sábado, 25 de julho de 2015

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Há alguns dias atrás, o mundo foi surpreendido pelo ocorrido na cidade de Charleston (Carolina do Sul), onde um jovem realizou um massacre motivado por ódio racial. É incrível, e ao mesmo tempo decepcionante, que certos acontecimentos como esse evidenciem quão profundamente ainda está enraizado o racismo na sociedade. E se em pleno século XXI, mesmo com a criminalização de atos racistas, coisas assim ainda acontecem, imaginem como era para as pessoas negras viver nos Estados Unidos nas décadas de 50 e 60, onde a segregação era evidente a cada esquina e chegava a dividir os mais diversos lugares públicos. Ernie Davis, o personagem do texto de hoje, viveu justamente nesse tempo e mostrou a importância do esporte como forma de superação dos mais variados problemas, seja ele social ou pessoal:

O Início

Ernerst R. Davis nasceu no dia 14 de Dezembro de 1939, em New Salem, Pennsylvania. Com pouco mais de um ano de idade, o pai de Ernie faleceu em um acidente e o garoto foi criado pelos seus avós Willie e Elizabeth Davis, já que sua mãe não poderia criá-lo sozinha. Willie e Elizabeth já tinham seus 12 filhos, mas acolheram seu mais novo neto em seu lar. Sua infância não foi fácil, além de viver em um mundo que separava brancos dos negros, a situação monetária de seu agregado familiar não era das melhores e ele sofreu com um problema de gagueira. Com os cuidados adequados, Ernie superou a dificuldade na fala e mais tarde viria a afirmar que os primeiros difíceis anos de sua vida o ajudaram a aprender virtudes como disciplina e valorização da família.

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Quando tinha 12 anos, Ernie foi morar com sua mãe e o seu padrasto em Elmira, New York. Para ele, que era quieto e tímido, a transição foi difícil, mas suas já aparentes habilidades atléticas o ajudaram a ganhar o respeito das crianças do centro comunitário. Mesmo sendo novo, outras pessoas já elogiavam sua sinceridade, entusiasmo e companheirismo. Ernie jogou como Tackle em uma pequena escola de futebol americano local, e mesmo sendo grande para sua idade, nunca foi violento e frequentemente apenas segurava as outras crianças menores e esperava o juiz parar a jogada ao invés de jogá-las no chão.

No ensino médio, o garoto frequentou a academia livre de Elmira e logo entrou no time de futebol americano, mas quebrou o pulso em seu primeiro jogo e ficou fora do resto da temporada. Entretanto, isso não o impediu de entrar em times de outras modalidades como basquete, onde marcou 22 pontos na estreia, e baseball, que atraiu atenções de alguns olheiros mesmo sendo seu esporte mais “fraco”.

Em seu segundo ano, jogando como Defensive End, o time terminou a temporada invicto e ganhou o título de conferência. No ano seguinte, seu técnico o moveu para a posição de Running Back e o time venceu o campeonato novamente. No quarto ano de Ernie, a equipe sofreu algumas perdas por um surto de gripe na região, mas ele foi nomeado para o time da conferência pelo terceiro ano consecutivo. Em 13 jogos como RB, ele carregou a bola 179 vezes para 1.314 jardas, com média de 7.4 jardas por corrida e o recorde da escola em pontos com 138 (21 touchdowns e 12 XPs).

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O jovem atleta ainda continuou tendo sucesso no basquete durante esse período; em seus dois últimos anos, liderou o time a uma sequência de 52 vitórias seguidas com média de 18.4 pontos por jogo. Conseguindo pontuar, pegar rebotes e pular alto, o Ernie Davis jogador de basquete era descrito como um atleta que só queria jogar ao seu estilo, sem se preocupar com a torcida ou em humilhar o oponente. Uma carreira profissional no basquete poderia ser promissora, mas sua paixão pelo futebol americano falou mais alto.

Carreira Universitária

O atleta recebeu mais de 30 convites de universidades, dentre elas as poderosas Michigan e Notre Dame. Porém, entre os times interessados se encontrava Syracuse do Head Coach Ben Schwartzwalder. Sabendo da idolatria de Ernie pelo RB Jim Brown (lenda do Cleveland Browns), estrela máxima e um dos primeiros afro-americanos da equipe, Schwartzwalder pediu a Brown que convencesse Davis a aceitar ser recrutado pelo time. Mesmo não tendo uma das melhores relações com o técnico, o RB aceitou ajudar no recrutamento do jovem jogador. Juntando a influência de Jim Brown, a amizade de seu técnico colegial com Schwartzwalder e a proximidade de casa, Ernie escolheu Syracuse, onde recebeu a camisa 44, o mesmo número de seu ídolo.

ernie-davis-ligapdos-32-syracuseEm sua primeira temporada, o time terminou invicto em 1958. Com 1,88 de altura e 96 kg, Ernie era rápido, forte e inteligente; um talentoso RB que também conseguia retornar chutes, bloquear, receber passes e até chutar os extra-points da equipe. Em uma época onde era comum os jogadores exerceram funções tanto no ataque como na defesa, Ernie também era um efetivo Defensive Back. Porém, não foram apenas as habilidades atléticas que o fizeram ganhar o respeito dos companheiros, sua personalidade também era frequentemente destacada pelo seu treinador: “Ernie é como um filhote amigável e gentil. Ele tem uma bondade e entusiasmo espontâneo. Sim, ele poderia derrubar você, mas então ele voltaria e o ajudaria a levantar. Nunca tivemos um garoto tão gentil e educado.”

Em 1959, agora como titular, Ernie liderou a equipe a um recorde de 11 vitórias e nenhuma derrota, com 98 tentativas de corrida para 686 jardas e 10 touchdowns. Sua temporada lhe  rendeu o apelido de “O Expresso de Elmira” e a primeira das três seleções para o All-American Team na carreira. No dia 1 de Janeiro de 1960, Ernie e seus companheiros viajariam para Dallas, uma das regiões mais segregadas da época, onde #1 Syracuse enfrentaria #2 Texas no Cotton Bowl pelo titulo nacional. Enquanto treinava chutes antes do jogo, o RB machucou o músculo posterior da coxa e passou o jogo todo lesionado, mas isso não foi suficiente para pará-lo. Logo na terceira jogada da partida, Ernie recebeu um passe lateral do QB Gerhard Schwedes e correu para um touchdown de 87 jardas, estabelecendo o recorde do Cotton Bowl. Mais tarde, o jogador anotou mais pontos após uma recepção de 4 jardas na end zone e interceptou um passe quando estava posicionado como Defensive Back.

Os nervos estavam à flor da pele durante toda a partida e, pouco antes do intervalo, uma briga começou logo após os jogadores de Syracuse acusarem os adversários por direcionarem insultos racistas a um de seus jogadores negros. Mesmo com Texas se aproximando no placar durante o segundo tempo, Syracuse venceu o jogo por 23 a 14 e Ernie Davis foi eleito o MVP do Cotton Bowl.

No tradicional banquete dos vencedores, Ernie sentiu novamente os efeitos da discriminação daquela época. Enquanto festejava com os companheiros, ele foi informado que quando as portas do ambiente fossem abertas para o público, ele e seus dois colegas negros teriam que deixar o lugar. Depois de receber seu prêmio e terminar as refeições, os três se levantaram, mas quando o time percebeu que eles iriam embora, ameaçaram boicotar a festa para mostrar solidariedade para com os amigos, no entanto foram contidos pelos oficiais de Syracuse, que explicaram que aquilo só causaria um problema maior.

Em seu terceiro ano universitário, Ernie correu para 877 jardas e foi nomeado novamente para o All-American Team, mas sua equipe terminou a temporada com 7 vitórias e 2 derrotas e não se classificou para nenhum Bowl de pós-temporada.

Como sênior (quarto ano), o RB foi novamente nomeado All-American e Syracuse terminou a temporada com recorde de 8 vitórias e 3 derrotas, com destaque para o confronto contra o Miami Hurricanes, no Liberty Bowl. Naquele dia, Ernie brilhou e liderou o time para uma vitória por 15 a 14, com 140 jardas terrestres e um touchdown, sendo ainda escolhido MVP da partida. Ao fim da temporada, Ernie se tornou o primeiro afro-Americano a vencer o Heisman Trophy, coisa que nem o seu ídolo Jim Brown conseguiu. Com isso, Ernie escreveu de vez o seu nome na história do futebol americano e se eternizou como símbolo da luta contra a discriminação racial.

Ao fim da carreira universitária, Ernie tinha quebrado vários recordes de Jim Brown; 2386 jardas terrestres, 6,6 jardas por tentativa, 35 touchdowns e 220 pontos. As contribuições do atleta para Syracuse não terminaram por aí. Similarmente ao que aconteceu entre ele e Jim Brown, Ernie conseguiu convencer Floyd Little, um RB promissor e que o tinha como ídolo, a ir para Syracuse. Mais tarde, Little daria continuidade ao legado da camisa 44 e se juntaria a Ernie Davis e Jim Brown no Hall da Fama do College Football.

Carreira na NFL

Após se formar como bacharel em Economia no ano de 1962, Ernie se preparou para entrar na NFL. O Buffalo Bills, que na época era da AFL (concorrente da NFL), ofereceu um contrato de 3 anos, mas ele recusou. O time dono da primeira escolha geral, o Washington Redskins, tinha como dono George Preston Marshall (abertamente a favor da segregação). Marshall manteve o time só com brancos por muito tempo, mesmo após outros times terem integrados negros aos seus plantéis, mas depois de perder o direito de jogar no D.C. Stadium (atual Robert F. Kennedy Memorial Stadium), o dono da franquia cedeu e deixou que o Head Coach Billy McPeak escolhesse quem selecionar. McPeak queria Ernie Davis, porém o mesmo se recusou a jogar pelo Redskins e, em uma troca arquitetada pelo lendário Paul Brown, ele foi para Cleveland, que tinha como RB titular o ídolo e amigo de Ernie, Jim Brown. A possibilidade de ter a dupla no mesmo time encheu a cidade de otimismo e, rapidamente, o Browns se tornou um dos favoritos ao título. Mas, infelizmente, a vida tinha outros planos para Ernie.

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Em 29 de junho de 1962, durante um treino, Ernie parecia cansado e lento; ele colocou a culpa no forte calor que fazia no dia, mas ao fim da atividade reclamou de fadiga e mencionou a um amigo que suas gengivas estavam sangrando. Em julho, Ernie viajou para Chicago para começar os treinos para o “College All-Star Game” contra o Chicago Bears e alguns começaram a notar que ele parecia um pouco confuso dentro de campo. Em 28 de julho, o RB sentiu um inchaço em seu pescoço e foi encaminhado ao hospital. Os médicos suspeitavam que ele estivesse com caxumba, mas os resultados mostraram o que seria o maior adversário da vida de Ernie Davis: Ele estava com leucemia. Os médicos não contaram o resultado para Ernie, mas preferiram chamar Art Modell, dono do Browns na época, e deram a notícia. Modell levou Ernie para o Marymount Hospital, em Cleveland, onde o falou que tinha algum tipo de problema no sangue. Novos exames  foram feitos e o resultado era claro: Ernie tinha menos de um ano de vida.

Após várias sessões de quimioterapia e dois meses indo e voltando do hospital, a leucemia regrediu e em 4 de outubro de 1962, Modell e os doutores revelaram a Ernie a situação. Apesar do médico do hospital dizer que ele poderia jogar enquanto a doença estivesse em remissão, Paul Brown se recusou a permitir que o RB entrasse em campo, seguindo o conselho do próprio médico do time. Começou ali um conflito entre Modell e Brown, mas Ernie nunca reclamou; ele acreditava que venceria a doença e não admitia que os outros sentissem pena dele. Enquanto a doença estava em remissão, o atleta falou que se sentia bem, chegando até mesmo a participar de exibições de basquete com alguns jogadores do Browns.

Em março de 1963, Ernie escreveu um artigo para o “Saturday Evening Post”, no qual disse: “Algumas pessoas dizem que eu não tenho sorte, eu não acredito nisso. E eu não quero soar como corajoso ou incomum. Algumas vezes eu fico para baixo, e outras tenho pena de mim mesmo. Ninguém consegue ser apenas uma coisa todo o tempo, mas quando eu olho para trás, não consigo me chamar de azarado. Completei 23 anos em dezembro, nesses anos eu tive mais do que muitas pessoas conseguem em toda uma vida”. Pouco tempo depois do artigo ser publicado, a leucemia voltou e Ernie passou então a fazer novamente visitas regulares ao hospital. O Browns pagou o seu salário e contas médicas durante todo esse tempo. “Ele costumava vir ao meu escritório e pedia desculpas pelos gastos. Ele sabia que estava perdendo a batalha, mas nunca perdeu sua postura. Conhecê-lo me ensinou muito sobre a vida. Você não poderia conhecê-lo sem sofrer por ele, o que era exatamente o que ele não queria que você fizesse”, contou Modell.

Em 16 de maio de 1963, uma quinta-feira, Ernie mandou um recado à Paul Brown dizendo: “Estou indo para o hospital por alguns dias, não diga à ninguém. Vejo você por aí”. Logo depois, ele também foi ao escritório de Modell para contar. Naquela época, o dono da franquia se perguntou o porquê de Ernie não ter simplesmente ligado, só depois ele compreendeu que aquilo tinha sido um adeus. O atleta entrou no hospital pela última vez naquele dia; na sexta- feira à noite ele entrou em coma e às duas da manhã do dia 18 de maio de 1963, ele tossiu uma vez e faleceu.

ernie-davis-liga-dos-32-2Milhares de pessoas lamentaram sua morte; quase 30 jogadores do Browns viajaram para Elmira, onde aconteceu o funeral. O presidente dos EUA na época, John F. Kennedy, que o acompanhava durante o College e o tinha conhecido na entrega do Heisman Trophy, mandou um telegrama dizendo: “Raramente um atleta tem sido mais merecedor de tal homenagem. Os seus altos padrões de desempenho, dentro e fora de campo, refletem as melhores qualidades de competição, desportivismo e cidadania. A nação lhe premiou com os mais altos prêmios por suas conquistas esportivas. Nesta noite, é um privilegio falar que você é um notável americano e um exemplo para a juventude. Eu vos saúdo.”

Mais de 10.000 pessoas visitaram o seu caixão em um dia. O Browns aposentou o número 45 mesmo que ele nunca tenha disputado uma partida pelo time. Em 1979, Ernie foi introduzido ao Hall da Fama do College Football e, em 2005, o número 44 de Syracuse que ele, seu antecessor Jim Brown e seu sucessor Floyd Little vestiram foi aposentado em uma cerimônia dentro de campo. “A forma que ele se portava, a forma que ele não se afogava nas próprias lágrimas, a forma em que ele não se prendia à sua enfermidade, a maneira como ele agia como um humano mesmo sob todas essas condições requeria uma enorme coragem.”, disse Jim Brown.

Apesar de perder a batalha contra a leucemia, durante toda sua vida Ernie Davis não só conseguiu quebrar os tackles dos adversários, como também do racismo, preconceito e discriminação. Ele foi mais uma prova que apenas os limites pessoais são o que separam cada um do próprio sucesso. O “Expresso de Elmira” não terminou sua história como um perdedor, mas como um virtuoso ser humano que encontrou no esporte uma forma de superação e demonstração que o valor de cada um vai muito mais além da cor da pele.

Quem tiver mais interesse pela história de vida dessa grande pessoa pode conferir o filme “No Limite, a história de Ernie Davis”, lançado em 2008 e que está na nossa lista dos 10 filmes sobre futebol americano que você precisa ver.

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