quinta-feira, 10 de março de 2016

Compartilhe

1-14-13-Colin-Kaepernick_full_600

Não é dessa temporada que os QBs da NFL ostentam contratos milionários, mesmo alguns tendo produção e desempenho aquém do esperado para alguém que recebe grandes cifras por 16 jogos anuais. Essa valorização vem sendo gradual e acompanhando a igual desvalorização da posição de Running Back, talvez a segunda posição mais vital num ataque nos dias de hoje. Mas por que isso vem acontecendo?

Para tentarmos entender isso, temos também que levar em conta o contexto histórico que o esporte vem passando. Já desde os primórdios dos anos 70, a liga, até então amplamente dominada pelo jogo corrido, começou a ter uma mudança de paradigma com a introdução do jogo aéreo como o ponto central dos ataques, muito pelo avanço da qualidade das bolas (sim), que evoluíram rapidamente se comparadas as que eram utilizadas nos primórdios do esporte, que dificultavam e muito o jogo de passe. Faltava até mesmo o material humano disponível para o fazer, sendo notório o grande ponto de virada da liga com o Draft de 1983, onde nada menos que John Elway, Jim Kelly e Dan Marino foram selecionados. Esse trio, quase que unanimidade em qualquer TOP 10 da posição na história, mostrou para o resto da NFL que o presente e o futuro eram pelo ar e que todos precisariam se adaptar para os tempos que seguiram.

Bem, após essa pequena pílula histórica acerca de como a NFL era e o que virou, voltemos para os dias de hoje para debater o porquê dessa supervalorização dos QBs quase que desenfreada nesse milênio. Vou listar três tópicos e desenvolver pontos que sustentam o receio dos times em perder o tão sonhado QB, levando-os assim a preferir assinar contratos multimilionários com altos valores garantidos, do que se arriscar no Draft ou mesmo na Free Agency por um novo passador, podendo cair em tempos de ostracismo e fracasso.

OS TIMES SÃO REFÉNS DOS JOGADORES

Embora muitas pessoas pensem o contrário, partilho da opinião que, mesmo os donos dos times sendo as pessoas que de fato assinam o cheque e arcam por todos os custos que envolvem o funcionamento do time, eles são os reais reféns na relação com os jogadores e seus agentes, que deitam nas mesas de negociação, sabendo da grande dificuldade para achar um titular razoável na posição e garantem esses valores astronômicos por quase uma década de contrato. Uma vez assinada a extensão contratual, o time realmente fica refém daquele jogador que vai ocupar 10,12% de todo o limite salarial pago anualmente para os 53 jogadores do elenco principal, onde, munido de milhões e milhões de dólares garantidos, a única garantia que o QB continuará se dedicando ao máximo, é a ética de trabalho do mesmo. Mas sem opção, os donos tem que tomar essa decisão e abrir a carteira para seu titular muitas vezes apenas regular.

TIMES “EVITANDO” APOSTAR TUDO NO DRAFT

As franquias também estão mais receosas em selecionar um QB através do Draft. Toda a adaptação de um calouro ao time, a uma nova cidade e ao próprio playbook, que não é nada fácil de ser decorado, representam alguns dos diversos empecilhos que muitas vezes seguram as franquias na hora do recrutamento anual, sem falar que, por melhor que o QB tenha jogado no College e seja bem visto aos olhos dos times, uma enorme incógnita cerca os jovens sobre seu desempenho entre os profissionais e nunca é garantia que um jogador vá render tudo que se espera dele. Apenas lembre que Mark Sanchez era o “Novo Joe Namath” quando o Jets deu a vida por ele, que Matt Leinart era o QB mais pronto da história para a NFL e que, para os olhos de Mike Mayock, maior guru do Draft de todo o mundo, o Pro Day de JaMarcus Russell em LSU foi o melhor que ele já viu até hoje, para ficar apenas em três exemplos.

FALTA DE TALENTO NA FREE AGENCY

Por fim, nos últimos anos, o que vemos na Free Agency da NFL são badalados jogadores nas posições de WR, DE e CB que terminam seus contratos e vão em busca das grandes cifras e até conseguem, já que o período é o ápice da valorização dos jogadores, onde reina a regra do “quem paga mais, chora menos”. Mas, especificamente na posição de QB, não é o que se tem visto. Se analisarmos a última década e excluirmos Peyton Manning em 2012, que foi uma grande aposta do Broncos pois, aos 35 anos de idade e após 4 cirurgias no pescoço, havia dúvidas se ele conseguiria lançar uma bola novamente, o último bom QB a ir para o mercado dos jogadores livres foi o então contestado Drew Brees no longínquo ano de 2005, que mesmo após boa temporada no San Diego Chargers, não teve seu contrato renovado devido ao histórico de lesões e ao então calouro Philip Rivers pedindo passagem para ser titular.

Conforme passaram os anos, foi ficando cada vez mais escasso o número de bons jogadores da posição, o que só aumenta o receio dos times em irem ao mercado buscarem um jogador de posição tão crítica dentro do jogo. O resultado disso tudo você com certeza já deve saber e, em algum momento ao pegar seu salário, deve ter se revoltado e ficado com inveja de jogadores como Jay Cutler, Brock Osweiller ou Ryan Tanehill. Vamos aos números:

(Fonte: Spotrac)

Jay Cutler (Chicago Bears)
7 anos, U$ 126M com U$ 54M garantidos

Colin Kaepernick (San Francisco 49ers)
6 anos, U$ 114M com U$ 61M garantidos

Aaron Rodgers (Green Bay Packers)
5 anos, U$ 110M com U$ 54M garantidos

Tony Romo (Dallas Cowboys)
6 anos, U$ 108M com U$ 55M garantidos

Matt Ryan (Atlanta Falcons)
5 anos, U$ 103M com U$ 42M garantidos

Drew Brees (New Orleans Saints)
5 anos, U$ 100M com U$ 37M garantidos

Andy Dalton (Cincinnati Bengals)
6 anos, U$ 96M com U$ 17M garantidos

Ryan Tannehill (Miami Dolphins)
4 anos, U$ 77M com U$ 45M garantidos

Brock Osweiller (Houston Texans)
4 anos, U$ 72M com U$ 37M garantidos

Tom Brady (New England Patriots)
2 anos, U$ 41M com U$ 28M garantidos

Estes são alguns dos maiores contratos em vigor na NFL. Note a disparidade e mesmo a falta de critério neste arranjo entre o salário recebido pelos QBs, que a forma como estão organizados nessa tabela nos mostra que todos os QBs recebem basicamente a mesma quantia. Veja que Tom Brady, o maior vencedor da história dos playoffs, tem um salário em vigor menor que jogadores como Matt Ryan, Andy Dalton e Jay Cutler que combinam para quase 300 milhões em salários e tem, SOMADOS, gloriosas duas vitórias em playoffs dentro de suas carreiras. Pra ficar nesses exemplos apenas, já pode-se perceber a disparidade causada por algumas das causas que citei anteriormente.

Outro fato que chama a atenção ao analisarmos os contrato de alguns dos QBs da NFL é o número de atletas que tiveram lapsos de talento e ganharam acordos de longo prazo, é o caso de jogadores como Colin Kaepernick, Ryan Tannehill e, mais recentemente, Brock Osweiller. O desespero por um atleta de confiança na posição é tão grande que isso acaba acontecendo e, às vezes, o resultado do negócio acaba vindo mais cedo que o esperado: é só voltarmos a temporada passada e lembrarmos que Kaepernick foi reserva na segunda metade do ano para o glorioso Blaine Gabbert no San Francisco 49ers.

O fato é que somos 7 bilhões de pessoas no mundo e, simplesmente, não há 32 delas capazes de serem um Quarterback de elite, onde discutivelmente menos de meia dúzia de pessoas podem clamar esse título. Surreal, não ?!

Compartilhe

Comments are closed.