segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

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A cada ano que passa, o valor agregado ao NFL Scouting Combine aumenta em uma proporção sem precedentes. Tvs, rádios e jornais se dedicam diariamente à cobertura do evento, realizado há vários anos em Indianapolis, no Lucas Oil Stadium, a casa do Colts. Analistas experientes se debruçam na avaliação dos próximos candidatos a estrela da NFL, considerando diversas variáveis e atributos físicos que resultam nos famigerados Mock Drafts, que movem o esporte neste longo período de intertemporada pelo menos até a grande noite do recrutamento anual universitário, em Maio.

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O agora ex-GM do Indianapolis Colts Ryan Grigson deu uma entrevista há três anos pincelando a respeito da importância dos eventos realizados em Indianapolis. Ele ponderou:

“Sinceramente não mudamos muito nosso Board após o Combine. […] O que fazemos é prestar atenção em jogadores que excederam (ou não) as expectativas, e (ou) analisar o histórico médico dos atletas. Por exemplo, se há um WR que esperávamos que corresse as 40 jardas em 4.5 segundos e tenha corrido em 4.75, olharemos melhor nossos relatórios sobre ele, e naturalmente desceremos um pouco em nosso board. Sempre há exceções como Anquan Boldin, mas para cada Boldin, há centenas de atletas que fracassam.”

Já vou tocar melhor no “caso Anquan Boldin”. Louis Ridick, que trabalhou anos como olheiro no Washington Redskins foi mais enfático ao classificar por ordem de prioridade os eventos que acontecem no Combine: “a parte mais importante, sinceramente, são os exames médicos, em segundo as entrevistas e finalmente tudo que acontece no campo.”

O EPA (Exceeding Peer Average)

Joe Landers, um estudioso que analisou a mecânica do Combine da NFL criou um mecanismo interessante e muito válido para classificar e agrupar os jogadores de acordo com seu desempenho no Combine com relação à carreira da NFL, o EPA, e embora os dados disponíveis não sejam tão recentes (últimas informações datadas da temporada de 2013), podemos tirar diversas considerações importantes acerca do processo como um todo. Ele pondera que o segredo para uma boa carreira na NFL não é ser o melhor num único atributo, mas sim ter um bom desempenho em diversos testes físicos, de forma que demonstre a ser um jogador completo.

EPA com relação ao pique de 40 jardas

O EPA permitiu tirar a seguinte conclusão: entre 2005 e 2013, 451 RBs fizeram o pique de 40 jardas no Combine, e obtiveram o tempo médio de 4.557 segundos, um número razoável. 71% dos 32 melhores RBs da temporada regular de 2013 fizeram um tempo melhor que este, enquanto o restante (nove) esteve abaixo da média no quesito, mas ainda assim conseguiram causar impacto na NFL. Em tempo, 71% dos atletas é um número bem razoável, mas outra observação pode ser vista.

Há uma corrente geral na NFL que um jogador numa posição de destaque que preze pela velocidade e arranque (RB, WR ou DB) precisa correr as 40 jardas abaixo de 4.4 segundos para se colocar como um bom prospecto e ser recrutado nas primeiras rodadas do Draft, mas a história mostra que não é isso que acontece quando analisados os números: de 2005 a 2013, 89 jogadores “cumpriram a meta” e fizeram um tempo igual ou menor a 4.4 segundos no Combine, e apenas 13 destes (cerca de 14%) chegaram a ser titular em algum time da NFL durante o período. Aí sim, um número que vai ao contrário da crença geral da NFL com relação a este teste, dado como o principal dentro do Combine.

Outro exemplo grosseiro é o do ex-WR Jerry Rice, o melhor WR e discutivelmente o melhor jogador de todos os tempos. Ao sair da universidade, Rice optou por não participar deste teste, no qual havia a expectativa de que ele, um atleta não tão dominante no College, o fizesse em torno de 4.7 segundos, um número que nos dias de hoje criaria muita polêmica e com certeza derrubaria Rice da lista de desejos da grande maioria dos times. Para a sorte do 49ers, o então HC Bill Walsh ignorou a falta de um número concreto desde teste selecionou Rice, proporcionando assim uma das maiores dinastias da história da NFL, a do 49ers dos anos de 1980 e início de 90. Uma vez perguntado sobre esta polêmica, Rice declaro: “As 40 (jardas) não importam. Nunca fiz um bom número neste teste, mas os defensores nunca me alcançavam.” No próprio Draft de 2013, o WR Marqise Goodwin correu as 40 jardas em surpreendentes 4.27 segundos e foi recrutado pelo Buffalo Bills na 3ª rodada do Draft. Deste então, em quatro temporadas, foram apenas 49 recepções para 780 jardas e 6 TDs, números ruins para um WR de impacto na NFL.

Caso Anquan Boldin

Em 2003, havia um WR de Florida State que estava bem cotado para o Draft, com boa capacidade física e conhecimento do jogo, elusividade e capacidade de quebrar tackles, um protótipo de WR perfeito para a NFL, e era Boldin. O Baltimore Ravens fez uma série de entrevistas com o atleta e saiu maravilhado de todas elas, elogiando a percepção de Boldin sobre o esporte e a capacidade de adaptação de seu estilo de jogo para a NFL. A confiança foi outra coisa elogiada, pois quando perguntado sobre Peter Warmick (um jogador também de Florida State, recrutado no top 5 do Draft e que teve uma carreira desastrosa na NFL), Boldin foi enfático: “sou melhor que Peter Warmick”.

O Baltimore Ravens percebeu que Boldin era tudo o que precisavam para a posição de WR para os anos futuros, e estavam certos da escolha do recebedor na primeira rodada do Draft. No dia seguinte, Boldin correu as 40 jardas em mais de 4.7 segundos, um número desastroso para um recebedor que teoricamente precisa desta velocidade e arranque para se desvencilhar dos marcadores adversários. Phil Savage, então diretor dos olheiros do Ravens naquele ano (e hoje executivo do Senior Bowl), declarou que o time ficou desolado com o desempenho, e removeu o jogador de sua lista de possíveis escolhas para a primeira rodada do Draft. Acabou que ele foi selecionado na segunda rodada pelo Arizona Cardinals, e teve o maior número de recepções (101) e o segundo maior número de jardas recebidas (1.377) da história da NFL para um calouro. Em 14 temporadas, ele é o 9º da NFL em recepções (1.706) e o 14º em jardas aéreas (13.779), passando por Cardinals, 49ers, Lions e o próprio Ravens, que o contratou anos depois de não recrutá-lo no Draft.

Até onde a preparação para os testes altera a real capacidade física?

Para exemplificar ainda mais a discussão, precisamos falar do DE Mike Mamula. Considerado um prospecto de rounds intermediários para o Draft de 1995, Mamula dominou todos os requisitos do Combine, se tornando uma lenda naquela edição. Listado com 113kg no evento, Mamula correu as 40 jardas em 4.58 segundos, conseguiu 98 centímetros de elevação no salto vertical e fez 28 repetições no supino com pouco mais de 102kg. Tal desempenho alavancou o status de Mamula para o Draft daquele ano, e ele saiu dos rounds intermediários para a 7ª escolha geral, recrutado pelo Philadelphia Eagles. Em seis anos na Pensilvânia, ele compilou 31.5 sacks, pouco mais de 5 por temporada na média, outro número ínfimo para um jogador que se destacou no Combine. Mais de 20 anos depois, podemos observar que Mamula foi um visionário.
Ao ser perguntado sobre seu desempenho, ele ponderou que fez todos os exercícios centenas de vezes, de forma a melhorar seu desempenho para os testes realizados no Combine. Este ato de se preparar para os testes físicos realizados em Indianapolis passou a ser um pré-requisito para os prospectos, que passam as semanas antes do Combine apenas treinando e se familiarizando com os drills realizados, então encontrar a linha tênue entre o potencial físico do atleta e o fato de estar preparado para o tipo de exercício exigido também é algo a ser analisado friamente.

O que significa o Combine então?

Não se pretende dizer que o Combine é inútil, e que os prospectos vão a Indianapolis apenas para passear e conhecer o Lucas Oil Stadium, um dos melhores estádios de toda a NFL. Mas que o processo de testes em si é falho e é algo que tem muito mais valor do que deveria, capaz de alterar (positiva ou negativamente), todo um trabalho de meses (às vezes anos) por uma leve diferença de décimos de segundos em um pique de 40 jardas num dia específico. Há todo um lado positivo e necessário do evento que são as entrevistas com os atletas, onde os times descobrem muito sobre o caráter de um jogador que está prestes a representar a expectativa de mudança (ou manutenção) de uma franquia no futuro à curto e longo prazo, comprometendo milhões de dólares do teto salarial e assim o planejamento de anos. Mas, num evento com mais de 300 prospectos, uma semana para avaliar o máximo de jogadores possíveis de todas as maneiras (física, técnica, mental e intelectual), parece ser um processo um tanto quanto árduo, beirando o impossível, em que um teste físico já de longa data parece ter um valor muito maior que o normalmente recomendado também já não corrobora a favor das equipes.

Conclusão

Com certeza os times não reclamam de poder passar cada vez mais tempo com os novos candidatos à face da franquia. Em anos que normalmente milhares de atletas estão aptos a serem recrutados no Draft, as equipes reúnem o máximo de informações possível de forma a descobrirem tudo que podem. Não se pretende dizer que tais testes físicos não importam, mas sim pavimentar a discussão de quanto importam, afinal analisar situações artificiais de partida em que os atletas são submetidos com certeza ajudam na montagem do portfólio de informações sobre um jogador, mas a grande questão é analisar a porcentagem de que isso importa.
Ninguém se lembra do péssimo desempenho de Boldin no Combine, mas o que ele fez pelo Seminoles, e posteriormente por Cardinals, Ravens, 49ers e por último Lions (culminando na conquista do Super Bowl XLVII com o Ravens) com certeza é algo inesquecível na mente de todos. A questão é achar o ponto ideal de equilíbrio entre a avaliação física em um determinado dia e o potencial de um atleta em todas as áreas possíveis pelos próximos 15 anos. Concorda?

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