sexta-feira, 24 de maio de 2019

Compartilhe

Na década de 1930, a NFL começou a ver sua popularidade crescer. A hegemonia do College Football, preferido do público americano, não era mais tão grande em relação ao campeonato profissional. Tanto que novas regras, específicas para a liga, foram desenvolvidas. É onde um processo real de distanciamento tem seu início.

As franquias da época ainda sofriam com um grave problema: precisavam disputar a tapa os atletas que saíam das universidades. Nem todos tinham a intenção de jogar profissionalmente, e para os melhores que desejavam seguir tal caminho, era necessário despejar caminhões de dólares. Não era um processo saudável para os times, além de não colaborar com a competitividade da liga. Equipes com mais poderio financeiro certamente estariam sempre mais fortes.

Leia Mais: O caminho para a temporada regular

Leia Também: Possíveis cortes antes do Training Camp

Por isso, o futuro comissário Bert Bell surgiu em 1935 com uma ideia que moldaria a liga como hoje a conhecemos: um Draft. A cada ano, as franquias fariam seleções dos atletas universitários, sempre nas posições contrárias daquelas que terminaram a temporada anterior, e passariam a ter os direitos sobre eles. Dois coelhos seriam acertados de uma só vez – chegaria ao fim a guerra pelos atletas, impedindo que salários tão altos fossem dados logo de cara, e o equilíbrio seria maior, atraindo maior atenção do público.

O primeiro Draft da NFL aconteceu no dia 8 de fevereiro de 1936. A seleção inaugural coube ao Philadelphia Eagles, dono da pior campanha de 1935. Seriam nove rodadas de atletas escolhidos pelas nove equipes então existentes. Hoje, são sete rodadas e trinta e duas franquias, mas como vocês bem sabem, a estrutura é a mesma.

O homem que fez história na NFL sem nunca ter pisado em campo

Ser o primeiro atleta selecionado na história do Draft da NFL poderia ser uma enorme honraria. Será que ela foi concedida a um futuro hall of famer? Alguém que marcou época com alguma camisa ultra tradicional da liga? Que ainda sabemos o nome de cor ao lembrar de listas de jogadores históricos?

Nada disso. O homem que fez história como o primeiro a ter seu nome chamado em um Draft da NFL jamais entrou em campo.

Chamavam a equipe da Universidade de Chicago no início da década 30 de “time de um homem só”. O responsável por fazer com que os Maroons tivessem essa alcunha era Jay Berwanger. Não à toa, ele também foi o primeiro a receber outra incrível honraria: o Heisman Trophy, criado em 1935.

Com a primeira seleção do Draft de 1936, o Philadelphia Eagles escolheu Jay Berwanger. Mas nada era tão simples: logo, a franquia percebeu que não tinha como pagar o que o jogador desejava. O valor de mil dólares por jogo estava fora do alcance.

Berwanger não era alguém que sonhava ser um atleta profissional. Longe disso: na universidade, ele também competia no decatlo. E o real desejo era participar das Olimpíadas. O profissionalismo encerraria tal sonho, por isso, a pedida considerada extremamente alta para a época.

Percebendo que não conseguiria um acordo, o Eagles trocou Berwanger para o Chicago Bears. O lendário George Hallas seria o novo encarregado das negociações. Mas ele também falhou: ofereceu 13,5 mil dólares por ano, enquanto o atleta não aceitaria menos de 15. De maneira tão simples, quase que pueril, o primeiro jogador selecionado na história do Draft nunca entrou em campo na NFL, nem sequer recebeu um centavo de um time da liga.

Mas a tristeza e o arrependimento marcaram Berwanger: ele falhou nas tentativas de se classificar para as Olimpíadas. Pouco tempo depois, conseguiu um emprego em uma fábrica de pneus em Chicago. Também chegou a escrever sobre esportes para jornais e ser técnico na sua alma mater.

Só que ficou sem o dinheiro e sem o seu sonho.

Não à toa, Berwanger sempre declarou que se arrependeu de não ter aceitado a oferta de George Hallas. Hoje, poderíamos estar contando outra história se mil e quinhentos dólares não tivessem impedido tal acordo.

O trato com as honrarias recebidas pelo futebol americano não foi o forte de Jay Berwanger: o Troféu Heisman acabou sendo doado a uma tia, que o usou como peso de porta por anos. Só na década de 1970 voltaria à posse de seu vencedor. Hoje, ele está exposto na Universidade de Chicago.

Marca não só no futebol, mas também na face de um presidente

Gerald Ford atuando pela Universidade de Michigan

O nome de Jay Berwanger não está escrito apenas na história do futebol americano. Sua marca também foi exposta na pele de um presidente dos Estados Unidos.

Chicago Maroons x Michigan Wolverines, 1934. Berwanger corre com a bola e sofre o tackle. Sua chuteira entra na pele do linebacker que o derrubava e faz um enorme corte, com grande perda de sangue.

Do outro lado, estava o melhor jogador do time de Michigan, que também não chegaria a jogar na NFL apesar de ter recebido várias ofertas (ainda antes do início do Draft): o futuro presidente da república Gerald Ford.

Jogar futebol americano na época tanto não era uma profissão privilegiada que Ford recusou as ofertas com o intuito de dar aulas de boxe.

Quando Berwanger faleceu, em 2002, o então ex-presidente falou sobre ele: “Quando eu derrubei Jay no segundo quarto, ele me fez um corte muito sangrento. Ainda tenho a cicatriz para provar. Ele podia fazer de tudo: era excelente como corredor e como passador, podia fazer punts e chutar field goals. Nós nos encontramos muitas vezes e eu lembro dele como um dos melhores atletas que já vi”.

Infelizmente, a NFL nunca pôde ver tal atleta.

Acompanhe nosso conteúdo mais de perto e fique por dentro de tudo o que rola na NFL e NCAA: Siga nosso Twitter e curta nossa página no Facebook. Para ganhar DEZENAS de benefícios e se tornar um apoiador do site e do nosso trabalho, clique aqui

Compartilhe

Comments are closed.