terça-feira, 31 de março de 2020

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Na NFL – e porque não na vida em um contexto geral, vivemos fases. Tem dias em que nos sentimos o máximo e estamos no topo da montanha mas logo na sequencia recebemos um choque de realidade e voltamos ao mundo normal, e é absolutamente normal. Dentro da NFL, as fases das equipes ficam marcadas por dinastias construídas, isto é, vários anos e anos de ampla dominação de uma equipe sobre todas as outras por motivos já conhecidos: grandes escolhas de Draft, assinaturas com atletas talentosos e desenvolvimento de jogadores parecem perpetuar uma caminhada numa caminhada de sucesso pelos anos posteriores – só olhar o exemplo do New England Patriots.

Por outro lado, outras franquias parecem fadadas ao ostracismo de sequer apresentar um desempenho razoável para dar o mínimo de esperança à combalida torcida. Sei que algumas destas equipes já vierem à sua mente, mas decisões questionáveis em vários níveis de hierarquia parecem predestinar tais times a um sofrimento que muitas vezes parece eterno, mas novamente: não é.

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O meio termo, por sua vez, parece abrigar a grande maioria dos times: equipes de conseguem contrastar com alguns anos de ostracismo mas apresentam uma revolução surpreendente e conseguem alçar grandes vôos dentro do cenário da NFL. Trata-se do cenário que a liga se desenvolveu e ao que tudo indica, não sairá deste status tão cedo. Um destes times parece o Los Angeles Rams, tema de hoje.

Quando Sean McVay assumiu o comando técnico em 2017, aos 30 anos se tornou o mais jovem da história a atingir o posto máximo de uma comissão técnica na história da NFL. O Rams mudou da água pro vinho com o especialista em ataque e com isso elevou o desempenho de praticamente todos os setores da equipe, o que naturalmente atraiu vários jogadores ao redor da liga para lá, que viam na possibilidade de um time jovem com um técnico irresistivelmente talentoso como um caminho fácil para o cobiçado troféu Vince Lombardi, dado ao grande vencedor da temporada.

Isto de fato se concretizou com a equipe indo aos playoffs nas temporadas de 2017 e 2018, esta última inclusive, lhe rendeu o campeonato da NFC contra o New Orleans Saints numa das partidas mais emblemáticas dos últimos anos, mas isto é papo para outra hora. Outra partida emblemática acabou sendo o Super Bowl daquela temporada, com o então irresistível ataque sendo reduzido à apenas três pontos contra o New England Patriots, numa derrota por 13 x 03 que marcou o sexto título do lendário QB Tom Brady. Tal partida foi um marco para todos que acompanham o esporte, mas para o Rams especificamente, foi o início de uma derrocada que parece ter atingido níveis alarmantes para a próxima temporada que induzem a afirmação que dá título ao texto: o Rams não tem um plano para as próximas temporadas.

Desde que assumiu o comando técnico, McVay uniu um ataque poderoso com peças que se encaixavam naturalmente no esquema de jogo versátil da equipe: QB Jared Goff, RB Todd Gurley, WRs Robert Woods, Cooper Kupp e Brandin Cooks, TEs Gerald Everrett e Tyler Higbee e um poderosa linha ofensiva pareciam dar o sinal que a equipe seria a próxima grande dinastia dentro da NFL. Era realmente muito bonito de assistir o ataque do Rams jogar, mas ao que tudo indica, pareceu termos visto uma dinastia de uma temporada apenas.

Aproveitando a janela de competitividade da liga, o Rams passou as duas últimas temporadas fazendo várias aquisições de atletas talentosos ao custo daquilo que é mais precioso à médio e longo prazo: escolhas de Draft. Além disto, a equipe procurou manter seu elenco e dentro da NFL, com o teto salarial rigoroso que dá aos times exatamente a mesma quantidade de dinheiro para a montagem do elenco pareceu impossível reunir todos os jovens atletas que costumavam atuar pela equipe.

Entre os atletas trazidos pela equipe estão os CBs Marcus Peters, Aqib Talib e principalmente Jalen Ramsey, que tiverem custos enormes para a equipe. Além disso, houveram monstruosas extensões contratuais dadas principalmente à Jared Goff e Todd Gurley, que combaliram o teto salarial e comprometeram a renovação com outros atletas. Vale o destaque mesmo Gurley nem estando mais no Rams, ainda contará impiedosos U$ 20 milhões no teto salarial nas próximas duas temporadas (valor garantido em contrato que a equipe se comprometeu à pagar na renovação contratual).

Tal valor poderia muito bem ser utilizado para a renovação de atletas cruciais para um bom desempenho da equipe: DE/OLB Dante Fowler Jr (Atlanta Falcons), LB Cory Littleton (Las Vegas Raiders) e K Greg Zuerlein (Dallas Cowboys) foram três atletas que trocaram de equipe simplesmente porque o Rams não conseguiu cobrir a oferta dos rivais, muito mais lucrativa financeiramente falando. Em um grande esforço a equipe até renovou com o DT Michael Brokers, mas precisou dispensar, além de Gurley, o OLB Clay Matthews e o CB Nickell Robey-Coleman para salvar espaço no teto salarial para esta renovação.

Qual o melhor jeito de suprir a ausência de veteranos atletas que saíram do time? Ora, a injeção de talento e juventude que o Draft da NFL representa para as 32 equipes! Pois bem, para trazer jogadores nesta minúscula janela de Super Bowl a equipe abriu mão de escolhas de 1ª e 5ª rodadas deste ano e também não contam com escolhas de 1ª, 4ª e 5ª rodadas no Draft de 2021. Se voltarmos um pouco no tempo e pensarmos que a equipe abriu mão das escolhas de primeira rodada nos Drafts de 2017, 2018 e 2019, o QB Jared Goff – que entrará em sua quinta temporada como profissional, é o último jogador recrutado pelo Rams na primeira rodada do recrutamento anual universitário, isto é realmente muito perigoso à médio prazo (que na NFL é simplesmente o mês que vem). Pensar que o Rams não tem no elenco um prospecto bem cotado, adquirido pela própria equipe e passível de valer o investimento de uma primeira rodada de Draft nos últimos cinco anos é alarmante.

Não sou crítico de uma equipe aproveitar uma janela legítima de competitividade e arriscar um pouco seu futuro na esperança de conquistar o Vince Lombardi. Aplaudo a ideia de arrojo em compilar o máximo de talento possível em uma liga tão competitiva como a NFL e fico muito feliz quando há uma mudança tão significativa e tão rápida de um time até marcado por grandes ataques no começo deste século.

Mas a fórmula como o Rams conduziu isto me surpreende. Abrindo mão de seguidas escolhas de Draft não apenas fadaram o time à falta de talento jovem – exigindo muito mais de atletas recrutados em rodadas posteriores, porém tais jogadores adquiridos simplesmente não corresponderam à todas as expectativas criadas, principalmente na defesa.

Outro ponto são as extensões contratuais: Além de Gurley, o QB Jared Goff recebeu em 2019, uma inexplicável extensão de U$ 134 milhões com U$ 110 milhões garantidos. Prova deste contrato inexplicável é que se o Rams optasse por rescindi-lo em 2020, teriam que abocanhar incríveis U$ 94 milhões em dead cap para a próxima campanha. Em 2021 tal número é U$ 58 milhões e em 2022 de U$ 25,5 milhões. Ou seja, a equipe está atrelada à um QB que se mostrou funcional quando cercado por um grande esquema, um RB à nível MVP, recebedores talentosos e linha ofensiva dominante até o final da temporada de 2022, quando dispensá-lo custaria apenas U$ 5 milhões no teto salarial. Apenas com o talentoso grupo de WRs disponível, é difícil imaginarmos um cenário com Goff sendo merecedor de tais cifras.

A extensão de três anos e U$ 30 milhões dada ao LT Andrew Whitworth aos 38 anos de idade (e em declínio de carreira) também não faz muito sentido, mas parece ser uma espécie de bônus a um jogador tão durável nestes anos que esteve em Los Angeles.

O Rams vai inaugurar o SoFi Stadium, sua nova casa, muito em breve, mas a expectativa é que o grande show ofensivo das últimas temporadas tenha sido reduzido à apenas memórias, a menos que Les Snead e Sean McVay tenham guardado muito bem todos seus segredos para um bom desempenho em 2020 e nos anos posteriores.

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