terça-feira, 17 de outubro de 2017

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Foi no dia 3 de março que Colin Kaepernick optou por deixar o San Francisco 49ers. Desde então, meses se passaram até chegarmos ao dia de hoje. Sete meses e duas semanas, para ser mais exato. Qualquer outro jogador que estivesse sem time por esse período de tempo já estaria não só fora da mídia, como também cogitando sua aposentadoria, dada a baixa probabilidade dos times ainda demonstrarem vontade pelo jogador mesmo após meses sem nenhuma proposta de contrato.

No entanto, Colin Kaepernick é diferente.

Desde a pré-temporada de 2016, Kaepernick resolveu usar o momento do hino nacional antes da partida para fazer um protesto contra a “opressão contra pessoas negras e pessoas de cor”, nas palavras dele. Se foi da intenção do jogador ou não, o protesto deu uma nova visibilidade ao jogador no momento. Se na época o jogador caminhava para o ostracismo na NFL, já que havia perdido a titularidade pro fraco Blaine Gabbert, os protestos o colocaram de volta na mídia. Sua camisa rapidamente voltou a se tornar uma das mais vendidas da liga, enquanto seu nome voltou a ser falado em discussões entre torcedores. O protesto rendeu ao jogador inclusive a capa da famosa revista Time.

Para um reserva desacreditado, isso poderia significar uma reviravolta em sua carreira. Mas para Kaepernick, isso acabou tendo um efeito contrário.

Diante de todas essas circunstâncias, Kaep ficou nos holofotes da imprensa. Quer ele ou não, isso afasta o interesse dos times da NFL. O maior exemplo recente que temos disso é a passagem de Tim Tebow no New York Jets.

Quando o New York Jets trocou com o Denver Broncos para adquirir o QB Tim Tebow, toda a atenção da imprensa se voltou para o jogador. Todos os treinos do Jets eram apenas para ver Tebow, por mais que ele seja o quarterback reserva. A partir disso, uma bola de neve começou a se acumular contra o time do Jets. A cada passe errado do titular Mark Sanchez, a imprensa pedia Tebow. Com a pressão da imprensa, os torcedores também pediam Tebow. Com a pressão, Sanchez (que já era um jogador limitado) acabava jogando ainda pior. A situação chegou a um ponto tão insustentável que Tebow acabou sendo cortado ao fim da temporada. Se ele tinha qualidade para ser ao menos um reserva da liga até hoje? Com certeza. Mas qual time iria querer a pressão e os holofotes da imprensa pressionando seu quarterback titular?

O mesmo pode ser dito com Colin Kaepernick. O fato de ele não ser contratado por nenhum time gerou ideias ao redor da liga de que havia um boicote dos donos dos times contra Kaep. Pior: o boicote seria porque os donos não toleravam suas opiniões ou por ele ser negro (?). No entanto, Kaepernick é mais um a passar pelo “efeito Tebow”. Ao contratá-lo, uma equipe da NFL acabará contratando junto todo o barulho da imprensa que Kaepernick leva consigo. Ao colocar na balança o benefício que terá contratando o jogador e os malefícios, sua contratação se torna inviável.

Não vou entrar aqui no mérito de se Kaepernick está correto ou não em seus protestos, pois não é o foco que pretendo alcançar com o texto. O maior problema de Kaepernick é querer manter o barulho da imprensa em ocasiões que, ao meu ver, acabaram sendo desnecessárias. O fato do jogador ir a um treino do San Francisco 49ers com uma meia onde policiais estavam desenhados como porcos, por exemplo, é uma polêmica desnecessária ao meu ver. Esse fato só gerou mais polêmicas, mais controvérsias e mais barulho da imprensa ao redor de Kaepernick. O jogador virou uma distração.

Hoje, Colin Kaepernick está processando a NFL por promoverem um conluio contra ele. Segundo as palavras de seu advogado, a NFL e os donos dos times “fizeram conluio para privar Kaepernick do direito de um emprego em retaliação pela liderança e militância de Kaepernick pela igualdade e justiça social, e sua conscientização para instituições peculiares que ainda minam a igualdade nos Estados Unidos”. No entanto, ele esquece de alguns fatos que vão contra essa declaração. Em agosto, o Baltimore Ravens esteve perto de contratá-lo, mas mudou de ideia depois que sua namorada tuitou uma imagem comparando Steve Bisciotti, dono do Ravens, com um dono de escravos. Também no mesmo mês, Shad Khan, dono do Jacksonville Jaguars, disse que o time estaria aberto a contratá-lo. No entanto, quem vetou sua contratação foi Tom Coughlin, vice-presidente de operações do time.

O problema aqui não é boicote. É a distração.

Para os times, não compensa lidar com todo o barulho da imprensa para ter um jogador do nível do Kaepernick. Entre ter um jogador como o Kaepernick e o risco do vestiário acabar contaminado — não necessariamente por causa dele, e sim pelas constantes reações da imprensa — e ter um jogador de um nível um pouco mais baixo, mas com a garantia de que será um reserva dedicado e que não trará problemas externos ao time, o que vale mais à pena na cabeça de um general manager? A resposta é simples.

Se Colin Kaepernick quiser voltar para a NFL, ele precisa tomar algumas atitudes. Antes de mais nada, ele precisa voltar a provar para a liga que ele é um jogador capaz de se manter na liga. Com meses sem um time, pode haver uma dúvida se o jogador está se mantendo em forma e treinando da maneira correta a espera de uma oportunidade. Além disso, Kaepernick precisa procurar uma maneira de diminuir a atenção que a imprensa busca em cima dele. Isso não significa necessariamente deixar de protestar, mas sim evitar atitudes ou declarações que promovam polêmicas ou conturbem o ambiente do time. Quanto menos distração desnecessária ele trouxer ao time, maiores as chances de ele voltar a jogar pela liga.

Dar prosseguimento a essa ação de boicote é um tiro no pé para Kaepernick. Ele não só dificilmente conseguirá provar algo, como também está fechando as últimas portas que estavam abertas à ele na liga.

Colin Kaepernick, eu sinto muito, mas você está se boicotando.

 

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