sexta-feira, 26 de julho de 2019

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Os training camps finalmente começaram! Os longos meses que duraram a inter-temporada da NFL parecem finalmente estar no passado, já que agora seremos bombardeados diariamente por notícias sobre como andam os treinamentos para a temporada regular que já está no horizonte. Antes disto, há a pré-temporada para nos dar uma boa noção de melhorias feitas por todas as 32 franquias para buscaram a glória máxima da temporada de 2019, então acabaram-se os tempos de “vacas magras” para nós, fãs deste esporte.

Contudo, gostaria de abordar um assunto delicado, que existe mais de um ponto de vista e talvez nós – meros expectadores desta situação, não conseguiremos entender em sua essência, mas isto não impede de tentar (e que dá título ao texto): as greves dos jogadores.

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Anualmente, vemos alguns exemplos de atletas que simplesmente não dão as caras nos treinos preparatórios de Maio e Junho (alguns obrigatórios graças ao acordo entre NFL e o sindicato dos jogadores) e o motivo é quase sempre o mesmo: divergências entre o que os jogadores recebem daquilo que eles julgam valer graças ao rendimento que entregam para o time que defendem. Jogadores buscam uma maior compensação financeira pelos serviços prestados bem como uma segurança a médio ou longo prazo – algo naturalmente normal.

Afinal, quem não quer receber um salário justo de acordo com o ótimo desempenho? Quem não quer matricular seus filhos em uma escola sabendo que construirão raízes naquela comunidade pelos próximos cinco ou sete anos? Isto parece absolutamente normal.

Toda situação do tipo apresenta um conglomerado único de elementos, mas o objetivo é sempre o mesmo. De um lado há o jogador, que almeja maximizar sua janela de desempenho dominante com um novo e lucrativo contrato, puramente para sua segurança. Do outro, há o time, que deseja se manter competitivo (pagando mais de cinquenta outros jogadores além deste) e que tem a seu favor a assinatura do atleta num determinado período do passado, concordando em receber aquilo que lhe é pago anualmente.

Pessoalmente, partilho de uma opinião mais romântica da NFL, em que os jogadores realizam diariamente não apenas os seus sonhos de infância, mas o de parentes, amigos e mesmo desconhecidos que alimentavam, mesmo que vagamente, o objetivo de atuar no nível mais alto deste esporte e que vivem este sonho através das estrelas dos milhões de nós que vemos pela TV – ou mesmo dos milhares que tem a sorte de acompanhar uma partida pelo estádio. Meu primeiro pensamento nesta situação é claro: “jogadores não tem razão em reclamar, afinal eles vivem meu sonho diariamente”. Pois pense bem, eles não podem perder uma dia sequer de treinos, a temporada está aí e eles precisam estar preparados para a longa campanha!

A mídia em geral, na maioria dos casos, acaba não partilhando os dois lados da mesma moeda – normalmente, apenas o lado dos times. Expondo os jogadores e seus agentes como os “ingratos” que não estão satisfeitos com termos previamente assinados – mesmo que em outra época e praticamente os obrigando a se apresentarem para os treinamentos, encerrando qualquer tipo de greve.

Passei a entender a situação em outra ótica, ou melhor, com outros olhos. Não digo que um ou outro caso representa uma verdade absoluta, mas que ambos tem seus pontos na luta por aquilo que acham ser o certo.

Quando um atleta é recrutado no Draft por uma franquia, ele tem uma opção bastante clara para se profissionalizar: negociar com apenas um time. (As ramificações daqueles que não chegam a um acordo com o time que o recrutou são tão pesadas que nem vou discutir nesta coluna, mas para quem não sabe envolve a proibição total de contato com a equipe). Atletas não podem chegar a um determinado proprietário e falar “desculpe, não acho que isto oferecido à mim é válido pelos meus serviços, o dono de outra franquia iria me propor um contrato melhor, e é isto.” Times sabem desta exclusividade e da vantagem que representa na hora de negociar. O desespero de não ter um contrato de calouro assinado perto do training camp exerce um grande papel por aqui, sem falar da ansiedade em receber o primeiro cheque pelos serviços de jogador de futebol americano profissional. Os times, por sua vez, estão acostumados à esta situação e praticam o jogo da paciência, crentes de um eminente acordo entre as partes.

A situação do RB Melvin Gordon, do Los Angeles Chargers (e também do RB Ezekiell Elitott, do Dallas Cowboys), são perfeitas para este exemplo. Gordon foi recrutado no Draft de 2015 após uma gloriosa carreira pela universidade de Wisconsin. A 15ª posição geral no Draft representa o tamanho da confiança da equipe na sua profissionalização do RB (posição historicamente desgastante) e também simbolizaria um grande poder de negociação do atleta com a equipe neste primeiro momento como um jogador profissional, certo? Errado.

O contrato dos calouros é nivelado de acordo com a posição que ele fora recrutado, então Gordon e seu agente pouco puderam negociar frente à esta opção. Tal nivelamento dos contratos foi assinado junto com o acordo trabalhista entre NFL e o sindicato dos atletas lá em 2011, ano em que Gordon era apenas um calouro, mas na universidade. Então, enquanto Gordon dava seus primeiros passos atuando pelo Badgers no auge de seus dezoito anos de idade, uma decisão datada daquele ano simbolizou que, quatro anos depois, ele pouco pudesse fazer na mesa de negociação a não ser aceitar os U$ 15 milhões que o Chargers propôs a se pagar em quatro anos pelos seu serviços e como deve saber, Gordon não se apresentou aos treinos do Chargers buscando um novo contrato (ele atuaria em 2019 com a opção do quinto ano, uma cláusula no contrato dos calouros que garante mais um ano de controle da franquia sobre ele).

Não aceito a falácia de que o atleta tinha dado sua palavra ao Chargers acerca do cumprimento deste contrato em sua totalidade quando na verdade, praticamente todas as bases de valores de seu contrato assinado em 2015 foram estabelecidas em 2011, quando provavelmente ele começava a amadurecer a ideia de atuar na NFL um dia, ou seja, tecnicamente não houve negociação – já que a posição que fora recrutado já marcou o quanto ele ganharia neste seu primeiro contrato.

Michael Thomas, WR do New Orleans Saints e atualmente um dos melhores de toda a NFL é outro jogador que está nesta situação – e não se reapresentou aos treinos do Saints, buscando um melhor segundo contrato. Thomas foi recrutado na 2ª rodada do Draft (na 47ª escolha geral) em 2016 e segundo o Spotrac (site especializado em contratos dos esportes norte-americanos) receberá cerca de U$ 5 milhões se cumprir seus quatro anos do vínculo assinado (ou seja, até o final desta temporada).

A grande maioria dos jogadores acabam ouvindo seus agentes antes do início dos treinamentos da pré-temporada. Uma greve não é uma estratégia, é uma reação e único modo de um jogador poder dizer “ei, vocês não estão me tratando de maneira justa”.

De certa forma, esta luta por contratos mais lucrativos é visando evitar uma única situação – lesões. As tenebrosas contusões são capazes de transformar não apenas uma temporada, mas uma vida inteira a cada snap. Vale o destaque que antes de atletas, estes são jovens pessoas que tem cinquenta ou sessenta anos de uma vida relativamente normal pela frente, então a saúde física e mesmo financeira a médio e longo prazo para perpetuação da família também tem grande influência nesta parte.

Então, vejo nesta altura dois lados da moeda que buscam ter sua própria razão nesta queda de braço por mais dinheiro – puramente isto. Jogadores que não estão em contrato de calouro, isto é, já conseguiram de alguma maneira se estabelecer dentro da NFL, também são vistos nesta situação de greve. Seus motivos também são outros, e podem até estarem certos também… buscaremos analisar esta situação na semana que vem.


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