terça-feira, 26 de maio de 2020

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É mais do que certo que na NFL, a figura de um Quarterback da franquia é crucial para qualquer sucesso obtido a curto, médio e longo prazo. Me arrisco a dizer que tal figura é a mais importante nos esportes americanos em geral, mais que aquele arremessador que compila mais de 200 entradas arremessadas e um ERA de menos que 2.00 na MLB, que aquele jogador que garante 30 pontos por partida na NBA ou aquele goleador na NHL, são raros os exemplos na história recente de times que obtiveram sucesso sem um mínimo de desempenho da posição e para isso, o talento ao redor – ofensivo e defensivo, teve que ser ridiculamente elevado para atingir tal patamar.

Entra o Miami Dolphins, a franquia que aguarda desde o final dos anos 1990 pelo seu próximo grande QB após mais de uma década contando com o lendário Dan Marino. Não por acaso, foram dez aparições nos playoffs entre as temporadas 1983 e 1999 (quando Marino comandou as rédeas do ataque) e mesmo que não tenham conquistado a glória máxima da liga, a presença era constante mesmo em times não tão bons, mas isto denota que enquanto tinham um talento excepcional na posição de QB, as vitórias e campanhas positivas eram basicamente garantidas. Após a aposentadoria de Marino, foram apenas quatro aparições em playoffs desde a temporada de 2000 e apenas uma vitória (neste mesmo ano, na prorrogação, contra um Indianapolis Colts comandando por um jovem QB chamado Peyton Manning, que terminava sua terceira temporada como profissional). Manning cresceu, teve seu auge, declínio e aposentadoria e o Dolphins não conquistou uma vitória em pós-temporada para sua torcida.

Defesas mais dominantes da liga – AFC

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O próximo candidato à QB da franquia é Tua Tagovailoa, recrutado com a 5ª escolha geral do Draft deste ano após carreira gloriosa por Alabama. Ao unir velocidade na leitura das jogadas, presença no pocket para escapar do sack e habilidade atlética para estender jogadas, temos que era um jogador que o Dolphins simplesmente não poderia hesitar em deixar passar, mesmo com um histórico médico preocupante com algumas lesões tidas à nível universitário, inclusive uma em Novembro de 2019, resultou no deslocamento de seu quadril e a necessidade de uma cirurgia que o tirou do restante da temporada, mesmo tentando atuar no sacrifício.

Embora ele declare que esteja totalmente recuperado de sua lesão e pronto para atuar se houvesse uma partida hoje, o QB canhoto está perdendo (e possivelmente perderá) importantes passos na adaptação do nível de jogo universitário para o profissional. A pandemia por conta do novo Coronavírus afetou a NFL nos seus processos de offseason, marcados justamente por esta inserção dos novatos à liga e também dos veteranos aos novos técnicos e coordenadores. As OTAs, siglas em inglês para treinos nesta época do ano sem nenhum contato permitido, representam um importante período para os jogadores se ambientarem aos seus novos times – e Tua não terá esta importante etapa necessária para seu desenvolvimento.

Vale o destaque que no momento, o Miami tem o interminável Ryan Fitzpatrick como Quarterback. O jogador não só tem mais de uma década de perpetuação na liga  em quase uma dezena de times, mas também tem cinco anos de experiência no sistema ofensivo adotado por Chan Gailey, o coordenador ofensivo. Após um começo desastroso em 2019 – marcando um total de 26 pontos em quatro partidas, o ataque explodiu na parte final da temporada: foram 28.8 pontos de média por partida nas cinco rodadas finais, o suficiente para girar a catraca “teremos Ryan Fitzpatrick na NFL no próximo ano”, afinal isto jamais acabará.

Soma-se tudo isso à uma divisão que deverá ser a mais equilibrada nos últimos vinte anos (sem o QB Tom Brady por lá) tem-se a pergunta:

Tua Tagovailoa deveria ser titular em 2020?

O Dolphins é o único time da NFL que não teve um Quarterback sequer eleito para o Pro Bowl neste século. Tamanha esperança da torcida no desempenho de Tagovailoa é que a camisa #1 do Dolphins (seu número entre os profissionais) na cor turquesa é a mais vendida na NFL desde o Draft. A segunda camisa mais vendida? A camisa #1 do Dolphins na cor branca. A franquia respira o havaiano e sinceramente estou muito ansioso para ver o que ele poderá fazer entre os profissionais.

O Training Camp, normalmente realizado lá em Agosto e já nos dá um gosto de temporada regular, me parece ser um período muito imediatista para Tagovailoa apresentar um desempenho muito melhor que o de Fitzpatrick para lhe garantir a titularidade. Talvez Russell Wilson em 2012 seja o último caso de um QB calouro que superou um veterano então incumbido pela titularidade, quando ele venceu Matt Flynn mesmo sendo recrutado na 3ª rodada e jamais parou de evoluir, até ser um dos melhores nos dias de hoje. Consigo ver um pouco de Russell Wilson em seu estilo de jogo sim, mas as comparações não fazem nada bem para um jogador que sequer completou um passe entre os profissionais.

Os mais céticos vão dizer que o sucesso de Tua se deve ao fato do Crimsom Tide ter uma dezena de jogadores capazes de atuar a nível profissional, que ele teve 4 WRs que provavelmente serão recrutados na 1ª rodada do Draft (Jerry Jeudy e Henry Ruggs III já foram, DeVonta Smith e Jaylen Waddle devem ser os próximos em 2021) e etc, mas o fato é que ele terá sua chance, só nos resta saber quando.

Sem nenhuma limitação por conta de sua lesão, Agosto deverá ser um mês crucial para Tagovailoa mostrar à que veio em sua temporada de calouro. O Dolphins, ciente disto, não deve apressar suas etapas de desenvolvimento, que deverão incluir até as tradicionais “dores de crescimento”, mas o importante é não confundir tais dores com um processo de “queimar” o jovem com um desempenho horrível ao longo da temporada e depois desistir dele – como o Arizona Cardinals fez com o QB Josh Rosen recentemente, que de maneira irônica, despachou o QB para Miami um ano após recrutá-lo com a 10ª escolha geral e não dar o mínimo de suporte para ele.

É interessante o trabalho que o Dolphins fez para reunir talentos ofensivos ao redor do atleta. A equipe garantiu a versatilidade na posição de RB ao adquirir Jordan Howard e Matt Breida de Eagles e 49ers, respectivamente, após ver o QB Ryan Fitzpatrick liderar o time em jardas terrestres em 2019, um fato inaceitável para qualquer franquia mesmo com um Quarterback móvel e capaz de castigar com as pernas, quem dirá para um veterano da posição do alto de seus 37 anos de idade.

Mais interessante que isto, é ver a equipe se baseando no sucesso de Drew Brees com o New Orleans Saints na última década e meia para preparar terreno para Tagovailoa. Ambos possuem a mesma altura (1,83m), tida como baixa para os padrões desejados para um atleta da posição, mas o Saints usou isso a seu favor: utilizou jogadores grandes e pesados para atuar como Guard, quando o normal é vermos jogadores mais ágeis, baixos e consequentemente mais leves nas posições do miolo da linha ofensiva. O Dolphins assinou com Ereck Flowers para atuar como Guard e mesmo não tendo vivido às expectativas de ter sido recrutado no top 10 do Draft, não é mais aquele jogador horrível dos tempos de Giants e vem de uma temporada razoável pelo Seattle Seahawks. O C Ted Karras veio do Patriots e sinceramente é uma contratação que pode render muito mais que sua repercussão, pois foi extremamente sólido ao longo de toda a sua carreira e se encaixa na categoria citada anteriormente.

Este suporte e paciência serão fundamentais para Tua em 2020 e além. O atleta, que tem mais jogos lançando quatro ou mais TDs (12) que interceptações lançadas na carreira (11), representa a grande esperança de novos tempos para a franquia, sedenta por um jogador dominante na posição há exatos vinte anos.


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