segunda-feira, 3 de julho de 2017

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Seattle-Seahawks-Richard-Sherman

Nesse espaço, vamos comparar a melhor defesa da história da NFL – Chicago Bears de 1985, quase uma unanimidade para quem estuda e acompanha há anos a liga – com a excelente defesa do Seattle Seahawks de 2013, ano em que parou um dos ataques mais poderosos da história do futebol americano. O objetivo não é apontar qual foi a melhor – isso não é possível e vocês verão o porquê – mas sim mostrar os seus pontos de destaque, alguns números bem curiosos, um pouco de história e conhecimento desse esporte que tem muito para contar e trazer à tona o desempenho de duas das grandes defesas que já passaram pelos gramados.

Começando por quem pisou primeiro nos gramados da NFL: a defesa do Chicago Bears. Essa famosa muralha de 1985 era comandada pelo explosivo LB Mike Singletary, simplesmente um dos maiores que já jogou na liga e que hoje está eternizado no Hall da Fama, o DT Dan Hampton – conhecido como “Danimal” – e o DE Richard Dent, todos devidamente com nomes marcados no esporte.

Buddy Ryan

O coordenador defensivo que ficou para a história foi Buddy Ryan, que organizou essa que era conhecida como defesa 46 (devido ao número do Safety Doug Plank). E como funcionava? Basicamente, tinham 3 DBs (dois CBs e um FS) preparados para o passe, quatro jogadores alinhados na linha defensiva mais dois outros alinhados ao lado dessa linha, só que como LBs jogando em pé. Jogando como os LBs do time e posicionados da forma que estamos acostumados hoje, ficavam o ILB e o SS – sim, o Strong Safety jogava boa parte do jogo próximo à linha, pronto para a blitz frequente.

E nenhum time até então tinha intimidado tanto os oponentes, e especialmente os QBs, quanto o Chicago Bears. Era um Front Seven poderoso – na verdade, “Front Eight”, como explicamos – que jogava com muito vigor e força, tendo provocado sete substituições de QBs durante aquela temporada. Pense no problema para os QBs: quando vinha uma pressão dessa monstruosa defesa, na direção deles apareciam correndo Richard Dent, Dan Hampton e Mike Singletary – todos hoje no Hall da Fama. Nove dos onze jogadores desse setor da equipe chegaram ao Pro Bowl em algum momento da carreira.

“Eu acho que a defesa do Bears era a melhor porque eles tinham uma combinação de talento e capacidade de te confundir”, comentou Wade Wilson, que enfrentou o Bears naquele ano glorioso como jogador do Vikings. Realmente eles conseguiam confundir o adversário. Para se ter uma ideia, só a linha defensiva alcançou 26,5 sacks, permitiram apenas que cinco times marcassem mais de 10 pontos em um jogo, além disso contabilizaram 20 INTs. A secundária desse time era composta por SS Dave Duerson, FS Gary Fencik, CB Leslie Frazier e CB Mike Richardson.

Porém, o líder dessa defesa era mesmo Mike Singletary e ele foi quem mais conseguiu Tackles dentre todos os jogadores do time, bem como foi eleito o “Defensive Player of the Year”. Ele era explosivo, como disse no início desse artigo, e quem explodiu foi todo o time no Super Bowl. Na verdade, explodiram o adversário. Pobre New England Patriots que foi massacrado por 46 a 10, e o detalhe é que esses 10 pontos foram cedidos pelos reservas e foram os únicos pontos que eles cederam em toda  a pós-temporada. Acredite, foram 7 Sacks, 4 Fumbles forçados e 2 INTs na grande decisão. O Patriots conseguiu correr apenas sete jarda e, após o jogo, Ron Wooten, jogador da linha ofensiva do Patriots, admitiu que “antes do fim do jogo, parecia que a gente era o time que o Globetrotters joga contra”.

legion-of-boom

E o Seahawks? Bem, em 2013 tivemos a demonstração mais recente de uma defesa que consegue se aproximar consideravelmente do famoso e já tão falado aqui setor defensivo do Chicago Bears (1985), ao ponto de entrar na conversa e ser comparada aos tempos áureos de Chicago, o que já é motivo de muita honra.

Durante a pós-temporada, foram quase tão incríveis quanto o Bears de 85. Não são os melhores números – a não ser no Super Bowl – mas o time enfrentou Drew Brees, o até então campeão da NFC na final de conferência (49ers) e Peyton Manning na grande decisão. O setor cedeu apenas 40 pontos em seus três jogos nos Playoffs.

Durante a temporada regular, o Seattle Seahawks cedeu, em média, míseras 172 jardas aéreas por jogo, 22 a menos que o segundo colocado, um número fantástico. Alguns dos destaques dessa defesa foram Richard Sherman e suas 8 INTs na temporada, o MLB Bobby Wagner liderando o time em tackles (89), seguido do SS Kam Chancellor (80) e com Michael Bennett e Cliff Avril somando 16,5 sacks, fechando a lista dos destaques de uma defesa que era boa em todos os aspectos, seja parando a corrida, pressionando os QBs adversários ou contra o passe.

Ao chegarem no Super Bowl, o time de Seattle dominou um dos ataques mais poderosos – talvez o mais poderoso em diversos aspectos – da história da NFL e o fez passar vergonha em pleno palco do grande jogo da liga. Claro que todas essas qualidades, estatísticas, vários jogadores talentosos juntos e uma vitória arrasadora no Super Bowl trouxeram questionamentos. Seria essa uma defesa tão boa ou melhor que aquela famosa do Chicago Bears? Richard Sherman respondeu à ESPN: “Só de estar nessa discussão já é bom o suficiente”.

bears defense 1985

Antes de jogar os números de ambas equipes e exaltar esses dois históricos conjuntos, explico como faremos uma análise mais justa: a NFL mudou muito de 1985 até 2013, por óbvio, e comparar os números crus seria estupidez sem tamanho. Naquela época, o foco dos ataques era o jogo terrestre, enquanto hoje é uma liga que passa muito mais que corre e, portanto, a tendência é que os ataques de hoje conquistem mais jardas por jogo que os ataques de antigamente. Além disso, as regras mais rígidas de interferência no passe e contato ilegal, por exemplo, beneficiam quem ataca. Dessa forma, irei colocar uma estatística de uma das duas defesas – Seattle ou Chicago -, em seguida a média da NFL em relação àquela estatística naquele ano e, por fim, a diferença entre a média do time e a média da NFL, que é o que levaremos em conta. Vamos à prática que fica mais claro, lembrando que os números do Seattle são de 2013 e do Chicago, de 1985:

O Seattle Seahawks cedeu 14,4 pontos por jogo em 2013, já a média da NFL naquele ano foi de 23,4 pontos por jogo, um diferencial de 9 pontos entre o número do Seahawks e o da NFL no mesmo ano. Já em 1985, o Chicago Bears permitiu que os times marcassem 12,4 pontos contra eles por jogo, enquanto que a média da NFL no ano era de 21,5, resultando em um diferencial de 9,1, um décimo mais que o do Seahawks de 2013.

Por jogo, os adversários arrancaram 273,6 jardas do time de Seattle e a média da NFL foi de 348,5, um diferencial de 74,9. O Chicago Bears cedeu média de 258,4 jardas por jogo e sabemos que a média da NFL foi de 329,4, o que nos dá um diferencial de 71,0.

Defesa dominante não só defende, mas também ataca, e ataca forçando Turnovers: o Seattle Seahawks forçou 39 Turnovers, ao passo que a média da NFL foi de 25,6 Turnovers forçados, então temos um diferencial de 13,4. Já o Bears foi monstruoso nesse quesito e forçou 54 Turnovers, o que, com a média da NFL em 38,4, nos dá um diferencial de 15,6. Quanto à quantidade de jardas cedidas por jogada, empate: 4,4 para cada time, no entanto um diferencial mais favorável ao Seahawks (1,0 contra 0,6).

Como podemos ver, nessas quatro estatísticas importantíssimas na análise de uma defesa, vemos que o diferencial, que é o importante aqui, é bem próximo entre elas e isso nos leva a crer que a comparação faça sentido. Levando em conta esse diferencial, podemos chegar mais próximo de uma comparação justa, todavia, acredito que comparar duas eras distintas sempre será impossível após tantas mudanças no estilo de jogo e nas regras, mudanças essas que citei antes de passar os números.

Não é possível dizer qual delas foi a melhor – dentre as boas defesas em tempos recentes, ainda temos a do Baltimore Ravens de 2000 -, mas através desse texto dá para ter uma noção do quão dominantes elas foram. Uma coisa é certa, assim como qualquer grande jogador de futebol quer ser comparado à Pelé, qualquer grande defesa da NFL quer ser comparada à do Chicago Bears de 1985.

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