sexta-feira, 3 de abril de 2015

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guia da rodada - L32

Já é consenso nos círculos da NFL que com a primeira escolha no draft de 2015 o Tampa Bay Buccaneers escolherá o QB Jameis Winston. O que não é consenso é se o QB vale a primeira escolha. Enquanto os dirigentes de Tampa Bay estão confiantes que Winston será um sucesso na NFL, muitos jornalistas, dirigentes e fãs da NFL questionam o potencial do jovem e problemático QB. Eu estou entre eles.

Primeiramente eu concordo que Tampa Bay deveria ir atrás de um QB. Mas ele deveria ser Marcus Mariota. Por mais que eu ache que Mariota não valha uma escolha de primeira rodada, eu entendo o desespero de times sem QB. Sem QB é impossível vencer na NFL. E Mariota tem o potencial. Feito meu lobby, para o que eu acho ser o melhor QB do draft, voltemos a questão inicial do texto. Por que Winston será um grande bust?

Verdade seja dita, Jameis Winston é um grande atleta. Venceu o Heismann Trophy em 2013, mesmo ano em que liderou a equipe invicta de Florida State ao título nacional. Levou os Seminoles à decisão também no ano passado, quando perdeu para Marcus Mariota e a equipe de Oregon. Sua carreira universitária tem números impressionantes: 66% de passes completos, 7964 jardas, 65 TDs e 28 interceptações. Em dois anos como títular seu time teve 26 vitórias e apenas 1 derrota. Além de tudo isso, Winston jogou college baseball por Florida State. Credenciais ele tem. Mas sucesso no universitário não garante sucesso no profissional. Vide casos recentes como Tim Tebow e Johnny Manziel.

Apesar de ser um grande atleta, muitos scouts levantam duvidas sobre suas habilidades no profissional. Mas para mim não é essa a grande questão. A questão é: Winston está pronto para ser um franchise player? Ele está pronto para ser a face de uma franquia, ser a base de uma legião de fãs e além de tudo jogar futebol em grande nível? Pense em quantos QBs problemáticos você viu se tornar um grande jogador nos últimos anos. Para ilustrar a questão vamos lembrar de dois grandes busts na posição de QB, talvez os dois maiores da história.

Em 2007 o Oakland Raiders usou a primeira escolha no draft para selecionar o QB de LSU JaMarcus Russell, conhecido carinhosamente por fãs brasileiros como Jamarcão. Russell não era um talento tão grande quanto Winston, mas era indiscutivelmente o melhor QB em um draft muito pobre na posição. O que se ouvia falar muito na época era da grande combinação de força no braço e altura, muito parecido com o que se fala de Winston (na minha opinião, os scouts na NFL valorizam demais o físico e de menos a inteligência dos QBs, fato que fez Russell Wilson cair para o 3o round em 2012). Apesar do talento estar lá, a cabeça de Russell não estava em campo com o Raiders.

Muita inconsistência minou sua confiança e o QB não foi capaz de se recuperar. Em 3 anos na NFL ele lançou para 4083 jardas, 18 TDs e 23 interceptações. Pra finalizar a tragédia, Russell foi preso em 2010 por posse de substâncias ilegais. O maior bust da história é o QB Ryan Leaf. No draft de 1998, a questão era Peyton Manning ou Ryan Leaf? Qualquer um dos dois era visto como uma grande escolha. A história todos já conhecem: Manning foi selecionado pelo Colts e se tornou um dos maiores da história. Já Leaf foi selecionado pelo Chargers e jogou quatro temporadas na NFL com 48,4% de passes completos, 3666 jardas, 14 TDs e 36 interceptações. Leaf sempre foi chegado em festas e lhe faltava disciplina. Ele faltava reuniões, preferia jogar golfe do que estudar para jogos e atacava a imprensa quando questionado sobre seu péssimo desempenho em campo. Nos últimos anos, Leaf tem passado bastante tempo na cadeia, acusado de vários crimes pequenos.

O que essas duas histórias tem a ver com Winston? Talento dentro de campo, problema fora dele. Isso que Leaf e Russell passaram pela sua carreira universitária com relativa tranquilidade perto de Jameis Winston. O prospecto foi acusado de estuprar uma colega de turma em 2012. Apesar de a polícia de Tallahassee dizer que não havia evidências suficientes para acusar Winston, uma reportagem do The New York Times em abril de 2014 mostrou que não houve muita vontade de investigar o crime. A polícia, por exemplo, nunca pegou uma amostra de DNA de Winston para comparar com a do acusado. Em 2012, Winston levou uma arma de pressão no campus de FSU para atirar em esquilos. Foi algemado e liberado quando foi verificado que era uma arma de pressão. Winston foi condenado a prestar 20 horas de serviço comunitário em 2013 após roubar pernas de caranguejo de um supermercado. Parece até brincadeira. Se esses casos tivessem ocorrido enquanto ele fosse QB da NFL, a cobertura da imprensa seria muito mais intensa.

A posição de QB é talvez a mais difícil de ser jogada nos esportes americanos. Não basta o jogador ser grande dentro de campo. Ele também tem que saber se comportar fora dele. O QB é a face de uma franquia que vale 1 bilhão de dólares. A pressão da imprensa é gigantesca. Pisar fora da linha não ajuda, e ter um QB em páginas políciais frequentemente é uma distração que nenhum técnico quer. Winston foi um grande jogador de college football. E tem talento para a NFL, podendo ser um grande jogador se colocar a cabeça no lugar. Mas como ilustrado pelos nossos exemplos, talento não é o suficiente e problemas fora de campo são carregados pra dentro dele. Com tantas questões em tantos aspectos eu não aposto minhas fichas em Jameis Winston. E Tampa Bay também não deveria.

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