quinta-feira, 31 de março de 2016

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dentro do huddle

Nessa última semana, a MLB realizou um histórico jogo em Havana, capital de Cuba, que serviu como o final da viagem de Barack Obama à ilha. A primeira viagem de um presidente americano à ilha caribenha desde 1928 foi o desenlace de meses de reaproximação entre os Estados Unidos e o país de orientação comunista no que é um dos últimos enclaves geopolíticos que ainda restam da Guerra Fria. Na coluna dessa quinzena vou sair um pouco dos temas da atualidade da NFL para cair na história e tratar de uma experiência (sem o mesmo peso geopolítico) que aconteceu em 1989 envolvendo a então decadente União Soviética e o futebol americano. Venham comigo!

Logo do Glasnost BowlLogo do Glasnost Bowl

A chegada do futebol americano na União Soviética vem na esteira das reformas promovidas por Mikhail Gorbachev, que abriu o país para negociações comerciais com o Ocidente. A Raycom Sports, empresa americana especializada na organização de eventos esportivos, em uma ideia que mais parecia uma viagem psicotrópica, decidiu que iria levar um jogo da NCAA para Moscou. Esse jogo seria conhecido como Glasnost Bowl (em alusão a uma das reformas que Gorbachev realizou na União Soviética) e contaria com USC e Illinois como oponentes (você pode ver um interessante encarte do jogo em PDF aqui). As negociações duraram grande parte de 1988, a partida seria realizada no antigo Estádio Dínamo de Moscou na primeira semana da temporada da NCAA de 1989 e com transmissão pela ABC nos Estados Unidos. Se cogitou que o ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan fizesse o coin toss do jogo junto com Gorbachev e até traves de futebol americano foram encomendadas na Finlândia. No início de 1989, quando tudo parecia acertado, pela desorganização do governo soviético em ajudar na organização do jogo, a Raycom Sports desistiu da ideia.

Foto da turnê do Sooner Stampede Football pela URSSFoto da turnê do Sooner Stampede Football pela URSS

Dan Crookham, técnico de um time colegial em Oklahoma, vendo que o Glasnost Bowl não deu certo, decidiu que a ideia de um jogo de futebol americano na União Soviética era muito interessante para terminar ali. Através de doações no Oklahoma e negociações com organizações humanitárias americanas e soviéticas, Crookham conseguiu arranjar vistos e dinheiro para levar e acomodar 90 jogadores colegiais para uma série de três jogos em solo soviético: 28 de junho no Estádio Dínamo de Moscou, 1º de julho em Tallinn (capital da Estônia) e 4 de julho em São Petersburgo. Não há vídeos dos jogos, mas todos os relatos de ex-jogadores e técnicos da turnê do que ficou conhecido como Sooner Stampede Football dizem que foi um sucesso de público apesar dos soviéticos não terem ideia do que estava acontecendo em campo. Após as partidas, o público corria para o campo para vestir os equipamentos dos jogadores e darem tackles uns nos outros.

Poster do Moscow BearsPoster do Moscow Bears

Essa série de três jogos foi a gênese da prática do futebol americano na União Soviética. No mesmo ano, alguns times amadores como o Moscow Bears surgiram no país utilizando equipamentos de segunda mão e até mesmo do hóquei no gelo para a prática do esporte. Edgard Taturian, técnico da seleção soviética de rúgbi, foi o primeiro técnico do time e um dos grandes pioneiros da prática do futebol americano na URSS. Carregando um capacete com a emblemática foice e martelo, o Bears fez três jogos em 1989: contra o Berlin Adler em Berlim Ocidental, contra a seleção sub-19 da Finlândia em Helsinque e venceu o Kharkiv Atlantes por 26×0 em Moscou no que foi o primeiro jogo disputado entre times soviéticos na União Soviética. Em 1991, o Bears se sagrou como campeão do único campeonato soviético disputado. Na esfera internacional, a federação soviética de futebol americano se filiou à EFAF (a confederação europeia de futebol americano) no mesmo ano e a União Soviética fez o seu primeiro e único jogo oficial: uma derrota de 30×7 perante a Holanda, em Amsterdã, em jogo válido como classificação ao torneio europeu de futebol americano.

Foto do jogo entre União Soviética e HolandaFoto do jogo entre União Soviética e Holanda

Com o fim da União Soviética em dezembro daquele ano, o futebol americano soviético se fragmentou nos vários países que surgiram e continuou se desenvolvendo principalmente na Rússia, que hoje é um dos principais polos do esporte no leste europeu junto com Ucrânia e Bielorrússia e sempre participa dos torneios europeus com times fortes e bem organizados. A história mais famosa do futebol americano russo saiu em 2013, alguns devem se lembrar de quando o Moscow Black Storm ofereceu um contrato para Tim Tebow, recém dispensado do New York Jets, jogar os playoffs do campeonato russo pelo time.

Essa é a história do futebol americano na extinta União Soviética, espero que tenham gostado dessa pequena viagem por um pedaço pouco conhecido da história do futebol americano mundial. Deixem seus comentários aqui ou venham conversar comigo no Twitter caso queiram discutir sobre esse interessante assunto! Vejo vocês na minha próxima coluna daqui quinze dias.

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