quinta-feira, 15 de outubro de 2020

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Uma das corridas mais antigas e famosas do futebol americano, a corrida power continua atraindo muitos coaches em todos os níveis de futebol americano. Seja por sua simplicidade, versatilidade ou fisicalidade, fato é que esse esquema de bloqueio nunca saiu do catálogo. Hoje, veremos como funciona a Power “clássica” e também suas versões mais modernizadas.

Definição e funcionamento
A corrida Power é uma corrida em gap (ou gap scheme), que usa o pull de um OL do backside para atacar o playside. O trabalho do RB é correr nas costas do novo Gap criado pelo pull do OL. Esse jogador de linha é normalmente o guard, mas também pode ser o center.

Um pull é o deslocamento de um jogador de linha por trás dos demais OLs enquanto transita de um lado para o outro (da esquerda para a direita, por exemplo), e transforma esse jogador em movimento em dois novos gaps. Então, se a corrida é para a direita, o LG sai do backside (esquerda) e ataca o playside. Isso causa um problema numérico para a defesa, que precisa lidar com mais gaps do que esperava no lado direito do ataque, além de ter que contar com a fisicalidade do bloqueio de impacto que o pull proporciona.



Existem alguns tipos diferentes de Power. Em algumas, o jogador do pull quer bloquear o DE, em outras ele quer ir para o segundo nível e bloquear o LB. Em qualquer desses casos, o papel do RB é identificar o leverage (vantagem de angulação) do bloqueador sobre o defensor e tomar o lado mais favorável para a corrida. Por isso dizemos que ele deve correr nas costas do OL.

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Essa power é uma mais moderna, chamada de one-back power. Ela é chamada assim pois há apenas um jogador no backfield, e não dois como seria na corrida tradicional.



Já aqui, temos dois exemplos da power com dois jogadores no backfield (não precisa ser necessariamente em I-formation). Veja que com a adição do FB à jogada, além do bloqueio do jogador do pull no DE, temos o FB buscando direto o segundo nível e funcionando como mais um bloqueador no ponto de ataque. O RB deve ver como será a relação entre o “puller” e o FB para escolher o melhor lugar para correr.

 

Variações e modernizações
Nos ataques atuais, apesar da power tradicional ainda ter o seu lugar, a modernização tática da jogada se fez necessária de algumas formas, assim como (quase) tudo no futebol americano. Como “não existe bobo no FA”, é sempre importante lembrar que os outros times também se ajustam, coaches de defesa estão sempre buscando formas de complicar a vida do ataque etc. Dessa forma, a modernização através de ajustes seria uma forma de buscar dominância novamente.

Na NFL você não verá com muita frequência, mas no College e High School temos o power RPO. Lembrando, RPO é a sigla para Run Pass Option e a tradução do termo também é a explicação do que ele é: opção entre corrida e passe. A corrida power funciona bem com RPOs.

Explico: é um fundamento defensivo que os LBs leiam os guards para determinar se é corrida (se for, qual o tipo de corrida) ou se é passe. E quando ele vê um pull, ele reage a esse pull, deixando o lugar que ele deveria estar. Com base nisso, podem ser chamados conceitos rápidos de passe (quick game) que coloquem esse jogador em um conflito ainda maior. Ele deve entrar em blitz? Acompanhar o pull? Marcar o passe? O ataque, com uma chamada muito simples, tem como fazer esse jogador estar errado, não importa a decisão que ele tome.

Esse cara que é a leitura não é bloqueado pela linha, ele é uma responsabilidade do QB. Então, resumindo:

Se o LB entrar em blitz, bola rápida para algum recebedor;
Se o LB ficar na caixa, bola rápida para algum recebedor;
Se o LB sair da caixa, QB entrega para a corrida;
Se o LB ficar parado, QB também entrega para a corrida.

Na NFL, a regra de jogador inelegível além da scrimmage (illegal man downfield) é de apenas uma jarda, ou seja, em jogadas de passe nenhum OL pode avançar uma jarda depois da linha de scrimmage. No College e no High School são 3 jardas, o que permite o uso desse RPO com passes rápidos.

“Coach, mas e se a linha for mais devagar nos bloqueios?”

Isso não existe. A linha bloqueia para corrida, 100%, o tempo todo. Se for passe, a OL não tem como saber tão cedo, o que inviabiliza que esse tipo de RPO se torne popular na NFL, pelo menos por enquanto.

Nessa jogada, temos o LB vindo em blitz por fora, enquanto o Edge vem para dentro. É possível ver que é uma blitz programada, não uma leitura ou ajuste. E você pode ver também como o recebedor que pegou a bola ocupa exatamente o mesmo espaço que o LB da blitz, que era a leitura da jogada.

 

Um outro aspecto da corrida power são as bash power reads. Bash é um tipo de movimentação que significa “Back Away From Action”, ou seja, o RB está correndo para longe dos bloqueios da linha. E quem corre nos bloqueios da linha, então? O QB.

Da mesma forma que o RPO, a power read tem como objetivo remover um jogador de defesa da jogada através da leitura. Ela é útil para quando o seu melhor corredor é o QB, por exemplo, e o DE (pode ser outro defensor também) agora se encontra em um conflito monumental e ntre tentar tacklear o RB ou o QB.

Uma particularidade da power read é que tudo acontece no playside: a opção de corrida do QB, a do RB e a leitura. Geralmente, em jogadas que envolvem o read option tradicional, uma dessas três coisas ficam no backside. Mas não nessa corrida.

https://twitter.com/Coach_Berna/status/1316177871673516033?s=19

 

Como a defesa pode dificultar a jogada
Bom, como eu falei antes, as atualizações e modernizações surgem de novas dificuldades impostas pelas defesas, mas as dificuldades antigas sempre tem um lugar em nossos corações também. Por exemplo, uma solução mais óbvia para atrapalhar essa corrida é lotar a caixa e colocar mais defensores do que o ataque consegue bloquear.

CoachUp Nation | Identifying Defensive Alignments in Football

Uma outra alteração antiga, mas que tem sido modernizada, são os fronts que atuem em stack. A tradução literal de stack é empilhar, e é assim que a defesa fica, com o LB imediatamente atrás do DL. Isso é um dificultados para qualquer corrida em gap scheme, porque dificulta o leverage para a OL. Em fronts “normais”, os DLs por várias vezes usam os ombros dos OLs como referência, e meio que declaram o gap que é de responsabilidade deles e isso os tornam presas fáceis para a OL em termos de leverage. Mas no front stack, os gaps não estão declarados. É algo que parece simples, mas na prática, é complexo de atacar.

O uso de blitz e stunts também é uma solução, especialmente no meio da linha. Forçar o jogador que está fazendo o pull a encontrar o bloqueio cedo, ou usar a blitz para atacar o lugar que esse puller deixou vago.

Para todas essas respostas táticas defensivas, existem várias respostas táticas ofensivas e cada coach tem sua forma de lidar com elas. Entretanto, um aspecto que não pode ser ignorado é a fisicalidade e a execução. Independente do ajuste tático de qualquer lado, quem executa melhor e bate mais duro, ganha.

Times para ficar de olho
Um time que faz uso excelente da power é o Patriots. O uso das variações está muito visível agora também, com a entrada de Cam Newton no time. Pode sempre procurar por power com QB, power read e a tradicional power-I. Sempre foi um conceito muito chamado por Josh McDaniels, mas ele tem conseguido elevar a coisa a outro nível esse ano.

Cam Newton on dangers of running the ball: 'That's just been me'

Outro time muito bom de power é o Raiders. Com guards potentes e o center Rodney Hudson, há sempre uma expectativa de vermos defensores virando panqueca quando Jon Gruden chama essa jogada (especialmente com Josh Jacobs carregando o quibe).

E por último, mas não menos importante, o Browns. Falamos no nosso último podcast da série tática como o HC Kevin Stefanski tem usado seus bons RBs nas corridas power. Sempre foi algo que Kareem Hunt e Nick Chubb executaram muito bem, mas o destaque fica para os nossos gordinhos queridos da linha. O que faz a OL de Cleveland nessas corridas é algo incrível, sem dúvida alguma.

Esse é o tipo clássico de jogada que existe há muito tempo e sobrevive até hoje, em sua forma natural e tradicional, e também em formas modernas e atualizadas. E todas permanecem perfeitamente utilizáveis. Seja para você que gosta de assistir ataques mais “leves” (como o Cardinals) ou para você que gosta de assistir a um jogo corrido violento (como o Patriots). A power tem um lugar em todos os tipos de ataque.


 

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