quinta-feira, 1 de junho de 2017

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32 por 32 - L32

As razões que eu e você tivemos para escolher os nossos times na NFL variam bastante. Como brasileiros, não estamos “presos” ao aspecto da territorialidade, ou seja, não nascemos e vivemos na cidade ou estado de nenhuma das franquias da liga e, sendo assim, podemos optar livremente por torcer por qualquer uma delas. Identificação com um grande jogador, com as cores da jersey, com a cidade ou até mesmo simplesmente porque começou a assistir futebol americano em um Super Bowl e decidiu integrar a base de torcedores de um ou outro. Do mesmo jeito que tudo isso é bem óbvio para a gente, para os americanos a coisa funciona diferente.

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Aqueles que vivem em uma cidade ou estado que tem um time jogando na NFL irão apoiar aquela equipe, ao menos na esmagadora maioria dos casos. Claro que não existe uma lei proibindo que alguém de Nova Iorque possa torcer para o Cincinnati Bengals, por exemplo, mas é um fato isolado e raro. Então, quando o dono de uma franquia ameaça levá-la para outra cidade, isso afeta não somente os negócios da liga, como também toda uma torcida que pode ficar orfã de time tão rápido como da noite para o dia, literalmente. Esse é o maior choque para aquele que começa a acompanhar os esportes americanos, pois entender que aquela equipe que hoje é o St. Louis Rams e amanhã pode passar a ser o Los Angeles Rams é algo que não entra tão fácil assim na cabeça de quem não está acostumado com esse modelo de negócios dentro do esporte. Não faz parte da nossa cultura esportiva. Mas antes de entrar no mérito dos sentimentos dos torcedores e como eles lidam com isso na prática, é válido compreender como funcionam as polêmicas mudanças das franquias.

Como os times se mudam e com que motivação

Da década de 1980 para frente, quando a NFL foi ganhando mais e mais popularidade, boa estabilidade financeira e passou a ser um modelo de negócios de muito sucesso, as mudanças das franquias trocando uma cidade por outra passaram a ser mais contestadas. Antes disso, aceitava-se com mais naturalidade a busca por um bom mercado justamente pelo fato de que a NFL não gerava tanto dinheiro quanto hoje.

Pete Rozelle, comissário da NFL entre 1960 e 1989, prometeu ao Congresso que não autorizaria que franquias mudassem de cidade se os representantes do povo livrassem a NFL de certas exigências da lei antitruste, o que permitiu a união entre AFL e NFLComo todos sabemos, Rozelle não honrou sua palavra e vimos vários times saindo de um lugar para outro desde a aprovação da lei.

O grande cerne da questão toda é um só: estádios. Esse é o grande – e em 99% dos casos o único – motivo que leva um dono de uma franquia a fazer de tudo o que está a seu alcance para desesperadamente tirá-la de uma cidade e iniciar uma nova história em outra. Isso porque os estádios são a grande galinha dos ovos de ouro para os donos, já que tudo o que é arrecadado nele ou através dele não entra no bolo que é dividido igualmente entre os 32 times. Falando em português claro, a grana que entra no estádio é do dono daquele time e a NFL não se mete. As outras receitas das equipes são divididas pela NFL de forma igual para todas.

Um estádio bem administrado, como é o caso dos estádios dos times da NFL, consegue encher bem o bolso do seu dono. Venda de ingressos, naming rights, aluguel de camarotes e assentos vip, eventos no local, propagandas e anúncios dentro dele, estacionamento, taxa para as empresas que vendem alimentos e bebidas, etc. A cada temporada, tudo isso e mais o que a criatividade permitir, deixa a conta bancária dos proprietários das franquias cada vez mais recheadas.

Por isso, lemos tantas notícias nos últimos anos falando a respeito das ameaças de mudança por parte dos owners caso não saia um estádio novo (ou reforma do atual). Essa é a grande carta na manga dos donos quando querem um novo estádio para aumentar sua receita e fazer seu negócio ser ainda mais lucrativo. Los Angeles foi a queridinha deles por muito tempo, pois como inacreditavelmente ficou sem time de 1995 a 2015, sempre que queriam uma nova casa, vinha a ameaça: “ou a cidade me dá um estádio ou vamos para Los Angeles, hein?”. E aí ou a cidade banca boa parte do investimento com dinheiro público (o que sempre gera muita discussão e polêmica) ou perde o time e tudo o que já gastou de antemão para tê-lo por lá.

Para que uma franquia possa buscar novos ares, precisa dar entrada com um processo de mudança na NFL antes da temporada começar e conseguir a aprovação de 24 dos 32 proprietários de times. No entanto, há uma exigência bastante clara por parte da liga sobre as mudanças: os donos devem ter exaurido todas as possibilidades visando permanecer na cidade em que se encontram. Essa exigência nem é bem uma exigência, na realidade é quase um pedido que pode nem ser levado em conta pelos bilionários quando querem se mudar para uma cidade com estádio mais moderno. Cleveland é um bom exemplo. Perdeu o time para ter outro pouco tempo depois, o que demonstra que a franquia que estava lá antes poderia ter ficado se houvesse o mínimo de boa-fé.

Problemas para a cidade que perdeu o time

À parte os torcedores que ficam sem ter para quem torcer (abordarei mais abaixo), logo de cara a cidade fica com um enorme elefante branco – um estádio gigantesco que custou milhões aos cofres públicos sem qualquer uso ou sendo utilizado esporadicamente, de maneira que só dá prejuízo. Além disso, centenas de pessoas que trabalhavam ou para o time ou nos dias de jogos ficam desempregados e de acordo com estudos feitos pela própria NFL esse número pode chegar a mais de mil pessoas. Por óbvio, quem trabalhava no centro de treinamento e sede da equipe fica sem emprego também.

O prejuízo atinge também as empresas que vendiam bebidas e alimentos para o estádio, seus distribuidores e os funcionários. Uma grande queda em suas receitas gera demissões e corte de gastos. A mídia também perde audiência com um time profissional a menos na cidade – às vezes o único time profissional – e isso provoca cortes na equipe esportiva da TV, jornal, rádio, site, enfim, é um dominó caindo peça a peça.

Mudanças desde a década de 1980

– Oakland Raiders para Los Angeles em 1982

– Baltimore Colts para Indianápolis em 1984

– St. Louis Cardinals para Phoenix em 1988 (renomeado Arizona Cardinals em 1994)

– Los Angeles Rams para St. Louis em 1995

– Los Angeles Raiders de volta para Oakland em 1995

– Houston Oilers se mudou temporariamente para Memphis em 1997 com o nome de Tennessee Oilers. Logo depois, se mudou permanentemente para Nashville em 1998 (renomeado Tennessee Titans em 1999)

– St Louis Rams de volta para Los Angeles em 2016

– San Diego Chargers para Los Angeles em 2017

– Oakland Raiders para Las Vegas (decisão em 2017)

O lado do torcedor órfão

Sem querer exagerar, mas o torcedor apaixonado sofre tanto quanto àqueles que perdem o emprego com a mudança da franquia que deixa a cidade. Tente imaginar a seguinte situação (não é real, é uma imaginação apenas): O São Paulo Futebol Clube passa a ser de um empresário e ele recebe uma proposta para ser o dono do Mineirão, hoje mais moderno que o Morumbi, abandona a cidade de São Paulo, passa a ter sede em Belo Horizonte e a mandar seus jogos na moderna arena da Copa do Mundo. É apenas um exemplo impossível na nossa realidade, mas imagine isso acontecendo com seu time de futebol, especialmente se ele tem sede na cidade em que você mora. Assustador, certo?

Caso o Eagles deixasse a Philadelphia e fosse para Las Vegas, por exemplo, isso iria destruir o coração dos seus torcedores na Pensilvânia. Para a torcida do Eagles aqui no Brasil, não afetaria tanto pela questão da territorialidade falada no início da coluna, mas ainda assim alguns sofreriam com isso aqui por terem escolhido o time em função da cidade dos filmes de Rocky Balboa.

Quem já se mudou de cidade quando era criança conhece a sensação. Vários amigos no colégio e, de uma hora para outra, nenhum amigo no novo lar pelo menos por algum tempo. Para quem tem o time arrancado de si, é ainda pior porque novos amigos podem surgir, mas um novo time é bem mais complicado. O que se foi passa a ser odiado da forma como os torcedores do Ravens odeiam o Indianapolis Colts, ex-Baltimore Colts. Para quem é de Baltimore e viveu torcendo para o Baltimore Colts, o gosto é amargo, mas ao mesmo tempo divide o coração – se por um lado existe o ódio daquela franquia que os abandonou, por outro existe um amor saudoso que remete aos grandes momentos que o time da ferradura já proporcionou em suas vidas. Hoje podem torcer para o Ravens, ir no estádio e comemorar o touchdown de Joe Flacco, mas no fundo sabem que jamais será como gritar por Johnny Unitas e seu então amado Colts.

Para os mais jovens, a mudança dói menos e eles tem mais facilidade em adotar de uma vez por todas o novo time da cidade. Todavia, existem os casos daqueles que decidem ficar órfão de um representante na NFL e passar a acompanhar os jogos como mero telespectador o resto de suas vidas. Outros que estão em uma região que conta com algum time do College Football, deixam a NFL um pouco de lado e focam completamente na NCAA. Tem também os mais sentidos que optam por não assistir mais futebol americano.

Conclusão

“Futebol americano são negócios”. Essa é a frase que você vai ouvir em uma conversa sobre a NFL com a maioria dos americanos. Não apenas os donos dos times levam a paixão e os negócios lado a lado no gerenciamento de uma franquia da liga, mas até mesmo a torcida encarna esse aspecto. A ideia de ir ao estádio apoiar o time simplesmente porque o ama não é algo tão claro como é para os torcedores brasileiros com seus times de futebol – da bola redonda – aqui no Brasil. Lá, a torcida exige que lhe seja entregue um time competitivo para gastar dinheiro com ele em merchan, ingressos, estacionamento, alimentação no estádio, etc. Não que não haja paixão e amor, mas andam junto com a parte do “produto” oferecido pelo dono que tem de ter qualidade.

Os times da NFL têm dono e eles visam o lucro. Até aí tudo bem. Mas em virtude dos danos materiais provocados à cidade e sentimentais aos torcedores, seria mais adequado que houvesse um processo mais firme no sentido de fortalecer as chances das cidades manterem seus times, inclusive com a ajuda financeira da própria NFL. Como latino-americanos que somos, levamos muito em conta a paixão pelos times e provavelmente nunca iremos entender e aceitar completamente essa situação que é mais frequente do que gostaríamos de ver.

Mudar de cidade é matar uma torcida inteira, é transformar seus estádios lotados e cheios de energia aos domingos em saudade, é deixar um ponto de interrogação na história e trazer um vazio para o peito de cada um que um dia amou aquele time e o ajudou a ser o que é. Portanto, donos de franquias na NFL, pensem duas vezes antes de pegar a estrada.

*Conversei com torcedores reais do Baltimore Colts para passar seus verdadeiros sentimentos nessa coluna

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