sexta-feira, 14 de junho de 2019

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A história sempre começa com uma ideia tentadora: por que não criar uma liga de futebol americano profissional paralela à NFL? Não é necessário ser concorrente – é um fato que ninguém tem esse poderio ou que apenas uma mente perturbada teria tal delírio de grandeza. Mas aproveitar os meses nos quais há um vazio do esporte mais popular dos Estados Unidos leva empresários e investidores a acreditarem que esse pode ser um negócio fantástico.

E o final é sempre o mesmo. Fracasso, perdas financeiras enormes, vida curta. Recentemente, vimos a Alliance of American Football (AAF) ter um início promissor, mas nem sequer terminar a sua primeira temporada. Apesar disso, novas tentativas sempre surgem, e a próxima já está programada para 2020, com a ressurreição da XFL.

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Afinal, por que é tão difícil lançar uma liga de futebol americano que ocupe os meses de março a agosto? O que faz com que repetidamente o mesmo buraco negro engula todas as tentativas? Vamos tentar traçar uma breve história dos naufrágios e entender essa questão.

Em uma excelente reportagem da ESPN norte-americana lançada nessa semana, o idealizador da AAF, Charlie Ebersol, relata uma frase dita a ele pelo astronauta Neil Armstrong: “se você erra a aterrissagem por polegadas, não é um grande problema. Se você erra o lançamento por polegadas, você não chega na lua por um milhão de milhas”. Todas as ligas, até hoje, erraram o lançamento por muito mais do que polegadas.

A USFL foi talvez a que teve maior chance de sucesso. Nos anos 1980, possuía o capital para se manter operante em prejuízo até engrenar. Contou com ofertas muito tentadoras a jovem estrelas universitárias, atraindo três vencedores do troféu Heisman em sequência. Nomes que fariam história na NFL, como os quarterbacks Jim Kelly e Steve Young, começaram suas carreiras profissionais nela.

Steve Young atuando pela USFL.

O que a USFL entendeu é que era necessário ter um produto de alta qualidade esportiva para alcançar o sucesso. Só que aí mora um paradoxo: para contar com estrelas e nomes de destaque, é preciso concorrer com a NFL, e concorrer com a NFL é um tiro no pé.

A USFL durou três temporadas, sempre acontecendo nos meses de hiato da NFL. Então, cometeu o maior erro estratégico possível, impulsionado por um homem que era dono de uma das franquias chamado Donald Trump: mudar para o mesmo período da maior liga do planeta. Isso a enterrou completamente e nenhum novo snap chegou sequer a ser jogado. O detalhe é que, nesse período de operação, o saldo financeiro tinha sido um prejuízo de 163 milhões de dólares.

Tempos depois, surgiu a XFL, talvez a mais bizarra tentativa de “liga de primavera”. A aposta era em incentivar a violência no jogo, transformando o esporte totalmente em entretenimento. Nos intervalos, shows com mulheres semi-nuas, nos snaps, regras que aumentavam o contato físico. O kickoff não era decidido por uma moedinha, mas sim por um jogador de cada equipe batalhando por alcançar a bola no chão. Um show de horrores.

A XFL original tinha uma descabida apologia à violência.

Mas a XFL também entendeu algo: não adiantava fazer uma liga cópia da NFL, era preciso inovar nas regras e no formato. Infelizmente, todas as ideias de inovação foram terríveis. Os donos eram os mesmos da WWE, entidade de luta livre, e houve uma confusão sobre o público de esportes diferentes. Uma temporada e prejuízo de 70 milhões depois, mais um naufrágio foi confirmado.

A AAF, surgida em 2018, acertou na inovação dentro de campo, com regras interessantes, e tinha até uma qualidade esportiva razoável. O aplicativo que transmitia jogos e permitia apostas em tempo real era um princípio que poderia funcionar, mas foi mal executado. O maior problema foi outro: a liga foi uma arriscadíssima tacada que simplesmente não tinha o dinheiro necessário para operar.

Se a USFL, que conseguiu atrair algumas estrelas importantes, tomou tamanho prejuízo nos seus três primeiros anos, é óbvio que qualquer investidor que queria lançar uma nova liga precisa estar preparado para perder muito dinheiro no começo. Sem esse capital inicial, não adianta tentar.

Sob risco de nem sequer conseguir lançar a liga, Charlie Ebersol conseguiu atrair um investidor para o projeto, Tom Dundon. A princípio, foi garantido um aporte que manteria a AAF funcionando por três anos.

Só que Dundon tinha outras ideias – ele não queria uma liga paralela que ocupasse os meses sem futebol americano, mas sim, que a NFL absorvesse a AAF como uma liga de desenvolvimento. Uma vez que percebeu que isso era impossível, pulou fora do barco, quebrando sua garantia inicial e obrigando o encerramento das operações antes mesmo dos primeiros playoffs.

Portanto, os erros são diversos: tentativa de concorrência com a NFL, projeto bizarro de conceito de entretenimento, falta de capital para absorver o óbvio prejuízo dos primeiros anos, qualidade esportiva baixa. Tudo isso configura muito mais do que algumas polegadas erradas no lançamento. E tudo isso fez com que tais ligas mirassem na lua, mas caíssem em um buraco negro.

Quanto mais se erra, mais se aprende. A XFL fará sua segunda tentativa em 2020, quase vinte anos depois da primeira. Dessa vez, as ideias parecem muito melhores. Será que ela conseguirá ser finalmente a liga que sobrevive? Esse é o assunto para um próximo texto!

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