sexta-feira, 18 de setembro de 2020

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Passada a primeira semana da nova temporada da NFL. É hora de rever quais os melhores lances de uma fase do jogo que ainda leva pouca atenção. Muitas vezes não prestamos atenção na técnica e tática envolvidas no special teams e acabamos perdendo de ver alguns detalhes muito legais que levam a jogadas que nos chamam a atenção. No texto de hoje, explicarei as quatro principais jogadas dos times especiais na primeira rodada e como coisas que vemos usualmente no ataque e defesa também estão presentes na terceira fase do esporte.

Bloqueio de punt pelo Cardinals

O Arizona Cardinals conseguiu um dos resultados mais surpreendes da rodada ao bater o atual vice-campeão San Francisco 49ers. Uma das jogadas que foram cruciais para esse fim, foi um bloqueio de punt no campo de defesa da equipe californiana enquanto perdiam por 10 a 0 fora de casa.

Eles executam um esquema muito interessante de rush, se utilizando de um conceito desenvolvido pelo New England Patriots em seu pass rush na defesa. Onde dois rushers (que irão pressionar o QB ou chutador) atacam o RB na proteção, um dos dois é responsável por atacar um dos ombros do bloqueador (o que chegar primeiro) e o forçar para seu lado e em seguida empurrá-lo em direção ao QB, permitindo assim a passagem livre do outro rusher sem o mesmo precisar abrir muito para chegar ao destino. Esse conceito/técnica é chamado de Trailer Technique.

Exemplo acima do #32 executando a trailer technique para cima do RB e permitindo a passagem livre do #21 sem que o mesmo tenha que abrir muito para fazer isso.

Tudo começa com a formação, onde eles alinham os rushers bem abertos para forçar a proteção de San Francisco a abrir um pouco nos primeiros passos pós snap.

A proteção do 49ers é a base do Pro Punt (formação característica nas equipes da NFL), onde cada jogador na linha é responsável pelo seu gap (espaço entre os atacantes) externo (notem como todos executam um kick slide que é esse recuo, de maneira semelhante ao offensive tackle quando o mesmo deve proteger a ponta da linha). Na medida em que o Long Snapper (LS) é responsável por um dos gaps A (o da esquerda) e o Punter Protector ou PP (número 27) fica com o outro gap A. Arizona manda um rusher no Gap A do LS e assim, o PP assume quem vier no outro A. No entanto, a pressão manda dois jogadores nesse Gap e eles fazem isso de maneira criativa, ao realizar um X, anulando assim a chance do LS ou LG reconhecerem esse movimento e ajustarem a proteção.

O PP assume o primeiro rusher, que tem a responsabilidade de executar a trailer technique em cima dele  (número 45) e assim permitir caminho livre para Ezekiel Turner bloquear o chute indo “reto” em direção ao punter e realizar uma das melhores jogadas da semana.

https://twitter.com/AZCardinals/status/1305248469641117696

Rush no punt é semelhante ao pass rush que vemos toda hora na defesa, pois o objetivo é chegar o mais rápido possível no jogador que tem a bola antes que ele se livre dela (seja passando ou chutando) e nada melhor do que incorporar conceitos dessa parte do jogo dentro das equipes de retorno de punt.

Leia Mais: Ep #219 – Semanas 1 e 2 da NFL
Leia Também: Power Ranking Liga dos 32 – Semana 1

Recuperação de onside kick do Falcons

No texto da última semana, falei sobre a dificuldade na recuperação dos onside kicks e nesta primeira semana tivemos o primeiro recuperado. Foi em uma situação de jogo decidido e não importou nada no resultado final da partida, no entanto alguns pontos são legais de serem destacados.

O primeiro é a posição da bola chute, onde é executado com a bola deitada e apoiada de lado no tee. O chute é feito de “bico” sem que a bola realize o tradicional bounce de um quique, onde ela quica uma vez e sobe bem alto. Em vez disso, o chute é do tipo Squib Bounce, onde a bola toca no solo duas vezes e assim, demora mais tempo a chegar, pegando um efeito interessante, que ao não subir muito, acaba não chegando nos braços do retornador do Seattle na segunda linha.

Outro ponto interessante é que a primeira linha de um retorno de kickoff em situação de onside kick, muitas vezes não é responsável por recuperar o chute e sim por bloquear o adversário e o impedir de chegar na bola. Deixando a tarefa de pegar a oval com os jogadores da segunda linha que estão protegidos por eles. Essa abordagem tática saiu pela culatra para a equipe do estado de Washington, pois a bola estava mais para a primeira linha recuperar do que a segunda, como podemos ver pelo vídeo.

No entanto, uma excelente movimentação do camisa 54 (Foyesade Oluokun) do Falcons é o que gera a recuperação. Ele começa indo um pouco para a esquerda e isso força seu bloqueador, número 28, (Ugo Amadi) a ir para a sua direita para entrar em contato com ele. No entanto, a bola vai mais para dentro e assim, Oluokun corta para dentro, evita o bloqueio e recupera o chute antes de Will Dissly que estava na segunda linha. Caso ele tivesse ido “reto”, poderia ter sido bloqueado por Amadi e assim impedido de realizar a recuperação.

Recuperação de bola no kickoff pelo Saints

Em uma das jogadas mais legais desse fim de semana, o New Orleans Saints utilizou uma falta, formação e situação a seu favor para fechar o caixão na partida contra o Tampa Bay Buccaneers.

Após uma falta pessoal, o Saints iria chutar seu kickoff da linha de 50 jardas. E tinham uma decisão a tomar, chutar fundo e dar o touchback para a equipe de Tampa Bay ou chutar curto e não permitir o avanço além da linha de touchback (25 jardas). Eles optam pela segunda escolha, com uma pitada de crueldade.

Ao jogarem em um dome (estádio fechado), o sky kick (chute bem alto e que fique um tempo no ar) se torna uma arma interessante para causar problemas aos retornadores nos times especiais. O jogador às vezes perde a bola no meio do teto do estádio e uma técnica que os kickers utilizam nos sky kicks é de colocar bastante efeito na bola (ela gira muito rápido) e assim, dificultar ainda mais a recepção do mesmo. Isso é conquistado graças a um detalhe importante, notem o holder presente na jogada. Isso não é muito comum nos kickoffs (salvos jogos com muito vento), mas aqui ele entra para pressionar a bola para baixo, e essa segurada colocando essa pressão, permite que o kicker gere mais efeito na bola ao chutá-la pegando bem embaixo da bola oval.

A equipe de New Orleans chuta a bola bem para a lateral, buscando um espaço vazio no campo dentro da formação da equipe adversária, onde um ponto a se destacar é a mudança de regra para o retorno, pois atualmente as equipes não podem colocar mais do que 3 jogadores na segunda linha (para diminuir a força dos bloqueios e “retirar de campo” aqueles bloqueadores mais pesados), criando mais espaço entre eles e assim, colocando 4 pontos na mesa.

1 –  Bola em uma posição favorável para tentar um chute curto

2 – Teto do estádio dificultando a visão

3 – Bola girando com bastante efeito

4 – Retornador tendo que correr para se ajustar ao ponto do chute

Chute sai com perfeição e uma bagunça na equipe do Bucs gera a recuperação de bola e uma posse extra para Drew Brees marcar mais pontos.

Essa jogada lembra bastante a abordagem de passe ofensiva e como conceitos do ataque podem ser usados dentro da equipe de kickoff, exemplificando: quando o ataque procura o buraco em uma zona (espaço vazio no retorno), em uma situação de descida e distância que permita isso (chute na linha de 50) e com uma combinação de rotas que visem atacar da melhor forma um defensor (chute com efeito).

Bloqueio de Field Goal do Broncos

Um dos assuntos mais comentados no último Monday Night Football foi a péssima atuação do kicker Stephen Gostkowski do Tennessee Titans. No entanto, no seu primeiro erro, a culpa não foi exclusivamente dele.

No meu texto sobre como podemos valorizar mais o special teams, falei de 3 pontos para ficarmos de olho nos field goals e extra points e dois deles entraram em ação nesta jogada.

Falando da parte tática, a equipe de Denver vem com uma formação 6×4 para a esquerda, e o ponto de ataque para o bloqueio é no gap A ou B em cima do RG. A estratégia empregada é a do Vice Drive (vice = 2, drive = carregar). Onde o #93 (Dre’Mont Jones) e o #96 (Shelby Harris) devem empurrar o RG para trás e em seguida devem levantar seus braços. O gap para qual o bloqueio será feito, dependerá do atacante, onde qual dos dois ele escolher para dar mais atenção, o outro terá espaço para bloquear.

Um detalhe crucial facilitou bastante a execução do Broncos, que foi a levantada que esse RG dá após o seu step inside (passo para dentro que todos da proteção devem dar para comprimir seu gap interno). Ele aumenta seu pad level (altura dos ombros) e assim se torna muito vulnerável ao vice drive e os dois rushers penetram no backfield (note como no momento do chute o RG já está fora da linha) e em boa posição de levantar os braços.

Como se trata de um chute médio, eles mesclam as opções de rush (leia mais aqui). E a opção de atacar um jogador fraco na proteção é perfeito, e o chute é bloqueado por Harris, levando a partida para o intervalo em 7 a 7.

Achou semelhança com aquele esquema de pass rush onde a defesa ataca um OL “fraco” colocando dois defensores em cima dele? Pois é, no field goal isso também é feito!

Toda semana temos várias jogadas interessantes dos times especiais na maior liga de futebol americano do mundo e o nosso papel aqui no Liga dos 32 é fazer você começar a perceber várias dessas táticas e técnicas interessantes que são empregadas e pensadas. Fique de olho nos próximos textos, pois análise de special teams de qualidade, você só vê aqui!

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