segunda-feira, 23 de março de 2015

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32 por 32 - L32

Nenhum time teve uma offseason tão louca quanto o Eagles. Contratações, dispensas, trocas – Chip Kelly estava absolutamente ensandecido desde o primeiro minuto da Free Agency. Obviamente que, após tantas mudanças, o torcedor do Eagles – e quem não gosta do Philadelphia – se perguntava: “Esse time ficou melhor ou pior?” e os mais exaltados questionariam até a sanidade do treinador Chip Kelly, que hoje tem mais poderes na franquia que um simples treinador comum teria. Vamos agora dissecar a offseason do Philadelphia Eagles, a mais louca dos últimos tempos. Falarei de cada um dos principais jogadores que chegaram, quem saiu, explicarei os poderes que Chip Kelly tem por lá hoje e, ao fim, responderei se esse time melhorou ou não.

– Os poderes de Chip Kelly

Sendo o mais direto possível, Chip Kelly não confiava no conhecimento que seu então General Manager tinha do esporte, nem na sua capacidade de analisar os atletas. A relação entre o treinador e o GM era péssima, algo no nível do San Francisco 49ers com o Jim Harbaugh. Não havia clima para continuar da forma que estava e o Eagles soube trabalhar isso sem ter de escolher demitir um ou outro, na verdade a equipe lidou com esse problema muito bem. O dono do Philadelphia Eagles, Jeffrey Lurie, preferiu confiar na capacidade do seu treinador e o transformou em uma espécie de treinador e General Manager ao mesmo tempo – algo como o Bill Belichick no Patriots e o Pete Carroll no Seahawks. Howie Roseman, que era o GM da equipe, ganhou aumento e virou o Vice-Presidente do Futebol, mas na prática só perdeu o poder de gestão do plantel do time para Kelly.

– As transações

Antes de lembrarmos o que o Eagles fez, é importante trazer à tona os jogadores que Chip Kelly queria mas não conseguiu. Safety Devin McCourty renovou com o Patriots, running back Frank Gore assinou com o Colts, linebacker Jason Worilds se aposentou – esses são apenas alguns exemplos que frustraram o time da Philadelphia. Mas não faltaram movimentações. Vamos a elas (Focaremos nos jogadores apenas. O que envolveu as trocas, por exemplo, será detalhado no tópico do atleta em questão):

Trocas – QB Nick Foles pelo QB Sam Bradford. RB LeSean McCoy pelo LB Kiko Alonso

Contratações – RB DeMarco Murray, RB Ryan Mathews, LB Brad Jones, CB Byron Maxwell e CB Walter Thurmond.

Renovações – LB Brandon Graham e QB Mark Sanchez.

Perdas – WR Jeremy Maclin, S Nate Allen, DE Trent Cole, OG Todd Herremans e CB Cary Williams.

Para poder fazer tudo isso durante a offseason, o Eagles precisou ajustar seu cap, já que a equipe tinha menos de 20 milhões para trabalhar. Com as dispensas citadas, Chip Kelly economizou mais 20 milhões e, após trocar o RB LeSean McCoy, o time tinha 50 milhões no caixa.

Um furacão passou em Philadelphia e mudou muito o elenco do Eagles de uma temporada para outra, então é claro que não iam faltar comparações.

Jimmy Johnson treinou o Cowboys de 1989 a 1993 e veio com uma mentalidade de encaixar seu esquema do futebol universitário na NFL, além disso, realizou várias trocas em uma liga que não costumava fazer tantas. Terminou vencendo o Super Bowl em 92 e 93. “Você não pode ter medo de mexer no seu elenco e Chip Kelly não tem. Então somos parecidos em alguns aspectos” declarou Johnson sobre o técnico do Eagles. Mas para o lendário técnico do Dallas Cowboys, há uma diferença: “Nós éramos o pior time da NFL, então as pessoas esperavam mudanças”.

Vamos analisar agora os principais jogadores que chegaram à Philly.

– Sam Bradford

O quarterback Sam Bradford foi certamente a aquisição mais polêmica por parte de Chip Kelly. O jogador já lesionou o ombro, tornozelo e vem de dois rompimentos dos ligamentos do joelho – alguns o chamam de injury prone (ou de vidro). Quando a temporada da NFL voltar em setembro, Bradford terá completado 22 meses sem jogar um jogo sequer da temporada regular. Ainda assim, o Eagles cedeu basicamente uma escolha de segunda rodada no Draft de 2016 e o QB Nick Foles por ele (detalhes extras e condicionais da troca no nosso podcast), o que nos mostra duas coisas: Ambos os times consideram Sam Bradford mais capaz e o Eagles não acreditava no Nick Foles liderando o esquema up tempo do time.

E o que teria atraído o Philadelphia para investir tanto em Bradford? Bem, ele foi o QB da Universidade de Oklahoma que tinha um ataque com um sistema semelhante ao atual implementado no Eagles por seu técnico, ainda que com diferenças pontuais.  “Eles ficaram no top 5 dos melhores ataques nos últimos dois anos, você não consegue isso sem jogadas explosivas. Acho similar ao que fazia em Oklahoma”, comentou Sam Bradford sobre seu novo time.

Sam é extremamente talentoso, tem presença no pocket, é eficiente nos seus passes e pode sim encaixar perfeitamente no Eagles. É um jogador que sofreu com lesões e com ataques deprimentes e com pouco talento do St. Louis Rams, mas na Philadelphia será pedido a ele que seja um game manager. A ideia desse sistema é que ele sempre tenha alternativas para passes curtos e que conquiste first down a first down até surgir um momento para a big play. Tudo isso para manter o ataque mais tempo em campo já que é muito na base do no huddle e a defesa assim pode ter algum descanso.

Vale lembrar que ele foi escolha número um no Draft em 2010 e recebeu o prêmio de melhor rookie de ataque naquele ano trabalhando com Pat Shurmur,  atual coordenador ofensivo do Eagles, que o conhece muito bem. Ainda em 2010 e sob o comando de Shurmur, ele estabeleceu dois recordes para QBs rookies: Mais passes sem interceptação (169) e mais passes completos (354), tudo o que ele precisa fazer em 2015.

E o Philadelphia Eagles tem uma excelente linha ofensiva, além de armas para distâncias mais curtas e intermediárias – bastará a Bradford ganhar jardas, mesmo que poucas, e fazer o ataque fluir. Sempre avançar, mesmo que de pouco em pouco, essa é a mentalidade de Chip Kelly. O ataque do Eagles terá RBs que podem correr e receber bem, Tight Ends como Zach Ertz e Brent Celek e deve focar seu jogo neles e no recebedor no slot – Jordan Matthews, que foi muito bem no seu ano rookie com 872 jardas e 8 TDs. O novo QB da equipe não vai precisar fazer loucuras e sempre terá um bom TE em uma rota intermediária, o slot receiver cruzando à sua frente – jogada de muito sucesso na última temporada com Matthews cruzando por trás dos LBs em uma play action – e ainda um RB pronto para receber e desafogar o jogo. O Eagles deve ter também uma ameaça nas pontas e em profundidade e podem selecionar um bom recebedor no Draft já que a classe é boa. De qualquer forma, o jogo vai ser muito focado no slot, RBs que recebem e sua dupla de TEs.

Na pior das hipóteses, Bradford não dá certo – e só vejo isso em caso de nova lesão – e não fica no Eagles em 2016. Na melhor delas, o time achou seu franchise QB.

– DeMarco Murray

LeSean McCoy correu 2.926 jardas nos últimos dois anos, mas não se encaixa no esquema de Chip Kelly. Parece loucura, mas faz total sentido com uma explicação. McCoy liderou a NFL com 125 tentativas para zero ou menos jardas na última temporada, isso porque ele não é um RB que tem o estilo de correr pelo meio da linha, de fazer um corte no máximo e partir para cima. Com o LeSean, o Eagles conseguia jogadas explosivas vez ou outra sim, mas muitas vezes ele tenta buscar a lateral, desiste, volta, dança muito antes de seguir em frente e isso irritava o treinador. No esquema do Kelly, como falei, é importante demais jogadas positivas, conquistar mesmo que poucas jardas, manter o ataque progredindo e corridas para zero jardas ou negativas colocavam o time em situação já complicada.

Já DeMarco Murray é justamente o cara de um corte, que vai para dentro e quebra tackles, que sempre faz o ataque andar, além de receber bolas também.  É um cara que tem a paciência de deixar os bloqueios definirem o que ele deve fazer, sabe usar a linha a seu favor.

Ao se livrar do LeSean McCoy, Chip Kelly economizou o suficiente para trazer Murray e Mathews. Dois RBs pelo preço de um e dois que se encaixam no perfil que ele queria. Mandou bem o Eagles nesse ponto. E ainda tem o Darren Sproles que corre bem, mas é ainda mais perigoso recebendo a bola e entortando os linebackers – é verdadeiro pesadelo dos LBs. Sproles é muito usado em screen passes e option routes, quando ele abre e passa à frente da linha como opção de desafogo para um passe, famoso checkdown.

Com esse trio de RBs, dois bons TEs e um slot WR muito bom, Kelly pode usar diversas formações para explorar as fraquezas dos adversários, o que facilitaria o trabalho do novo QB do time.

– Kiko Alonso

Na troca entre Eagles e Bills, onde o Eagles mandou o RB LeSean McCoy e recebeu o LB Kiko Alonso, creio que Philadelphia fez um excelente negócio – não entraremos no mérito do lado do Buffalo. Chip Kelly se livrou de um running back que não fazia o que ele e seu esquema pediam (conforme explicado no tópico do DeMarco Murray) e pelo espaço que salvou no cap com a troca, economizou o suficiente para trazer dois novos RBs em Murray e Mathews, caras ideais para o que o treinador do Eagles deseja. De brinde, vem um dos mais promissores ILB da NFL.

Kiko Alonso é um “tackleador” nato, é um cara extremamente rápido, instintivo, físico e traz essa velocidade que a defesa de Philly tanto necessita. Junto com Mychal Kendricks vai compor uma bela dupla de ILBs. No seu ano rookie, em 2013, Alonso foi comparado a um dos grandes da sua posição na liga, Luke Kuechly, do Panthers, e conseguiu excelentes números – 159 tackles (terceiro maior número da liga naquele ano), 2 sacks, 4 interceptações e 4 passes defendidos. Ele ainda ficou em nono lugar geral no ranking da sua posição de acordo com o Pro Football Focus. Isso como rookie! Em 2014, rompeu os ligamentos do joelho e nem jogou a temporada.

Dizer que Alonso só despertou o interesse de Chip Kelly por ter sido treinado por ele em Oregon é um desrespeito à qualidade do jogador. Kiko Alonso tem talento o suficiente para ser um dos melhores ILB da NFL nos próximos anos, nível de Pro Bowl e, além disso, traz muito mais valor ao time que McCoy no longo prazo. Eu diria que até no curto prazo, tendo em vista o excelente trio de RBs que o Eagles já possui e que jogam de forma mais adequada ao funcionamento do seu ataque.

A única interrogação aqui é o mesmo que se aplica ao QB Sam Bradford. Vai conseguir ficar saudável? Se der tudo certo para ele e seu joelho voltar inteiro, não há qualquer dúvidas que vai ajudar demais a defesa da sua nova equipe.

Falando da defesa ainda, uma contratação importante foi a do CB Byron Maxwell, que não vale tanto quanto vai receber – supervalorizado por ter jogado em uma defesa muito acima da média – mas que vai contribuir e melhorar a secundária no que lhe couber. A equipe segue precisando de um bom Safety e o Draft pode suprir isso com sua primeira escolha (Landon Collins).

– Conclusão

Não há dúvidas que Chip Kelly sabe armar um bom ataque. Os números do Eagles nos últimos anos provam isso e mostram que o sistema do seu treinador funciona na NFL sim. Chegaram apenas uma vez aos playoffs e foram eliminados pelo Saints – na pós temporada, o time precisa jogar melhor nas trincheiras e estabelecer bem o jogo corrido. Philadelphia conta com um trio de RBs realmente bom e que vai dar segurança ao time, até porque sabemos que quando você consegue correr bem, as suas chances de anotar TD ao entrar na red zone são muito maiores que ter que se contentar com o Field Goal.

Isso tem sido um problema desse time que costuma estar sempre no topo ou próximo dele quando se avalia estatísticas ofensivas, no entanto, se pegarmos a eficiência desse ataque na red zone, a coisa muda de figura. Acredito que com uma boa linha ofensiva como a deles, boa dupla de Tight Ends, um excelente trio de RBs, um slot WR de qualidade (Jordan Matthews) e um QB mais talentoso, essa deficiência poderá ser superada.

Nunca podemos esquecer que na conferência nacional, o Eagles precisa bater defesas fortíssimas para chegar longe. Podemos citar o Seahawks e o Cardinals como exemplo. Muitas vezes, os times anulavam os recebedores de Philly pelas pontas (wideouts) e o ataque entrava em parafuso, permanecendo pouco em campo devido a sua costumeira velocidade entre uma jogada e outra e, consequentemente, a defesa cansava. Hoje, Chip Kelly pensa em avançar de pouco em pouco, se manter em campo e aguardar a oportunidade para uma jogada explosiva. Para isso, trouxe os RBs DeMarco Murray e Ryan Mathews que, com os dois bons TEs que já estão no elenco, dão a opção de o time mover o jogo das pontas para o meio e usar os duelos favoráveis contra os linebackers adversários, especialmente contra excelentes defesas como as citadas.

Com relação à defesa, a equipe conta com uma boa linha defensiva e reforçou sua secundária e seu corpo de linebackers trazendo o Kiko Alonso, um dos mais promissores ILBs da liga. Se o ataque der conta do recado como se supõe, essa defesa deve ser o suficiente para assegurar alguns resultados.

Para muitas pessoas, o Eagles parece pior e conta com jogadores que podem se machucar de novo a qualquer momento – como Kiko Alonso e Sam Bradford -, mas esse é um risco que Chip Kelly teve de correr para ter os jogadores que precisa para implementar com mais precisão seus sistema de jogo. O treinador do Philadelphia está em uma linha tênue entre ser louco ou gênio, ser o cara ou um professor pardal. Gosto da atitude, da coragem e da confiança que ele tem naquilo que acredita e pode-se dizer que essa offseason do Eagles foi mais insana que o filme Draft Day – o qual, aliás, recomendo por diversão. Meu “veredito” aqui é de que ele conseguiu as peças que queria e elas encaixam melhor naquilo que ele enxerga para seu time, aposto em um ataque mais eficiente para marcar pontos e se manter em campo por mais tempo. Se vai dar certo, acho que é algo que está muito mais ligado à saúde dos jogadores que qualquer outra coisa, pois a montagem do time foi boa e faz sentido. Hoje, o Philadelphia Eagles é um time melhor do que era antes da Free Agency começar. Jamais vou apostar em lesão. Se Sam Bradford e cia não voltarem a sofrer com isso, esse time do Eagles pode surpreender muita gente.

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