quinta-feira, 30 de abril de 2020

Compartilhe

Na NFL – e na vida em um contexto geral, vivemos fases. O grau de preparo pessoal para tais fases pode até decidir o sucesso (ou não) das empreitadas que vivemos ao longo dos anos, mas tão inevitável quanto isso, é analisarmos que um dia, tudo passa. Quanto antes entendermos isto, mais fácil fica a aceitação que nada dura para sempre – e como disse Heráclito de Éfeso, a única constante é a mudança.

O Green Bay Packers, ao longo dos últimos 30 anos, parece ter se adaptado bem às fases vividas na busca por um Quarterback. A histórica franquia do Wisconsin trabalhou muito bem na sucessão lendária de seus lançadores, embora o número de Super Bowls conquistados denota para muitos que o sucesso não se traduziu naquilo que realmente mais importa: vitórias no primeiro domingo de fevereiro, data na qual normalmente o Super Bowl é jogado. De Brett Favre à Aaron Rodgers, foram praticamente trinta anos com atletas sólidos na posição mais importante de uma equipe, salvo uma ou outra inserção forçada por conta de lesão mas a constante era sempre a mesma: o número 4 de Favre e o 12 de Rodgers deram a tônica em Green Bay e denotaram décadas com desempenhos soberbos dos dois atletas, mesmo que de estilos antagônicos mas que no final sempre era o mesmo resultado: sucesso.

Leia Mais: AFC Norte será sinônimo de equilíbrio em 2020

Leia Também: O Arizona Cardinals vai ser um time explosivo em 2020

Agora, em 2020, o Packers parece se prepara para a sucessão de um lendário QB.

Na primeira rodada do Draft, a equipe ignorou que Rodgers e seus comandados estavam a 60 minutos de mais um Super Bowl na rica história do time, ignorou uma das classes mais ricas numa posição crucial do ataque – Wide Receivers e ignorou que Rodgers estará com 37 anos na próxima temporada e pode começar a apresentar sinais de declínio, o que fecharia a janela de possibilidades de conquista do troféu Vince Lombardi. Tudo isto para recrutar o QB Jordan Love de Utah State, na 26ª escolha geral – inclusive armando uma troca para subir da 30ª posição, ou seja, realmente queriam o atleta à ponto de sacrificar escolhas de rodadas posteriores para recrutar o jogador que apresenta muito talento, mas igualmente uma necessidade de lapidação de suas intangíveis como profissional.

Que fique claro: provavelmente ele não estará pronto para atuar no nível da NFL em um ano ou dois, mas sua escolha representa uma mudança dentro da organização Green Bay Packers. O sacrifício de reforços no presente em razão da sucessão de Quarterbacks no futuro representa que a equipe já começa a se planejar a longo prazo (que na NFL é amanhã) na sua posição mais crucial.

Eu não digo que Love possui algum talento sobrenatural que Rodgers não tenha mostrado, mas pelo contrário, o camisa 12 foi por muitos anos o jogador mais cerebral de toda a NFL, apresentando a melhor porcentagem de TDs para interceptações lançadas que já vimos na história, mas aí entra uma figura muito importante, o HC Matt LaFleur.

Pra mim, claramente a escolha de Love tem não apenas o dedo, mas as duas mãos de LaFleur, pois me parece uma demonstração de força do técnico perante Rodgers e a organização do Packers. Sabe-se de longa data que o Quarterback não é dos mais amistosos dentro de um elenco, sabe-se que teve problemas visíveis com seu antigo técnico Mike McCarthy em seus últimos anos no comando no que diz respeito à montagem do esquema de ataque e que ele tem muita influência dentro da alta cúpula de Green Bay. Isto não impediu que LaFleur recrutasse o protótipo ideal de Quarterback que ele vê dentro de seu sistema.

Ficou claro no decorrer da última temporada que haviam diferenças entre o que o QB e HC pensavam de um ataque de sucesso. Deixar o relógio correr até praticamente o último segundo a cada snap, mudar jogadas na linha de scrimmage e alinhar em formação shotgun na maioria das jogadas são itens quase que indispensáveis para Rodgers, que se utilizou deles na última década para compilar nomeações para o All-Pro, dois títulos de MVP e um anel de campeão do Super Bowl ao longo de sua caminhada, porém tais conceitos não se aplicam à LaFleur. (Confira aqui o dicionário da NFL se tiver dúvidas).

Para você que assistiu o Tennessee Titans da última temporada pulverizar defesas adversárias com um jogo terrestre impiedoso comandado pelo RB Derrick Henry, saiba que LaFleur foi o precursor do sistema que atingiu seu ápice em 2019 levando o Titans até o jogo do título da AFC: antes de assumir o cargo de técnico de Green Bay e vencer 14 jogos contando temporada regular e playoffs, ele era o coordenador ofensivo da franquia de Nashville e implantou suas ideias de ataque por lá, o que deu muito certo nesta temporada.

Parece que o Packers está indo para o mesmo caminho. O GM Brian Gutekunst entrou no Draft com o claro objetivo de melhorar as trincheiras após ser dominado pelo San Francisco 49ers na final da NFC. As escolhas do RB Aj Dillon e do versátil Josiah Deguara, juntamente com três jogadores para o miolo da linha ofensiva deixam claro o interesse da equipe: correr mais com a bola. Parece claro também que planejam emular, em partes, o sucesso obtido pelo próprio 49ers em 2019 e pelo Rams na temporada anterior, quando Todd Gurley foi o melhor RB de toda a liga.

Em 2019, o 49ers foi uma de duas equipes que tiveram mais tentativas terrestres que aéreas na temporada (48,6% das jogadas foram passes). Para efeito de comparação, Packers contou com uma das armas mais dinâmicas de toda a NFL, o RB Aaron Jones e passou a bola em 59,8% de suas jogadas. A adição de AJ Dillon (de 1,82m e 112kg) juntamente com a presença de Jamaal Williams são o claro indício que a equipe planeja equilibrar esta balança e correr bastante entre os Tackles, isto é, pelo meio da defesa adversária. Deguara, por sua vez, me lembra muito o FB Kyle Juszczyk, tão crucial para o esquema ofensivo de Kyle Shanahan lá na California e pode adicionar um elemento de versatilidade dentro das jogadas de bloqueio.

Acredite ou não: ter menos a bola nas mãos pode ser vantajoso para Rodgers nesta altura. O jogo corrido impiedoso fatalmente atrairá a atenção da defesa adversária, que ficará mais próxima da linha, então a ameaça da corrida pode ser melhor que simplesmente contar com recebedores calouros na campanha. Veja só: segundo o Pro Football Referente, Jared Goff, Quarterback do Rams, liderou a NFL em jardas aéreas usando o play-action (que é quando o QB finge entregar a bola para o RB e tenta o passe) com 1564 e Jimmy Garoppolo, do 49ers, foi o segundo nesta estatística com 1438. Para efeito de comparação, Rodgers foi o sétimo jogador que mais tentou passes nesta situação mas foi apenas o 11° em jardas, ou seja, tentaram enganar o adversário várias vezes mas não obtiveram sucesso em todas elas.

Sinceramente, vejo muitas possibilidades dele, completando 37 anos durante a próxima temporada e com mais dois anos de contrato, rendendo ainda mais e esticando sua carreira como atleta profissional. Vejo, por outro lado, que ele não aceitará perder gradualmente o controle de seu ataque (que custou a demissão do último técnico) e lidar com uma gradual queda de desempenho em seu rendimento enquanto um calouro recrutado na 1ª rodada do Draft espera sedento pela sua oportunidade de tomar as rédeas da franquia.

Vale lembrar que Brett Favre tinha 35 anos quando o Packers recrutou Rodgers com a 24ª escolha geral do Draft de 2005. Rodgers ficou três anos aguardando sua chance entre os profissionais e quando assumiu o posto de QB titular, Favre ainda atuou por New York Jets e Minnesota Vikings, este um rival do Packers, inclusive compilando algumas vitórias contra seu ex-pupilo e guiando o Vikings até a final da NFC da temporada de 2009, quando foram derrotados pelo New Orleans Saints de Drew Brees, em partida que lançou uma dolorosa interceptação na prorrogação (desculpe, torcedores do Vikings).

Poucos conhecem o QB quanto o lendário Quarterback que guiou sua sucessão em Green Bay. Ele, inclusive, conversou com Rodgers após a seleção de Love mas embora não tenha dado muitas pistas do assunto, declarou que tal ato do Packers está dentro da cabeça do veterano e que ele não tem nenhuma obrigação de ser o mentor daquele que um dia deverá sucedê-lo na posição. Encerrou dizendo que não encara como uma traição, assim como não encarou no passado quando estava envolvido na sucessão, mas que honestamente vê o QB atuando por outra franquia no futuro próximo.

Já imaginou? Um dos mais prolíficos e vencedores QBs da década passada atuando por outra franquia no final de carreira? Eu pagaria para ver, e você?


Acompanhe nosso conteúdo mais de perto e fique por dentro de tudo o que rola na NFL e NCAA: Siga nosso Twitter e curta nossa página no Facebook. Para ganhar DEZENAS de benefícios e se tornar um apoiador do site e do nosso trabalho, clique aqui.

Compartilhe

Comments are closed.