sexta-feira, 17 de maio de 2019

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Joey Bosa e Nick Bosa são defensive ends na NFL. Eles têm como função primária levar adversários ao chão. Para isso, usam seus corpos, ferramenta de trabalho no futebol americano. Se for possível roubar a bola, a jogada se torna ainda melhor.

No final das contas, o que importa é que se o narrador das partidas fosse Januário de Oliveira, ele pudesse dizer tá lá um corpo estendido no chão a cada lance envolvendo os dois irmãos.

Mas muito antes de Joey e Nick estenderem corpos no chão e tentarem efetuar um roubo de maneira legal dentro do esporte mais popular dos Estados Unidos, havia um outro homem que também tinha esses hábitos – só que ilegalmente e sem qualquer envolvimento com esportes. Seu nome era Tony Accardo, bisavô dos dois irmãos, e ele foi um dos mafiosos mais influentes e populares que já viveram em Chicago.

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Dependendo do ponto de vista, pode ser uma inverdade afirmar que Accardo não tinha relações com esportes. Seu apelido quando começou a carreira no mundo do crime, ainda na época da lei seca como guarda-costas do lendário Al Capone, era Joe Batters. A alcunha veio da grande habilidade que ele possuía com um taco de baseball. Como vocês podem imaginar, porém, não era em bolinhas que ele batia com muita eficiência.

Quando Al Capone foi preso por evasão fiscal em 1931, um novo chefe surgiu na máfia de Chicago. Era Frank Nitti, próximo a Accardo. Ele permitiu que o bisavô dos irmãos Bosa passasse a ter seu próprio grupo e controlasse as operações em uma área da cidade. A partir daí, a ascensão foi meteórica. E a máfia é extremamente volátil, com líderes surgindo e caindo na velocidade da luz, como já aprendemos em várias grandes produções do cinema.

Frank Nitti cometeu suicídio em 1943. Ele estava prestes a ser preso e sofria de claustrofobia – um fim nada usual para um mafioso. Paul Ricca assumiu a posição e alçou Accardo à posição de braço direito, o segundo nome no comando da organização criminosa. Não demorou muito para que o próprio Ricca fosse condenado, abrindo espaço para que o homem habilidoso com um taco de baseball, mas que não batia home runs, chegasse à cadeira de poderoso chefão de Chicago.

Ao contrário de seus antecessores, Tony Accardo teve um reinado longo e cheio de sucesso. Paul Ricca dizia que “o que Al Capone teve de cérebro a vida toda, Accardo tinha em um dia antes do café da manhã”. O segredo era manter os negócios por baixo dos panos, pouco vistos, sem uma vida de ostentação. Não chamar a atenção da polícia, nem da mídia. Os bordéis foram substituídos por serviços de contratação de garotas por telefone. O contrabando se expandiu para outros estados. A extorsão e as máquinas de caça-níquel davam um lucro absurdo.

E foi dessa forma que Tony Accardo, o bisavô de duas estrelas da atual NFL, reinou por quinze anos como o principal chefe da máfia de Chicago. E se você pensa que isso acabou com uma morte ou prisão, você está enganado: ele simplesmente decidiu sair do cargo e passar à função de consigliere, que exerceu até o final de sua vida.

É possível imaginar a vida de Accardo como um filme em diversos momentos que são conhecidos da história. Seu sucessor como grande chefe, Sam Giancana, não era tão discreto como o consigliere gostaria. Acabou assassinado em sua casa enquanto cozinhava salsichas com escarola. Anos depois, enquanto de férias na Califórnia, o bisavô dos irmãos Bosa teve sua casa invadida por ladrões. Os meliantes foram encontrados dias depois, sem cabeça, sem face e castrados. O poder esteve em suas mãos durante muitas décadas, não apenas quando era o comandante nominal.

A NFL começou a correr no sangue da família quando Accardo ainda era vivo. Em 1988, Eric Kumerow, tio de Joey e Nick e neto do então consigliere da máfia de Chicago, estava passando pelo processo do Draft quando suas ligações familiares foram reveladas. Os times tinham muito receio que essa proximidade levasse a escândalos com a apostas e até mesmo a manipulação de resultados. Porém, o já idoso mafioso garantiu que jamais faria algo que pudesse prejudicar a carreira de seu neto.

Kumerow, também um defensive end, foi selecionado na primeira rodada daquele draft pelo Miami Dolphins. Sua carreira foi bastante curta: durou apenas três anos. Na época, atuava pela mesma equipe John Bosa, que era cunhado de Kumerow e é pai de Joey e Nick.

Tony Accardo morreu em 1992, vítima de causas naturais. O que impressiona mais em sua história é que ele nunca passou uma noite sequer na prisão. Com tantos anos à frente da máfia de Chicago, evitou tanto o assassinato, como a cadeia. É muito menos famoso que Al Capone e tantos outros, mas justamente por isso, foi muito mais eficiente e brilhante em sua carreira.

Nem Joey, nem Nick Bosa eram nascidos na data da morte do bisavô. Quando o mais velho dos irmãos foi questionado sobre a história, disse “Eu só ouvi coisas incríveis sobre ele. Gostaria de tê-lo conhecido”. 

Hoje, cabe aos irmãos estender corpos adversários no chão e roubar bolas. Eles não correm risco de ir para a cadeia, nem de serem assassinados por isso. E também ganham muito dinheiro. Também não será ruim para eles se seus nomes ganharem muito destaque no meio em que atuam. Parece uma situação muito mais tranquila que a do bisavô.

Mas é inegável que, se eles tiverem para o futebol americano o talento que Tony Accardo tinha para a máfia, o hall da fama os aguarda.

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