segunda-feira, 14 de setembro de 2020

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Muitos técnicos da NFL são conhecidos por dominar certo aspecto do jogo. “Esse é um coach de mentalidade ofensiva”, por exemplo, é uma frase que a gente vê muito por aí associada a técnicos como Kyle Shanahan, Sean McVay, Jon Gruden e outros. Dentro do espectro ofensivo, cada coach desses tem uma espécie de marca registrada quando falamos a respeito de um certo tipo de jogada. Kyle Shanahan, por exemplo, é o “rei do play action” e é filho de Mike Shanahan, “rei da wide zone” (uma jogada de corrida). E isso nos traz ao tópico de hoje: Andy Reid é, de fato e de direito, o “rei do screen game”.

Todos os jogos da NFL estão disponíveis no NFL Game Pass. 

Tal qual o vinho, coach Reid conseguiu apenas melhorar com o tempo, tendo elevado sua capacidade de desenhar jogadas a um nível assustador (para as defesas, no caso). E isso pode ser visto com muita facilidade nos passes screen que o Chiefs roda. Começaremos aqui conceituando um pouco mais esse tipo de passe e depois mostrando como o atual técnico campeão da NFL utiliza isso em seu ataque.

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Muito bem, o que é um screen?

https://twitter.com/soonergridiron/status/1304929076927496192?s=20

Existem alguns tipos de screen pass (falaremos de um específico aqui), mas conceituar todos não é o intuito hoje. Então uma definição generalizada é: um passe screen é todo passe curto que visa colocar um corredor em campo aberto com bloqueadores à frente dele, para que o ganho de jardas possa ser maximizado. Existe passe para WR com outro WR bloqueando, existe screen para WR com a OL bloqueando para ele, existe passe para o RB, para o TE, para o FB… Inúmeras possibilidades aqui. Mas hoje falaremos do slow screen, o passe para o RB (será que só com ele?) com bloqueios da OL em campo aberto.

Conceituado o screen pass, o screen game seria como o time organiza sua variedade de passes desse tipo. Então assim como o jogo aéreo e jogo terrestre, temos o “jogo de screen” (o termo ficou bem esquisito em português, por isso mantive o original).

Essa é uma jogada que parte do princípio simples de: a bola estará na mão de quem consegue produzir as próprias jardas, ao contrário de um passe normal. Aqui é muito importante que o jogador que vai receber o passe tenha uma capacidade acima da média de movimentação em campo aberto, saiba ler os bloqueios e tenha uma boa capacidade de ganhar jardas com as próprias pernas (Yards After Catch – YAC, pra quem gosta de estatística).

Essa também é uma jogada que, para o olho destreinado, parece que o QB vai ser sacado a qualquer segundo. O motivo disso é simples: a OL irá “convidar” a defesa a defender um passe normal, mas muito rápido, os OLs sairão para os bloqueios. Como a OL não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, a DL passa. Mas o passe já passou pela DL. Então eles deixaram de ser um fator na jogada. É por isso, aliás, que o screen é tão efetivo contra a blitz. Se o LB entra em blitz e o passe acontece, ele simplesmente está numa posição horrível para voltar e dar o tackle. E aí são 2 ou 3 OLs (geralmente a jogada é feita só com metade da linha) indo bloquear cornerbacks e safeties. Simplesmente injusto.

Com base no que foi falado, meio que já dá pra entender o motivo do Chiefs explorar tanto esses passes. Existem jogadores a rodo que podem pegar essa bola e produzir jardas, como Hill, Edwards-Helaire, Williams, Kelce e Hardman. A OL é formada por jogadores de bom perfil atlético, que conseguem se destacar em campo aberto e, por ter o ataque aéreo completo que tem, as soluções táticas que a defesa encontra para tentar parar Mahomes abrem as chances de sucesso do screen pass; Ou a defesa cobre o fundo com medo da big play, ou manda pressão no QB para apressá-lo. Qualquer uma das soluções encontradas para contra atacar Mahomes são vulneráveis contra screens.

Como Andy Reid elevou o screen a um outro nível

Na NFL, qualquer vantagem que o ataque tenha sobre a defesa deve ser explorada (e vice-versa). Como todo mundo que está em campo é jogador profissional e técnicos experimentados, nada ali é muito novo e desconhecido. Então os coaches geralmente tentam manipular o outro time a partir de coisas que eles sabem que o outro time precisa fazer, pois são preceitos gerais na NFL.

Por exemplo: em todas as defesas da NFL os jogadores tentam se antecipara uma possível movimentação que estejam vendo, para conseguir conter rápido o que irá acontecer. E aí que entra a principal sacada de Andy Reid: o misdirection.

Em tradução literal, misdirection significa “direção errada” ou “errar a direção”. Ou seja, ele utiliza desse artifício para confundir a defesa, fingindo algo sempre do lado oposto ao lado real em que a jogada vai acontecer. Olha pra direita, joga na esquerda; chama o motion pra esquerda, finge pra direita e dá um passe no meio. E como é impossível para a defesa não reagir imediatamente ao primeiro sinal que recebe, a defesa acaba pagando pela agressividade excessiva em matar a jogada.

Aqui está a jogada inspiradora desse texto, um screen pass para o TE Travis Kelce. Não é uma jogada nova, já que podemos ver que ela havia sido executada em 2018 e 2019., mas continua efetiva. Você vê que o motion por si só já causa confusão na defesa, com um “recebedor falso” indo para o backfield e voltando para o mesmo lado em que estava, como se fosse receber a bola ele mesmo. O RB vai para o lado contrário ao motion, fazendo uma movimentação parecida. Tudo isso estica o campo horizontalmente e deixa Kelce livre para receber o passe e ganhar a primeira descida.

Observe a OL também. Eles começam engajados nos DLs, mas se livram deles e vão para o segundo nível buscando trabalho. Essa é a movimentação da OL que está do lado do passe. Do lado oposto ao TE (e ao passe), a OL está fazendo uma simples proteção, apenas impedindo que o QB possa ser sacado pelas costas.

No próximo vídeo, temos um screen simples, mas também utilizando o artifício do motion.

Importante frisar que a defesa do Ravens trouxe 6 jogadores na pressão, deixando os outros 5 defensores para cobrir o resto do campo. A OL não faz um trabalho espetacular nos bloqueios, mas é o suficiente para LeSean McCoy escolher o melhor caminho para anotar o TD.

Aqui temos um passe para Hardman, depois de muita movimentação no backfield. Veja que essa jogada contém tantas informações para a defesa que ela pode gerar duas coisas: a defesa pensa demais e é lenta ao reagir ou a defesa pensa pouco e escolhe errado.

Em todos esses vídeos, um denominador comum: Mahomes. Ele é um excelente mentiroso e alguém que contribui muito para o misdirection empregado no screen game do coach Reid.

E, aparentemente, quanto mais fakes em algumas jogadas, melhor será. Nessa aqui temos 3 indicações falsas de quem ficará com a bola, até finalmente termos o tradicional slow screen para o RB.

Nesse vídeo já tivemos um trabalho bem melhor da OL, embora dessa vez você possa conferir que os bloqueadores passaram a ser os guards e o center, ao invés de ser center, guard e tackle. Variações inteligentes e importantes, que mantém a defesa sempre preocupada com esses passes curtos. Somado ao problema que Mahomes pode ser nos passes médios/longos, isso transforma o ataque aéreo do Chiefs em algo completamente devastador.

 

Não só o time do Missouri tem essa característica de ter um screen game inovador. Alguns outros times com técnicos que trabalharam para o coach Reid também apresentam táticas bastante atualizadas nos screens, como Sean McDermott (Bills), Doug Pederson (Eagles) e Matt Nagy (Bears). Há também os coaches que não pertencem à árvore genealógica de Andy Reid, como Kyle Shanahan e Sean Payton.

Passem a apreciar mais os screens. Um passe de -2 jardas pode facilmente se tornar um ganho de 15 jardas, você pode ver os OLs amassando a tudo e todos pelo caminho… É algo bem interessante de assistir. E agora eu acho que teremos um Chiefs explorando cada vez mais isso, com a adição do bom RB calouro Clyde Edwards-Helaire. Apesar de não ter sido utilizado assim na primeira semana, sinto que ele poderá ser bastante explorado nessa função.

E aqui eu não posso deixar de mencionar o tanto que é genial o ataque do coach Andy Reid. Não só no screen game, que é realmente uma marca de sua criatividade, mas no todo, como um cara que projeta um ataque inteiro e como chama as jogadas. Ele é genial e merece todos os hamburguéres que quiser comer.

Vamos aproveitar os gênios enquanto eles estão ativos, por que um dia acaba.


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