da quantidade de revisões e principalmente da quantidade de jogadas revertidas.

Ano Jogos Total de jogadas revisadas Média de revisões/jogo Total de jogadas revertidas % de jogadas revertidas Tempo médio por revisão 
1999 248 195 0.8 57 29% 2:54
2000 248 247 1.0 84 34% 3:05
2001 248 258 1.0 89 34% 3:04
2002 256 294 1.1 94 32% 3:01
2003 256 255 1.0 66 26% 3:13
2004 256 283 1.1 88 31% 3:18
2005 256 295 1.2 92 31% 3:16
2006 256 311 1.2 107 34% 2:37
2007 256 327 1.3 122 37% 2:38
2008 256 315 1.2 117 37% 2:40
2009 256 328 1.3 126 38% 2:39
2010 256 361 1.4 133 37% 2:42
2011 256 390 1.5 172 44% 2:30
2012 256 435 1.7 170 39% 2:33
2013 256 423 1.7 185 44% 2:25
2014 256 439 1.7 151 34% 2:13
2015 256 415 1.6 176 42% 2:16
2016 256 345 1.3 149 43% 2:25

 

Na temporada de 2014, oficiais sênior começaram a ajudar os árbitros dentro de campo diretamente da central em Nova Iorque, na Art McNally GameDay Central, nomeada em homenagem ao diretor de arbitragem de 1976, pioneiro em testes de uso de vídeo no auxílio aos árbitros. A revisão de arbitragem segue a tecnologia e está sempre em evolução.

Estas mudanças não aconteceram de uma hora para outra na NFL. Considerando os primeiros debates, foram 50 anos até a aplicação definitiva da tecnologia auxiliando o jogo. Apenas de testes foram mais de 20 anos. Toda a implementação desse sistema na liga foi feito com toda a cautela que é necessária para acalmar a mente dos mais tradicionais e garantir que tudo seja aplicado da melhor forma possível. Paciência foi uma virtude importantíssima e hoje os frutos são colhidos.

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