segunda-feira, 15 de abril de 2019

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Muitas vezes na NFL, os GMs ou qualquer pessoa que tome a última decisão administrativa da preparação e montagem de um elenco precisa pensar grande, ou simplesmente pensar em algo que a maioria não teve a capacidade. A habilidade de ser arrojado e apostar tudo parece pré-requisito para uma equipe que planeja mudar os ventos da sorte de temporadas ruins tidas em anos anteriores, do contrário a mediocridade e falta de resultados positivos dominarão as manchetes locais nos anos posteriores também. Sé é justo ou não, é matéria para outra hora, mas hoje relembraremos o dia em que uma equipe simplesmente trocou todas as escolhas que detinham numa classe de Draft e mais duas da próxima temporada somente pelo direito de recrutar um único jogador. Com a proximidade do Draft e também do aniversário desta infame troca (14 de Abril de 1999), vamos relembrar um pouco desta história.

Contexto

O New Orleans Saints é historicamente um time que sempre flertou com a mediocridade. A dificuldade de se estabelecer como uma franquia regular e com ótimo desempenho era enorme nas décadas passadas, o que pode parecer estranho se analisarmos o desempenho da equipe de 2005 para cá, mas apenas a inserção do QB Drew Brees e do HC Sean Payton na franquia que capitalizaram um período de grandes resultados e quase de forma unânime apontado como o melhor da história da franquia.

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Na década de 1990, vimos isto em sua essência. A equipe era comandada pelo excêntrico HC Mike Ditka já em seus últimos passos como técnico principal da NFL, que vinha de duas temporadas consecutivas com o modesto recorde de 6-10. Com a demissão batendo em sua porta e a 12ª escolha geral do Draft de 1999, Ditka convenceu a direção da equipe a fazer o inimaginável.

Ricky Williams era a face do College Football naquela temporada. Atuando por uma grande potência universitária (Texas Longhorns), Williams simplesmente estava em um nível diferente dos outros enquanto atuou lá no Texas. Ao abrir mão da última temporada de elegibilidade e se declarar elegível para o Draft daquela temporada, muitos já o colocavam como um dos três primeiros escolhidos daquela classe, que foi aberto com escolhas de Browns, Eagles e Bengals, respectivamente.

Poucos dias antes daquele Draft, o Saints enviou um total de oito escolhas para o Washington Redskins (TODAS as seis daquele ano e mais duas da temporada seguinte) para subir da 12ª para a 5ª posição daquele Draft. Confira a relação completa das escolhas:

Ano Rodada
1999 1ª (quinta escolha geral)
1999
1999
1999
1999
1999
2000 1ª (#2 escolha geral)
2000

 

O Redskins por sua vez, munido de um batalhão de escolhas tinha na figura de Dan Snyder seu novo proprietário. Snyder era tido por muitos como inexperiente para a função e havia dúvidas se ele conseguiria transformar tantas escolhas de Draft em talento dentro do campo. Somado isto ao fato dele naturalmente ter uma tendência a arriscar tudo para conseguir um jogador que tenha lhe chamado a atenção (o que foi visto nos últimos anos também), temos que o Redskins não ficara com todas as escolhas originais desta troca. Snyder enviou as escolhas de ª, 3ª, 4ª e 5ª rodada originais desta troca juntamente com a escolha original de 3ª rodada da franquia para o Chicago Bears para subir da 12ª para a 7ª escolha geral e recrutar o CB Champ Bailey, de Georgia, Bailey teve uma grande carreira na NFL e é até hoje o único desta classe a ser eleito para o Hall da Fama (eleito em 2019) mas como deve se lembrar, foi pelo Denver Broncos que ele teve seus melhores anos como profissional.

O Redskins também acabaria trocando as escolhas de 6ª e 7ª rodadas daquele Draft com o próprio Broncos afim de recrutar outro atleta na parte posterior do Draft. As únicas escolhas originais do acordo que foram de fato usadas pela franquia foram as da temporada seguinte – 1ª e 3ª, usadas no LB LaVar Arrington e no CB Lloyd Harrison, respectivamente.

Após todas as idas e vindas destes movimentos, confira no quadro o contexto final desta troca monumental.

Saints

Redskins Bears Broncos
RB Ricky Williams CB Champ Bailey QB Cade McNown TE Desmond Clark
LB LaVar Arrington WR D’Wayne Bates TE Billy Miller
LB Derek Smith LB Warrick Holdman
CB Lloyd Harrison LB Khari Samuel
TE Dustin Lyman

 

Ramificações

Não tem nenhum problema caso você não conheça nenhum outro atleta à excluir Williams, Bailey e talvez LaVar Arrington, que teve uma carreira produtiva na NFL após ser o segundo jogador recrutado no Draft de 2000. Todos os outros atletas permaneceram na liga por pouco tempo e pouco fizeram para marcar seu nome nela. McNown por sua vez foi um legítimo fracasso na posição de QB pelo Bears e posteriormente pelo Miami Dolphins, onde passou sem deixar nenhuma saudade também.

No quesito sucesso das equipes, a grande troca no final do século passado também pouco acrescentou ao recorde das equipes, pois até 2005 – ano que Tom Benson assumiu o cargo máximo do New Orleans Saints e deu início ao período dourado da história da fraquia, o panorama de vitórias das equipes envolvidas foi o seguinte:

Denver Broncos: 61 vitórias e 35 derrotas
New Orleans Saints: 45 vitórias e 51 derrotas
Chicago Bears: 45 vitórias e 51 derrotas
Washington Redskins: 44 vitórias e 52 derrotas

Para o New Orleans Saints, por sua vez, não foi tão desastroso como muitos pensam (ou mesmo se lembram). Mesmo que ele tenha ficado apenas três anos atuando pelo Saints, foi um período especial para a equipe. Lesões limitaram sua temporada de calouro a pouquíssimos jogos é verdade (o que levou ao modesto recorde de 3-13 em 1999), mas os dois últimos anos foram especiais: ele compilou mais de 1000 jardas terrestres em apenas dez jogos e conduziu a equipe à primeira vitória em playoff em sua história naquele ano, então compilou 1756 jardas de scrimmage (terrestres e aéreas somadas) na temporada de 2001. O Saints, por sua vez, buscou capitalizar este ótimo desempenho ao subitamente trocá-lo para o Miami Dophins por duas escolhas de 1ª rodada de Draft, já sem Mike Ditka (demitido ao final da temporada de 1999) buscando de alguma forma salvar todo o fiasco que foi abrir mão de uma classe de Draft por um único atleta.

Ricky Williams construiu uma duradoura carreira de doze temporadas na NFL por Saints, Dolphins e Baltimore Ravens tendo seu melhor ano em 2002, quando liderou a NFL com 1852 jardas terrestres e 16 TDs pelo chão, uma temporada monstruosa pelo Dolphins. Ele faz parte do seleto grupo de RBs que compilou mais de 10000 jardas terrestres ao longo destas doze temporadas e do ainda mais seleto grupo de jogadores que já correram para mais de 1800 jardas em uma única temporada. Contudo, se aposentou silenciosamente após a temporada de 2011.

Ele declarou alguns anos atrás que sofria de desordem social enquanto estava em New Orleans. A festiva cidade pareceu afetar o estado mental de Williams, que se apresentava para entrevistas utilizando capacete e visor, cuja personalidade retraída por tais distúrbios também o afastou de alguns companheiros, fato tido como motivo para trabalharem na troca que o enviou para Miami anos depois.

Ele é estatisticamente um dos RBs mais prolíficos da história do Saints, mas isto acaba falando mais sobre a franquia do que o atleta, afinal foram pouco mais de duas temporadas completas de partidas atuando pelo time da Luisiana. Contudo, ficará para sempre marcado pela lendária entrevista em que Ditka se apresentara aos jornalistas usando uma peruca com os famosos “dreads” do jogador, cujas características e desempenho apresentados ao longo da carreira universitária simplesmente encantaram o HC, que fez o inimaginável e cravou para sempre o nome na história, ao ser envolvido em uma das trocas mais infames da história da toda a NFL, que gerou ramificações até a metade da década seguinte, quando o Saints finalmente parecia livre dos resultados desta negociação, concorda?


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