quinta-feira, 23 de março de 2017

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O futebol americano está em constante transformação e evolução. Essa é uma frase dita por diversos analistas do esporte, parece um tanto quanto simples, contudo não é algo tão claro para boa parte daqueles que acompanham a NFL ano a ano. Muitas vezes mudanças importantes passam despercebidas debaixo do nosso nariz por inicialmente chegarem devagar até se transformarem em uma nova espécie de “normalidade” dentro do jogo. Explico. Uma nova tendência aparece em um time, ajudando esse time a fazer sucesso. Então, outras equipes começam a copiar e os resultados obtidos são satisfatórios de forma que passam a usar mais e mais a cada ano que passa. Sem consultar estatísticas avançadas a cada temporada fica difícil perceber o quanto aquilo é uma tendência ou se já deixou de ser apenas isso e virou padrão. Orange is the new black. Shotgun é o novo under center.

Tudo isso em virtude do aumento do uso de Wide Receivers a cada snap de maneira generalizada, ou seja, todos os 32 times estão seguindo – uns mais, outros menos – esse novo padrão. Mas ter um WR a mais em campo muda muita coisa? É algo relevante ou só um cara a mais para receber um passe? É importante sempre ter a consciência de que tudo o que o ataque faz afeta a defesa. É um jogo de gato e rato, ação e reação. O efeito cascata do aumento considerável na % de snaps em que 3 WRs estão em campo é impressionante.

A verdade é que o constante uso do esquema ofensivo conhecido por “Spread Offense” ao longo dos últimos anos no College iria chegar na NFL de uma forma ou de outra, cedo ou tarde. O No-Huddle tem sido mais utilizado, formação shotgun da mesma forma e, claro, mais wide receivers em campo na maior parte dos snaps. Observem o quadro abaixo:

Esses são números do Football Outsiders. Não consegui os dados de 2015 e 2016, mas existem comentários de gente com acesso a eles afirmando que é uma % que segue em crescimento anual. Ou seja, já passou de 60% dos snaps totais em que pelo menos 3 WRs estão em campo. E o detalhe aqui é que esse número poderia ser maior se levasse em conta as vezes em que os TEs estão alinhados abertos como verdadeiros Wide Receivers (abertos e com pé na frente e outro atrás) ou até mesmo os Running Backs quando se posicionam dessa forma.

A % de vezes que um time tinha 3 WRs em campo em 2014 chegou a 70% em chamadas de passe. Em 2016, a frequência foi ainda maior, pois isso aconteceu em 76% das jogadas aéreas. Em 10 anos (2007 a 2016), essa porcentagem saltou de 55% para 76%. Um aumento de mais de 20% é algo extremamente relevante a ponto de merecer diversas considerações acerca das razões que levaram isso a acontecer e o que foi afetado.

Vamos começar pelos “backs”: Halfback (posicionamento comum do Running Back) e o Fullback. Os Fullbacks são cada vez menos utilizados e apenas quatro times tiveram um jogador da posição em mais de 200 snaps ao longo da última temporada. O Buffalo Bills é um exemplo raro de time que ainda valoriza os FBs. Essa modificação no estilo de jogo ofensivo da NFL é mais óbvia e uma outra muito comentada também envolve os Running Backs que passaram a jogar muito mais como uma posição de duas cabeças, onde existe o RB mais forte e rompedor e o outro mais ágil e que pode receber passes. Aquela coisa do RB “workhorse” que ficava em campo em 80% dos snaps ofensivos da equipe é uma figura cada vez mais ultrapassada para a maioria das franquias.

A “spread offense” vinda do College teve sua influência na NFL, mais WRs entraram em campo com mais frequência e a liga se voltou mais e mais para o passe. Uma dúvida comum é sobre os motivos que levaram o futebol americano profissional a se apoiar com mais força no jogo aéreo para conseguir os melhores resultados. A resposta é simples como costumam ser todas as explicações de como nascem as decisões sobre filosofias de jogo: é mais fácil ganhar mais jardas com regularidade lançando a bola do que correndo. Invertendo a lógica, é mais fácil derrubar um Running Back que desviar um passe, em tese. Especialmente porque na NFL não é difícil achar duelos favoráveis de um WR no slot ou um TE contra um defensor que sofre na cobertura. Quando os times perceberam isso, exploraram e continuam explorando.

Ter 3 WRs em campo cada vez mais interfere também na filosofia dos times no Draft. Não vou falar na busca por um bom trio de Wide Receivers porque é muito óbvio, mas isso afetou e influenciou uma procura maior por um excelente Nickel CB, que é quem vai marcar o WR no slot (posicionado entre o WR que está na ponta do campo e a linha ofensiva). Nunca ter três cornerbacks com nível de titular foi tão fundamental. Outra posição que também sofreu um impacto direto foi a de linebacker, pois ser capaz de ler jogadas e ser eficiente no tackle não garante o sucesso na posição se for um fracasso cobrindo o passe. Ou ele cairá no board dos times ou, sendo muito talentoso nos outros aspectos, será utilizado em descidas específicas com um uso de certa forma limitado. Alguns times estão até mesmo procurando jogadores híbridos com corpo e talento de Safety/Linebacker para auxiliar na cobertura dos TEs que se alinham como WRs.

Indo mais além, isso acaba modificando até mesmo consagrados esquemas defensivos como o 4-3 e o 3-4. Se a gente usa esses números para falar de linha defensiva e linebackers, ao acrescentar o número de jogadores na secundária temos um 4-3-4 e um 3-4-4. Com o aumento do uso de 3 WRs, eles têm se transformado com frequência em um esquema 3-3-5 (três jogadores na linha defensiva, três linebackers e 5 defensores na secundária), 2-4-5 (3-4 substituindo um DL por um nome na secundária) ou 4-2-5 (4-3 que troca um LB por um nickel CB, por exemplo).

Para finalizar, creio que já é preciso rever determinados termos que são usados para diminuir o valor de um quarterback universitário. É o tal do “jogador de sistema”. Não que isso nunca tenha existido, mas hoje em dia é algo cada vez mais irrelevante para determinar suas chances de sucesso ou fracasso na NFL. Isso porque quando se usa tal termo, normalmente o analista está se referindo a fato de que o QB não atua “under center”, mas apenas – ou por volta de 90% dos snaps – na formação “shotgun”, mais recuado em relação ao Center. Na NFL, os times usam a formação “shotgun” em mais de 60% dos snaps (eram 41% dos snaps em 2011), enquanto que a “under center” caiu de 69,4% em 2006 para menos de 20% em 2016. É cada vez menos decisivo o quarterback ser familiarizado com a “pro style offense”. Se ele tem um bom braço, talento, toma boas decisões, tem boa presença no pocket, sabe fazer progressões de leituras, certamente irá ter boas chances de ter uma boa carreira independente de atuar só no “shotgun” ou não. Marcus Mariota foi taxado de jogador de sistema e está indo bem, obrigado.

Ter mais um jogador em campo por muito mais snaps que alguns poucos anos atrás – um WR3 nesse caso – não é apenas uma mudança simples que, no máximo, irá designar mais um defensor na cobertura. O efeito cascata atinge posições de ataque, defesa, sistema de jogo e até mesmo a filosofia de Draft dos General Managers. De maneira alguma tal transformação pode acontecer sem ser devidamente analisada porque caso assim seja, a evolução do jogo passará na nossa frente sem que percebamos o momento em que tudo está acontecendo.

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