sexta-feira, 10 de maio de 2019

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Você já imaginou um homem comum, que nem sequer jogou futebol americano na universidade, conseguindo chegar à NFL? Um homem tem uma dupla jornada de trabalho, como professor durante o dia e barman durante a noite? Um homem que vive em uma cidade em crise, com sérios problemas financeiros, superando obstáculos monstruosos em uma história incrível?

Saiba que isso aconteceu na década de 1970. O nome desse homem é Vince Papale.

A partir dessa sexta-feira e até o início da temporada regular, retomamos a coluna com textos sobre a história da NFL e do futebol americano. Semanalmente, traremos um texto que conta um pouquinho dessa trajetória tão rica e cheia de nuances. E para iniciar, nada como falar desse que talvez seja o maior underdog que já passou pela liga.

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Viajemos no tempo. Estamos agora em 1974. Os Estados Unidos não passam por um bom momento econômico e a fase final da Guerra do Vietnã deixa um país dividido. É um período de desesperança, como o cinema retrata tão bem em uma das suas épocas áureas. Nesse contexto, vive Vince Papale.

Papale teve uma bolsa esportiva em uma universidade, mas foi para praticar atletismo. Uma vez encerrados os estudos, passou a ter uma jornada dupla para tentar sustentar a sua família: durante o dia, dava aula na Interboro High School, em Philadelphia, onde também era técnico do time de futebol americano. À noite, atendia o público em um bar local. Nada de extraordinário parecia que era possível de acontecer em sua vida.

Uma das muitas ligas paralelas que já existiram à NFL, a World Football League (WFL), tentava fazer algum sucesso na época. Fundada em 1973, ela durou apenas até 1975 (o que já significa uma vida maior do que a da recente AAF, pelo menos). Uma das franquias era o Philadelphia Bell. E Papale foi encorajado a fazer testes para entrar no time, mesmo sem muita experiência como jogador.

Para ser aceito no teste, ele precisou mentir a idade. Disse que tinha 24 anos, pois se contasse a verdade, que já estava nos 28, não seria aceito. Mesmo contra todas as possibilidades, a convocação para atuar veio. Não que isso significasse ainda muita coisa, já que a WFL não poderia pagar grandes quantias. Mas esse homem passou a ser assim, de repente, um wide receiver profissional.

Como você já sabe, a WFL teve vida curta. Mas participar de um time que era de uma cidade com uma grande franquia da NFL tinha suas vantagens: os atletas estavam sempre sendo observados de perto pela comissão técnica do time da maior liga do planeta. E é aí que entra Jim Murray, então general manager do Philadelphia Eagles.

Precisamos destacar que, durante seu tempo com o Philadelphia Bell, Papale não era uma arma ofensiva. Recebeu apenas dez passes em dois anos. Mas seu real valor era outro: nos special teams. Suas habilidades da época de atletismo faziam dele um excelente gunner, e ele realmente conseguia se destacar na função.

Jim Murray se interessou por Papale e arrumou um teste para ele no Eagles, direto com o head coach Dick Vermeil. E, mais uma vez, o que parecia absolutamente irreal aconteceu: o ex-professor e barman ganhou um contrato de uma franquia da NFL. Aos 30 anos de idade, ele se tornava o calouro mais velho da história da liga.

Nesse momento você pode pensar que a história termina por aqui. Que Vince Papale não conseguiu superar a concorrência dos grandes atletas da NFL e se firmar, que rapidamente foi dispensado e que a superação foi chegar até a maior liga do planeta. Poderia ter sido, sim, o final disso tudo. Já mereceria um texto e talvez até mais. Mas não: o barman ainda tinha muito o que mostrar.

Papale atuou durante três temporadas na NFL. Jogou 41 das 44 partidas do Philadelphia Eagles no período. É verdade que somou apenas uma recepção para quinze jardas em toda a sua carreira, mas como já dissemos, era nos special teams que ele brilhava. Chegou a ser votado como capitão dessa unidade. Recuperou dois fumbles, ambos em retornos de punt do adversário, durante esses anos. Sempre foi o gunner, o responsável por ser o primeiro a chegar no retornador e pará-lo imediatamente.

A Guerra do Vietnã acabou em 1975. O cinema ainda era pessimista e contava histórias pesadas, mas começava a dar um pouco mais de esperança a seus protagonistas. Em 1976, foi lançado “Rocky”, de Sylvester Stallone, com justamente a Philadelphia como ambientação. Ele venceria o extremamente soturno e pessimista “Taxi Driver”, uma das maiores obras-primas de Martin Scorsese, no Oscar. Era uma mudança na representação de como olhar para o mundo e o que nele acontece.

Por que estamos falando disso? Simples: porque “Rocky” era justamente como a torcida do Eagles chamava Vince Papale.

Uma lesão no ombro causou a aposentadoria de Papale após a temporada de 1978. Ele passou a se dedicar ao jornalismo e ao marketing, carreiras que tinha estudado na universidade.

Há um filme que conta toda essa história, “Invencível”, de 2006. Ele tem Mark Wahlberg no papel principal, mas como é tendência atual em Hollywood, mente e distorce muitos fatos por efeitos dramáticos.

A história de superação foi completada, mas ainda pode ganhar uma sequência: Vinny Papale, filho de Vince, atuou na universidade de Delaware e acabou de chegar à NFL como undrafted free agent. Ainda está no processo de fazer tryouts para tentar assinar um contrato. Mas como duvidar do que ele será capaz de conseguir depois de tudo que seu pai alcançou?

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