terça-feira, 17 de março de 2015

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Aos 24 anos de idade, Chris Borland, jovem americano nascido em Kettering, no estado de Ohio, era considerado um dos principais talentos de uma das maiores franquias da NFL. Em 2014, na sua primeira temporada na liga, o defensor foi responsável por 108 tackles, cinco passes defendidos, 1 sack e duas interceptações, brilhando no lugar de um dos grandes ídolos recentes do San Francisco 49ers, o Linebacker Patrick Willis, que havia se contundido na sexta semana da temporada regular .

A seqüência do ano não poderia ter sido melhor para o novato: Recorde de tackles por um jogador em uma partida, fumble recuperado na prorrogação que abriu caminho para a vitória, prêmio de melhor jogador defensivo da semana ao ser o primeiro novato da história do 49ers a anotar duas interceptações em uma partida e rookie defensivo do mês de novembro. Tudo isso atuando como titular em apenas oito jogos. O futuro parecia brilhante para Borland dentro dos gramados e sua segunda temporada era aguardada com ansiedade pelos torcedores em São Francisco, que haviam perdido o líder Patrick Willis definitivamente.

Na noite de 16 de março de 2015, porém, o jovem Linebacker chocou os fãs da bola oval, anunciando a sua aposentadoria com apenas 24 anos de idade.  A notícia pegou o mundo do futebol americano de surpresa e imediatamente gerou o questionamento: O que teria feito um dos jogadores mais promissores da NFL desistir de sua carreira tão cedo?

Borland, que sempre teve o esporte como um dos focos em sua vida e dedicou a infância e adolescência a ele, não parecia confiante de que uma trajetória longa na NFL seria um bom caminho. “Eu me preocupo com fato de que se você esperar até ter alguns sintomas, seja tarde demais. Há muitas incertezas e eu não posso garantir que isso não irá acontecer. Eu apenas quero viver uma vida longa e saudável, evitando morrer mais jovem do que eu deveria caso não tivesse vivido desta forma”, disse o atleta ao programa Outside The Lines, da ESPN Americana, nesta terça-feira.

As incertezas das quais o ex-jogador se referia tem a ver com os casos de traumas cerebrais e concussões, que assombram a NFL há muitos anos e fizeram com que a liga desse uma atenção especial a saúde e a segurança dos atletas. O Avanço na pesquisa, regulamentação, programas e mudança de regras ligadas ao assunto, resultaram em uma diminuição de 20% nos casos de concussão registrados durante a última temporada regular, mas há muito a ser feito para que o problema seja extinto.

A corajosa decisão de Borland ao se aposentar após um ano como profissional, talvez ajude não só no debate mais aprofundado sobre o assunto, mas abra os olhos da NFL para outra grave situação. Durante a temporada de 2014, quando se envolviam em algum lance que pudesse ter gerado uma concussão, os atletas eram obrigados a passar pelo protocolo indicado pela liga ainda em campo. Em certos casos, porém, os jogadores eram liberados para voltar ao jogo ou simplesmente decidiam não reportar os sintomas aos médicos na hora da partida, escondendo um possível trauma cerebral mais sério. O ex-Quarterback Kevin Kolb, que atuou na NFL durante seis anos e teve quatro concussões em sua carreira, revelou que nem sempre é possível perceber os sintomas durante o jogo, mas que assim que a adrenalina diminui, os efeitos começam a aparecer. “Com uma concussão, às vezes, você não sabe o que é um sintoma e o que não é. Alguns deles, porém, são impossíveis de ignorar. É como se alguém estivesse disparando tiros ao lado da minha orelha em todos os segundos do dia”, Disse Kolb em uma entrevista no ano passado.

A oportunidade de jogar em uma das maiores ligas esportivas do mundo e de fazer parte do elenco de uma franquia da NFL, pode representar uma pressão a mais para alguns atletas, que não querem perder nenhum snap enquanto vestem a camisa de suas equipes. Durante a pré-temporada de 2014, Borland foi um dos rookies que conseguiram garantir uma vaga entre os 53 jogadores do San Francisco 49ers, mas o esforço do defensor escondia alguns sintomas de concussão que o próprio atleta conseguia perceber e acabou não revelando.  Foi neste momento que algumas preocupações começaram a passar pela mente de Borland. “Eu me questionei: O que eu estou fazendo? É assim que eu vou viver a minha vida adulta, batendo minha cabeça, mesmo aprendendo e tendo conhecimento dos perigos envolvidos?”, revelou.  Logo após a quarta partida do 49ers na preseason, Borland escreveu uma carta aos pais, deixando claro que já se preocupava com os possíveis efeitos em longo prazo das lesões na cabeça e que achava que a sua carreira na NFL seria breve.  Mesmo atuando durante o ano de 2014, ele continuou aprendendo e pesquisando sobre o assunto e decidiu visitar ex-jogadores e especialistas ao fim da temporada para saber mais sobre o tema e decidir seu futuro. A escolha, que deve gerar uma grande polêmica durante os próximos dias nos bastidores da NFL, acabou se tornando simples para o defensor.

A situação e os receios do atleta são reflexos de uma preocupação constante da liga. Em toda a história, mais de 70 ex-jogadores foram diagnosticados com problemas neurológicos após a morte e inúmeros estudos mostraram uma conexão entre as repetitivas lesões na cabeça e problemas cerebrais ligados ao esporte, com os sintomas da depressão e de perda de memória. Os casos mais famosos são os dos defensores Dave Duerson e Ray Easterling, que atuaram por sete e dez anos na NFL, respectivamente. Ambos cometeram suicídio e apresentaram problemas oriundos das concussões depois de falecerem. A causa da morte de Duerson e Easterling é associada também aos traumas cerebrais que os dois atletas foram expostos durante suas carreiras e que acabaram os afetando em uma idade mais avançada.

O sonho de atuar na NFL já trouxe muita fama, dinheiro e status para inúmeras estrelas do jogo, mas os riscos existem e é preciso que haja um debate entre todos os envolvidos para que a situação não se repita e haja um avanço. Borland já está na história da Universidade de Wisconsin graças aos seus números e prêmios conquistados durante os quatros anos dedicados ao futebol da faculdade. Como um Badger, ele chamou a atenção do San Francisco 49ers no draft de 2014 e não foi nada menos do que eficiente e explosivo em seu primeiro e último ano na NFL. Após notificar a franquia de sua decisão na última sexta-feira, ele deixa o futebol americano para viver de forma mais segura. “Eu simplesmente só quero fazer o que é melhor para a minha a saúde. Do que eu pesquisei e pude viver como atleta, não acho que vale o risco” completou.

Além de Borland, outros dois atletas com menos de 30 anos decidiram largar o jogo em 2015. Jake Locker, ex-Quarterback do Tennessee Titans, se retirou da liga aos 26 anos, alegando já não ter a mesma vontade de competir e influenciado pelas inúmeras lesões em sua carreira. Já Jason Worilds, Linebacker do Pittsburgh Steelers, justificou a aposentadoria aos 27 como uma escolha pessoal.

A decisão do agora ex-jogador do Niners, porém, tem um motivo mais significativo.  Ela pode representar um passo importante para que a NFL consiga resolver seus problemas de uma forma mais objetiva e passe a observar com atenção os atletas mais jovens. Em uma abordagem mais pessoal, ela representa também uma escolha corajosa feita por um atleta que para se tornar profissional, teve que arriscar sua segurança e ir contra seus princípios. Satisfeito com a sua opção, Borland pode agora viver a vida da forma como sempre quis, mesmo tendo decepcionado a equipe que decidiu investir em seu jogo e a torcida que acreditava em seu potencial. Ele espera que este seja um peso com o qual ele consiga conviver, diferente dos problemas físicos e cerebrais causados por uma carreira longa e intensa no futebol americano.

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