segunda-feira, 10 de abril de 2017

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32 por 32 - L32

A NFL atrai cada vez mais pessoas, transformando-as em fãs do esporte por diversos motivos. Um dos mais importantes é o fato de possuir meios – e ações nesse sentido – que visam sempre buscar o equilíbrio entre os 32 times envolvidos. Esse caráter da competitividade levada a sério, sem dúvidas, é um dos primeiros choques para quem nunca acompanhou a NFL na vida. “Como pode o Dallas Cowboys com maior torcida e renda, hoje o time mais valioso do mundo, receber o mesmo que o Jacksonville Jaguars que está em um mercado tão menor?”. Seria algo como o América-MG receber a mesma cota da TV Globo que Corinthians e Flamengo. E essa é apenas uma das formas que a NFL tem de manter todas as suas equipes o mais balanceadas tecnicamente possível, evitando ao máximo uma disparidade repugnante para quem sonha com distribuição igualitária de força, talento e qualidade técnica entre todos.

DRAFT EM ORDEM REVERSA

Essa é uma das características mais marcantes da NFL e, embora pareça uma ideia óbvia – as grandes ideias passam essa impressão -, ela tem consequências fundamentais para manter o nível de competitividade o mais alto e equilibrado a cada temporada. O time que teve a pior campanha no ano anterior terá a possibilidade de selecionar, em tese, o melhor jogador vindo da universidade através do Draft. Sendo assim, é plenamente possível que uma franquia que ganhou apenas uma partida em 2015, se classifique para os playoffs em 2016 a depender do nível de seleção de talentos vindos do College Football que ela consiga fazer, especialmente se pegar um grande quarterback com a primeira escolha geral.

Foi o que o Colts fez com Andrew Luck em 2012. Saiu da pior campanha em 2011 para vencer a divisão e chegar aos playoffs no ano seguinte. Através do Draft, o futuro das franquias são construídos e quem são os mais favorecidos a ter os melhores jogadores são justamente as equipes mais fracas da liga, em uma tentativa de manter todos fortes, o que é algo impossível na prática, mas esse tem sido um meio bastante eficiente em muitos casos.

Além disso, existem as escolhas compensatórias no Draft. Elas são dadas não aos piores times dessa vez, mas sim àqueles que perderam jogadores contratados por outras equipes no mercado. A franquia X perde dois bons atletas e ganha duas escolhas compensatórias no Draft, por exemplo. Isso incentiva os times a focarem mais no evento que permite selecionar talentos vindos das universidades e não torrar milhões em veteranos no mercado. Basicamente uma recompensa para quem vai bem no Draft e é capaz de se renovar com os jovens jogadores selecionados a cada ano.

SALARY CAP LIMITANDO GASTOS NA FREE AGENCY E RENOVAÇÕES EM UM MESMO ANO

A Free Agency – ou também conhecida como o mercado de contratações da NFL – seria um prato cheio para as franquias mais ricas, sediadas em cidades que são grandes mercados como Dallas e Nova Iorque. Todos os jogadores que esses times quisessem, seus donos ofereceriam o dobro, o triplo ou até dez vezes mais se fosse o caso para contratá-lo, enquanto os demais brigariam pelas sobras. Esse cenário lembra muito o que o Real Madrid e Barcelona fazem na Espanha, os grandes da Inglaterra fazem na Premier League e assim por diante.

Isso não acontece na NFL por conta de um tal de salary cap (ou teto salarial), que explicamos em detalhes aquiResumidamente, todos os times tem um valor limitando os gastos em contratos por ano e esse limite é igual para todos. Dessa forma, mesmo que uma franquia lucre bilhões a mais que outra, ela não poderá gastar um centavo acima do permitido para ter vantagem financeira e atrair os melhores jogadores disponíveis no mercado.

É complicado até mesmo para um grande time com vários jogadores talentosos manter esse elenco por muitos anos e conseguir renovar com vários deles a cada ano quando os contratos vão vencendo. O Denver Broncos de 2012 fez um grande investimento para contratar o QB Peyton Manning e cercá-lo de armas ofensivas de alto nível com o objetivo de conquistar o Super Bowl no curto prazo. No ano de 2013 quebraram inúmeros recordes ofensivos e foram um dos maiores ataques da história da NFL, mas o Super Bowl não veio e a franquia foi perdendo bons atletas, como Eric Decker e Julius Thomas. Investimento pesado termina cobrando seu preço e o salary cap não perdoa. O Broncos acabaria levando o Lombardi Trophy para casa na temporada 2015 com a força da sua defesa e não segurou alguns destaques defensivos para o ano seguinte. Por isso é tão difícil ser dominante nessa liga por anos e anos.

DIVISÃO DAS COTAS DE TV

A maior fonte de renda dos times está nas cotas de TV. Diferentemente dos campeonatos europeus ou brasileiro de futebol, na NFL as cotas são divididas igualmente entre todas as franquias. O New England Patriots e o San Francisco 49ers tiveram muito mais jogos transmitidos no horário nobre e geraram muita audiência para as emissoras licenciadas? Não importa. Vão receber exatamente o mesmo que o Cleveland Browns ou o Tampa Bay Buccaneers.

Apenas a título de curiosidade, no ano de 2014 cada time da NFL recebeu 226 milhões de dólares em cotas de TV, de acordo com o balanço do Green Bay Packers, único time que publica esse tipo de coisa porque não tem um dono, mas sim vários torcedores sócios que compram cotas. São mais de 360 mil deles e, por isso, a franquia presta contas. De 2014 a 2022 estima-se que a NFL vai receber quase 40 bilhões em direitos de TV e uso de imagem.

BÔNUS

Separei dois pontos bônus que auxiliam no objetivo de deixar a NFL o mais equilibrada possível. Primeiro, a contratação de coordenadores ofensivos e defensivos vindos dos melhores e mais dominantes times da temporada mais recente para o cargo de técnico principal de alguma equipe que vem mal ao ponto de ter demitido o antigo treinador. Esses coordenadores muitas vezes aprenderam muito com algum Head Coach de nome, estão por dentro das tendências táticas que estão dando mais resultados e podem aplicar esse conhecimento na franquia que o contratou, contribuindo para melhorar o seu nível no quesito capacidade da comissão técnica.

O segundo ponto seria os waivers. Jogadores que são cortados dos times e que podem ser contratados por qualquer outro. Aqui, a ordem de preferência lembra o Draft, pois o time que estiver fazendo a pior campanha tem prioridade caso mais de um demonstre interesse no atleta que foi dispensado.

CONCLUSÃO

Todos esses pontos são suficientes para gerar um maior equilíbrio entre todos os 32 times da NFL?

Antes de concluir, vejamos os últimos 15 vencedores do Super Bowl:

2002 – Buccaneers
2003 – Patriots
2004 – Patriots
2005 – Steelers
2006 – Colts
2007 – Giants
2008 – Steelers
2009 – Saints
2010 – Packers
2011 – Giants
2012 – Ravens
2013 – Seahawks
2014 – Patriots
2015 – Broncos
2016 – Patriots

São 10 times diferentes que conseguiram erguer o Lombardi Trophy em 15 anos. Na NBA, para efeito de comparação, esse número cai para 8, enquanto que na Premier League, campeonato nacional de futebol da Inglaterra, são as mesmas 5 equipes que vencem seguidamente desde 2001-2002, e seriam quatro se não fosse pela heroica campanha do Leicester na temporada 2015-2016.

Não existe fórmula perfeita, mas é notório que a NFL é cercada de ações que ajudam a tornar o seu produto bastante competitivo, imprevisível e, consequentemente, atraente aos olhos do público. Essa busca para que todos os times sejam igualmente fortes, embora algo que jamais será totalmente possível no mundo real, ajuda a liga a caminhar em uma direção muito interessante e digna de exemplo para outras grandes ligas, inclusive americanas. Um outro resultado gerado principalmente pela forma como o Draft funciona é a presença de grandes jogadores – e muitas vezes ídolos – em cada um dos 32 times. Isso é algo de um valor quase que imensurável.

O outro lado disso tudo é que os times vencedores normalmente dependem de um grande QB para tal e essa é uma resposta que nem toda franquia consegue encontrar no Draft em que está mais bem colocada, o que acaba reduzindo um pouco do impacto de ter uma primeira escolha geral em certas oportunidades. De qualquer forma, pode-se dizer que na NFL qualquer time pode vencer seu oponente, independentemente de quem seja, em um domingão de futebol americano. A zebra sempre pode aparecer. E não por ser um campeonato nivelado por baixo, muito longe disso. E mais, qualquer franquia pode aspirar chegar nos playoffs desde que saiba agir bem no Draft e na Free Agency, fazendo uso de uma filosofia vencedora. E ela pode conseguir isso tão rápido quanto de um ano para o outro. Assim, em um piscar de olhos.

Matéria publicada originalmente em 25 de julho de 2016

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